Confiança

Os dados são consistentes em TODOS os estudos de opinião, ao longo dos anos. Mas… o discurso que insiste em afirmar o contrário, sem qualquer base factual, também. A partir do interior da própria classe, por parte daqueles que descobriram que são melhores do que os outros, só porque se puseram do lado do vento e da necessidade de “mudança”.

De acordo com o estudo de opinião realizado pela Aximage para o Negócios e o Correio da Manhã, as forças policiais são a instituição na qual os portugueses mais confiam: numa escala de zero a 20, o índice de confiança na capacidade que estes profissionais têm de combater o crime reúne uma pontuação de 14. De seguida na tabela, com uma pontuação de 13, constam as escolas e a sua capacidade de ensinarem coisas novas aos alunos. Merecem ainda nota positiva, embora sem distinção, os patrões e gestores, os partidos políticos e as famílias.

Em terreno negativo figuram a Igreja, quanto à sua capacidade de levar as pessoas a praticarem o bem, os sindicatos quanto à sua capacidade de defenderem os direitos dos trabalhadores, e os tribunais e juízes na sua função de administração da justiça (ver gráfico).

Aximage

Anúncios

Domingo à Tarde

Deve ser daqueles casos em que algo na altura da infância nos marca de forma quase imperceptível. Em que a capa triste do livro do Fernando Namora na colecção de bolso da Europa-América e o dramatismo da canção de Nelson Ned se inscreveram no imaginário pessoal e tornaram o domingo à tarde a parte da semana de que sempre gostei menos. Quando havia Inverno, era quando se tentava adivinhar se no dia seguinte ia ficar ensopado a caminho da escola; no Verão quando o dia se esticava sem parar, porque cada amigo estava com a sua família, algures, na terra natal dos avós ou algo assim. Mais tarde, o domingo à tarde sempre me pareceu a altura ideal para os temporais sobrenaturais ou as mortes fantásticas das novelas do Garcia Marquez ou outros autores sul-americanos. A tarde de toda a semana em que a luz ganhava outro tom e em que mesmo dourada do sol era deprimente, opressiva, incapaz de animar vida. Há quem faça a associação à proximidade da 2ª feira, do regresso ao trabalho, às rotinas, às obrigações, mas comigo a sensação precedeu em muito esses tempos. Em puto, a 2ª feira era o dia de regresso ao convívio com os amigos, aos jogos de bola em tudo o que era intervalo ou furos no horário (e muitos que eles eram). O domingo à tarde sempre foi macambúzio por direito próprio, a hora do regresso de algures, do fim de qualquer coisa, o entardecer supremo. Uma certa forma de desesperança. Quem nunca desceu a Rua Augusta em fim de tarde de domingo, nos tempos em que ainda havia vida nacional por lá, no tempo dos radiozinhos de pilhas para ouvir a bola, da senhora de amores rápidos à saída da estação de metro da praça da figueira, das pensões de águas mais frias do que quentes, ali quase na esquina dos correeiros, que diga que não.

(também desci os curtos aliados ou a longa santa catarina e deu-me no mesmo…)

Décadas depois, a sensação ainda se mantém, por muitas voltas que vida tenha dado. E sei que cada vez essa sensação é mais partilhada, agora, sim, com causa directa mais evidente e dificilmente desmentível. Por muito que digamos que é este ano, este período, este mês, esta semana, que não tocamos em nada para as aulas de 2ª feira, a verdade é que sempre acabamos por ir meter as mãos na massa, fazer uma ficha de trabalho que não venha no pacote dos manuais (para consumo generalizado em nome da diferenciação, como os projectos de flexibilidade que já chegaram), uma nova apresentação sobre um tema para o qual encontrámos uma ideia nova, umas imagens inesperadas, um arquivo online desconhecido; acabamos quase quase sempre – e tanto mais quanto mais arcaicos – uma pilha de trabalhos e fichas por/para ver e classificar. E se não tivermos, temos um qualquer relatório ou molho de grelhas por preencher para demonstrar o progresso das aprendizagens, os critérios da avaliação (que se diz ser redutora,, mas deve ser justificada). E entra aquela sensação de desesperança de novo, sabendo-se que nada disto mudará no essencial, por muito que mude a conversa em seu redor, por muita confiança retórica que se despeje sobre as escolas, por muito que se diga que os professores devem ser profissionais autónomos. Desde que não desalinhem das sucessivas ortodoxias, claro. Como a das necessidades de “formação” para os novos tempos. Nem de propósito, há uns minutos abri um mail com uma meia dúzia de propostas de formação, cujo bafio me entonteceu um pouco. Claro que lá estava uma sobre “diferenciação” com um nome de formador@ que me fez soar qualquer coisa, mas não relacionado com a coisa em si da tal diferenciação pedagógica. Pesquisei por obra feita e dei com uma, recente, assim auto-apresentada: “Este processo de construção da identidade pessoal e profissional assenta na identificação dos indivíduos consigo, com os outros e com o meio envolvente num dado contexto espaço-temporal, o que pressupõe uma rede de relações pessoais e sócio-culturais, podendo produzir constrangimentos endógenos e exógenos, traduzidos em vinculações profissionais activas e/ou possíveis conflitos identitários.” Leitura típica daquela que induz pensamentos depressivos e de claustrofobia conceptual, interna e externa, endógena e exógena. Relembra-nos muito do que, durante anos, mais nos afastou de querer ser formatados. Leitura de domingo à tarde, que deve ser evitada nos domingos à tarde. Antes o Namora. Antes a RTP Memória. Antes o passeio dos tristes do isidro.

fernando Namora - domingo à tarde

O Verdadeiro Défice

Tudo aquilo que andámos a pagar como se fosse culpa nossa e continuamos a pagar, bastando olhar para o recibo da semana passada.

Queda do BES tira 25 mil milhões de euros à economia

(e enquanto o descalabro acontecia, o engenheiro fazia muito exercício saudável pelas praças de luanda e pequim, com o seu séquito de cortesãos, alguns que continuam por aí, vivinhos da silva e da costa, como se nada soubessem… zorrinhos e silvaspereiras, senadores do comentário mediático, mais os que mandam no actual governo, os tais vivinhos da costa e da silva que agora têm os antigos cães de fila pela trela, como dóceis puppies até ao rio se oferecer para lhes ficar com o lugar, com o endorsement “balsâmico”)

 

Acho Que Concordo Principalmente Com A Conclusão

Porque o resto do texto nem sempre é bem aquilo que parece. Ou então sou eu que já leio entrelinhas nas linhas que fazem curvas.

Creio que poderemos concluir que muitos professores merecem o nosso reconhecimento e valorização e é por eles e com eles que o sistema educativo tem vindo a melhorar a sua performance. Façamos-lhes justiça: quando quiser atingir alguns (professores), afine a mira e atire em cheio. Se não souber fazer, não atire. As generalizações podem matar o entusiasmo dos professores que (ainda) o têm. Sem eles o sistema educativo definha.

Thumbs

Sábado

E também chegam dias em que se pensa que chega de auto-comiseração e há que assumir o que de bom sentimos que existe e temos em nós na profissão que escolhemos e mantemos. Sim, é verdade, quase tudo se resume ao que se passa com os alunos que, como já escrevi muitas vezes, seriam os primeiros a quem pediria testemunho se disso precisasse em caso de aflição. Não sou hipócrita, nem deslumbrado, nem cego por qualquer luz externa ou interna, pelo que sei que para muita gente (leia-se, colegas) sou uma espécie de ave rara, ovelha negra, com a mania que faz as suas coisas à sua maneira, ao seu ritmo, gostando pouco de prestar satisfações, disciplinado apenas ao ponto de ser funcional dentro das hierarquias que aceita como justas. De arrogante a incompetente, já ouvi de tudo um pouco. Como ninguém nos lê, partilho algumas das pérolas que já ouvi ao longo dos anos, seja quem me acusou de ser “um dos pontos negros da escola” a quem me perguntou “mas o que andas a fazer? o teu lugar não é aqui” com a candura de quem, por uma vez, disse o que lhe ia na cabeça. Não deitando fora aquela, já há muitos anos, de me dizerem pelas costas (desconhecendo a minha tísica audição) “os alunos fazem dele o que querem”, só porque já na altura eu gostava de levar as minhas turmas uma aula por semana para os computadores com quase total liberdade para fazerem o que quisessem, flexibilizando e autonomizando quando alguns governantes ainda andavam a lamber solas para subirem na carreira alimentar.

Por isso, prefiro a atitude dos alunos, em especial quando já não são “meus” e quando já não precisam de mim para nada, mas gostam de vir recordar, com espontânea saudade,  os tempos daquelas aulas bem rasgadinhas e nada pacíficas com algumas turmas, pois aprenderam a reconhecer a diferença entre as aulas-de-acordo-com-o-plano e aquelas em que decorriam quase como combates corpo a corpo para que alguma coisa de útil entrasse naquelas cabeças mais preocupadas com tudo menos aquilo. É sempre com um indesmentível prazer e não disfarçada vaidade que se recebe o reconhecimento de que aquilo que na altura estava longe de parecer uma “boa” aula, de acordo com as teorias e metodologias das pessoas que sabem, acabou por ser algo que não foi esquecido. Porque sabem que o que se passava era “real” e não uma rotina, um automatismo. Porque perceberam que era um caminho construído à medida do que ia acontecendo. E quantas vezes, é preciso muito pouco tempo para que percebam a razão das minhas eruptivas frustrações e irritações. Porque só quem está vivo ainda as sente.

Se este tipo de auto-elogio me fica mal e dificilmente me trará maior afecto entre pares? É para o lado que eu durmo melhor e tod@s já sabem disso. Até porque nunca fingi nada para efeitos de conveniências. E cada vez menos me apetece mudar, quando o tempo encurta. Ainda não optei por apenas sobreviver no meio da neblina e do caos. E a quem isso incomoda há sempre a hipótese de passar pelo outro lado da rua. Ou do corredor.

PG Verde