Por Fim, Alguma Honestidade Intelectual

A principal mentora da gestão flexível do currículo nos anos 90, Maria do Céu Roldão, teve a oportunidade de rever e publicar o seu guia para a agora chamada “flexibilidade curricular”.

Ao contrário d@s seus(uas) actuais seguidor@s, que fazem tudo para parecer que o que afirmam é muito “inovador” e “século XXI”, ela tem a honestidade de contextualizar as coisas da forma correcta, afirmando que o que se passa mais não é do que tentar fazer o que foi tentado há vinte anos e depois abandonado (não se explica bem porquê, mas tem a ver em boa parte com questões “orçamentais”, porque a sério a coisa sai cara, assim como com alguma rotação de “capelinhas” no poder).

Posso discordar de muitas considerações que surgem no texto (em particular a recorrente e abusiva acusação do currículo se ter tornado estanque e enciclopédico, assim como umas observações despropositadas sobre o que “entre professores” se acha ou deixa de achar), mas ao menos há que reconhecer uma honestidade intelectual que falha a outr@s. É bem verdade que é uma forma de “marcar território” (basta olhar a bibliografia), mas mesmo isso serve para que se perceba que os actuais gurus são apenas de 2ª ou 3ª geração e muito pouco originais, mas que foram a correr “vender” a teoria às editoras (é espreitar o mail e ver os convites para “formação”), em vez de fazerem algo equivalente a isto.

 

 

Teremos As Escolas PIPP (E As Escolas PIPIs)

Há que destacar os pontos fulcrais da forma como se governa a Educação entre nós, a parte das palavras do próprio secretário de Estado, Desculpem se repito partes do post de ontem:

1.

Numa conversa com um amigo, que sabe que não acredito na eficácia dos chumbos, ele colocou-me a situação como se fosse uma questão de fé. Mas não é. Nós vemos nos dados estatísticos que, enquanto medida pedagógica a retenção é muito pouco eficaz, o aluno que reprova é aquele que tendencialmente volta a reprovar. E ele, a brincar, disse-me: ‘Agora que estás no Governo, proíbe.’ A minha resposta é que a proibição é um ato administrativo e não é esse o caminho que queremos, mas fiquei a pensar naquilo, até porque há países que já o fazem, que não têm retenções nas escolas. E decidimos experimentar, perceber se é possível em Portugal ter uma escola onde os alunos aprendam e não precisem de reprovar”, explica o secretário de Estado.

A partir desta passagem percebemos que – muito bem – João Costa tem amigos e discute com eles as suas políticas. E que a partir dessas conversas, decide fazer experiências, “saber se é possível” fazer em Portugal algo que ele diz que já se faz em outros países. Claro que não lhe perguntaram em quais e em que moldes, mas isso é aquela coisa de se fazerem perguntas para que a enunciação de um facto não fique sem a sua demonstração. Mas é assim… e não apenas ao nível das decisões “macro” que as coisas se resolvem entre “amigos”. O redesenhar da matriz curricular é algo que se percebe ter sido feito com “amigos” e alguns idiotas de passagem que aderiram para ficar no canto da fotografia. O novo regime dito de inclusão escolar foi feito – de forma bem clara – com outros “amigos” que têm tido a missão de produzir pressão sobre as escolas para resolverem em andamento os problemas da máquina que o maquinista não previu. Mas enquanto os “amigos” estiverem satisfeitos, quem somos nós para contestar ou, em especial, os alunos e famílias para se queixarem?

2.

A essência do PPIP é ver se é possível haver uma escola onde não se chumbe. Em troca, as escolas têm autonomia total para encontrarem a maneira mais adequada para cumprirem esses desígnios. Mas atenção: é uma experiência que não pode correr mal para os alunos. Não podemos correr o risco de ao fim de quatro anos dizermos que afinal os estudantes não aprenderam nada. É por isso que é uma experiência muito acompanhada. As sete escolas reúnem-se muito regularmente para se monitorizarem umas às outras.

Temos aqui a troca: damo-vos “autonomia”, mas têm de garantir o que nós queremos. Mas há uma cereja no bolo: a experiência é monitorizada entre pares, entre os participantes. Nada de monitorizações externas ou “independentes” da experiência. Basicamente, o projecto auto-avalia-se. Sabendo que se a auto-avaliação não for boa, as coisas correm mal, pelo que nada como garantir que é tudo excelente. Quanto às “aprendizagens” dos alunos, nada como defini-las pelo mínimo, pelo “essencial” e se possível de uma maneira que seja muito transversal. Os alunos desenvolverão “competências”. E, calma, com jeitinho até chegarem ao 9º ano, acabaram as provas finais e se não acabaram, dá-se um jeito.

3.

“Este ano, no despacho de constituição de turmas, já colocamos esta hipótese de as turmas poderem ser mais reduzidas do que aquilo que a lei prevê, mas passou muito despercebido. Não há muitas escolas a usar esta dimensão que incorporamos no despacho”, explica o secretário de Estado.

A resistência das escolas poderá ter a ver com os constrangimentos orçamentais, já que apesar da possibilidade existir não estão alocada a ela mais recursos, como a contratação de mais professores.

“Há uma turma administrativa e essa mantém todos os constrangimentos orçamentais. Ela serve para fixar a rede e o que cada escola pede em termos de corpo docente. O que existe é a possibilidade de, ao longo do ano letivo, a escola poder reconfigurar as turmas para fins de desenvolvimento do projeto de cada escolas, desde que a separação de alunos não constitua práticas de segregação”, defende.

A nova escola da “inovação”, do “sucesso” não pode é ser mais cara. Temos de fazer mais com menos, na fórmula tão criticada a Nuno Crato. Os “constrangimentos orçamentais” são inultrapassáveis. Os 0% de insucesso devem estar em linha como os 0% de défice. João Costa é Centeno até à medula, mesmo se em voz baixa faz passar que não. Afinal, não é ele o homem de confiança do outro Costa no ME? E o que nunca está nas negociações mais azedas, para depois ter margem para “seduzir” @s director@s para estas “experiências”?

4.

No concelho de Odivelas, conta o secretário de Estado, as escolas juntaram-se à câmara e à Universidade de Lisboa e apresentaram ao Ministério da Educação uma proposta de semestralização, que foi aceite.

“A organização do calendário escolar por semestres é algo que tem sido muito sugerido pelas escolas. Este ano, houve muitos pedidos. O que vejo é que, em algumas das propostas. aponta-se apenas para uma mudança de calendário e nada mais. Ora, nós não podemos correr o risco de ter os alunos entre setembro e o Carnaval sem nenhum feedback de como as coisas estão a correr”, defende.

Em Odivelas, explica João Costa, o projeto é muito sustentado e foi criado um sistema elaborado de dar reportes aos alunos sobre a sua evolução, sendo feita uma monitorização muito grande das aprendizagens feitas. Esta experiência, a par das escolas PPIP, poderá gerar mudanças na legislação.

Aqui temos duas questões essenciais: no futuro, todos estes projectos só terão algum tipo de apoio adicional se as autarquias quiserem, pois é por elas que estão a entrar as verbas do 20/20 (para pagarem estudos a “entidades externas”) e com a aprovação da municipalização, as escolas e agrupamentos perderão completamente a possibilidade e acederem de forma directa a apoios que não sejam mediados pelos serviços autárquicos. Que, claro, já começaram uma nem muito subtil tentativa de mudar a escolha dos directores dos Conselhos Gerais para os Conselhos Municipais de Educação (não deram por nada? acreditem, há muitos caminhos que estáo já a ser preparados).

Quanto à semestralização, para além da completa fragmentação da continuidade pedagógica em algumas disciplinas, percebam uma coisa… não passaremos de três para dois momentos de avaliação mas para quatro ou mais, conforme o delírio local. O “sistema elaborado de dar reportes” não passará de uma camada adicional de burocracia, obrigando a todos os meses (no mínimo) existirem os tais “reportes”, Que deverão conduzir ao “sucesso a 100%, por isso devem ser acompanhados de perto.

O círculo está quase fechado para concretizar a autonomia 0% dos professores na sua prática profissional e das escolas que não adesivem a este modelo que irá levar que muita gente opte, com os encargos financeiros correspondentes, por escolas privadas que não alinhem por esta estratégia de nivelar tudo pelo mesmo, afirmando-se o contrário.

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Autonomia A 100% Na Dependência das Autarquias?

Em tempos ainda pensei que havia alguma seriedade, divergências de lado, nas posições do SE Costa. Neste momento, estou certo que não passa de um excelente operacional da escola low cost associada a uma retórica que esvazia as palavras do seu sentido original.

Para já, e antes de avançar para essa regulamentação, o executivo terá de fazer uma avaliação de fundo ao Projeto Piloto de Inovação Pedagógica, as chamadas escolas PPIP, através do qual sete estabelecimentos de ensino já funcionam com autonomia total. O objetivo principal é perceber se é possível em Portugal haver escolas sem retenção de alunos. Só quando o projeto estiver avaliado e consolidado se generalizará a hipótese de autonomia a 100%.

Claro que é possível existir escolas com 100% de sucesso, Bastaria um decreto. Mas falta a coragem para tal. Então, empurra-se tudo para as escolas e culpabilizam-se os professores que não aderem à banha da cobra.

“O pressuposto do PPIP é a existência de uma escola sem alunos retidos. Numa conversa com um amigo, que sabe que não acredito na eficácia dos chumbos, ele colocou-me a situação como se fosse uma questão de fé. Mas não é. Nós vemos nos dados estatísticos que, enquanto medida pedagógica a retenção é muito pouco eficaz, o aluno que reprova é aquele que tendencialmente volta a reprovar. E ele, a brincar, disse-me: ‘Agora que estás no Governo, proíbe.’ A minha resposta é que a proibição é um ato administrativo e não é esse o caminho que queremos, mas fiquei a pensar naquilo, até porque há países que já o fazem, que não têm retenções nas escolas. E decidimos experimentar, perceber se é possível em Portugal ter uma escola onde os alunos aprendam e não precisem de reprovar”, explica o secretário de Estado.

O problema é que a nossa Educação anda a ser governada exactamente na base das conversas de café, entre “amigos”. Que sabemos como e onde acabam. João Costa não quer pagar o “preço” de assumir a proibição das retenções, Então prefere acusar quem não adere às suas ideias e elabora discursos redondos e tautológicos, com uma postura de arrogância virtuosa. Cria uma armadilha legislativa – os “gémeos” 54 e 55 foram um passo decisivo – que enreda os professores em 0% de autonomia para avaliar a menos que seja com 100% de sucesso.

Já não será aquela de obrigar a passar os alunos com um número indeterminado de “negativas”. Será a impossibilidade prática de atribuir essas classificações.

“Não me canso de repetir o mesmo: a alternativa a reprovar é aprender. Quando se fala no fim das reprovações, há sempre alguém que vem com a conversa do facilitismo. Fácil, fácil é ser professor daqueles que aprendem por múltiplas vias. Difícil é conseguir que estes miúdos com mais dificuldades também aprendam. No discurso público passa-se muito a ideia de que a alternativa a chumbar é passar, e isso leva a atos administrativos”, argumenta o governante.

Difícil, difícil não é exactamente isso. É criar condições para que os alunos e famílias tenham condições para que a escola faça sentido, para que os horários dos pais não estejam completamente desregulados, com vínculos precários e salários nivelados pelo padrão mais baixo. Difícil, difícil, é desenvolver o país e não usar a Educação como o grande recurso mistificador.

Difícil, difícil é fazer no quotidiano o que os decisores só sabem enunciar, mas nunca saberiam fazer, dia a dia, semana a semana, ano após ano.. Nem querem. Difícil, difícil é dizer coisas que façam sentido do princípio ao fim. João Costa vestiu calças à Maria de Lurdes Rodrigues e quer deixar a sua marca. Como Centeno quer o défice a 0%, ele quer o insucesso a 0%. Mas faz isso sempre com contraditório limitado. E quando o aceita, só se tiver direito à última palavra.

O que ele não diz é que essa forma de fazer as coisas, à força, empurrando, vai levar a Escola Pública para um descrédito de que os alunos serão as principais vítimas. Porque teremos o nivelamento por baixo. E agudizar-se-ão as desigualdades entre quem quer um sucesso baseado em algo de concreto e quem tem um sucesso por esmagamento legislativo. E sabe-se como isso em outras paragens conduziu ao crescimento do sector privado na Educação, ficando a rede pública para quem dela não pode escapar. E as decisões passarão cada vez mais por instâncias exteriores às escolas, tornando-as meras extensões dos centros de decisão municipais, porque serão estes a ter acesso às verbas para pagar os “projectos” e as parcerias que salvarão certos centros de estudos universitários da extinção. E não faltarão estudos da OCDE a comprovar a bondade de tudo.

No concelho de Odivelas, conta o secretário de Estado, as escolas juntaram-se à câmara e à Universidade de Lisboa e apresentaram ao Ministério da Educação uma proposta de semestralização, que foi aceite.

Como disse, em tempos ainda acreditei que as boas intenções fossem o principal móbil do ministro-em-vez-do-ministro. Agora acredito que é apenas uma teimosia que nos custará caro a todos enquanto sociedade, porque o agravamento das desigualdades e a criação de guetos socio-educativos serão uma realidade cada vez mais inevitável.

Quando se perceber isso, já certas figuras estarão nas suas prateleiras douradas, em cargos com forte componente cosmopolita

JCosta1

 

Outro Pensamento

Ao longo das aulas de […] procurou desenvolver-se um trabalho que combinasse a vertente da pesquisa sobre temas, avaliada pelo envolvimento dos alunos e pela sua atitude perante a aprendizagem, e um momento mais formal de avaliação dos conhecimentos obtidos com esse trabalho. A generalidade da turma revelou uma enorme apatia e desinteresse, mesmo quando tiveram meios digitais aos seu dispor para recolher informação ou lhes foi solicitado que apresentassem propostas de trabalho próprias. Alguns alunos, avaliados com nível um não se envolveram em nenhum momento nas atividades e explicitaram que nem pretendiam fazer o que lhes era solicitado (…). A tudo isto, acresce a falta de assiduidade (…) e, em especial de pontualidade. Sendo de 40% a ponderação nesta disciplina das “Atitudes e Comportamentos”, são poucos os alunos com um desempenho verdadeiramente satisfatório. Porque a responsabilidade desta situação não pode ser sempre atribuída em exclusivo aos docentes, é importante que os alunos, e respetivos encarregados de educação, entendam que sem o seu envolvimento não será possível “fabricar” classificações de sucesso garantido, por muitas estratégias que se diversifiquem.

Nutty

A Carga da Brigada Ligeira

Agora é o “investigador e professor universitário” Manuel Carvalho da Silva que, por entre umas bicadas ao governo, também aparece a enlamear os enfermeiros por estarem a colocar em causa a confiança dos portugueses no SNS. Quando a própria ministra pede desculpa aos enfermeiros, percebe-se que o ex-líder da CGTP está preocupado é com isto:

Agora, emergiu a designada “greve cirúrgica” promovida por dois “jovens” sindicatos e um movimento inorgânico, aparentemente sob a inspiração ideológica da bastonária da Ordem dos Enfermeiros. Pela sua duração e focagem nos blocos operatórios e em hospitais de grande relevo, pela forma de financiamento dos grevistas, e também pela complexidade e importância do setor, é normal que esta greve seja socialmente questionável e efetivamente questionada, suscitando justificadas interrogações.

O que tem ele a dizer do seu camarada de sindicalismo (passado) e partido (de sempre) quando anuncia que 2019 será o ano de tidas as lutas dos professores?

Que está a colocar em causa a confiança dos portugueses na Escola Pública e a empurrá-los para o ensino privado?

Há por aqui algo estranho… se o PCP/CGTP têm alguma prova de algo, apresentem-na, se têm suspeitas, desenvolvam o raciocínio de forma coerente. Se o objectivo é apenas fazer um frete ao governo e “matar” qualquer tipo de sindicalismo ou movimentos “inorgânicos” que escapem ao seu controlo, estão a desempenhar bem o seu papel.

Carga

Um Pensamento

O Conselho de Turma considera que têm sido desenvolvidas as estratégias adequadas ao trabalho com a turma, sendo necessário que os alunos entendam que só a sua colaboração ativa no desenvolvimento das tarefas que lhes são solicitadas poderá levar a aprendizagens significativas e à ultrapassagem das suas dificuldades. Do mesmo modo, se considera que os encarregados de educação devem manter uma atitude de maior proximidade em relação ao desempenho dos seus educandos e de exigência em relação à sua atitude nas aulas, não esquecendo o controle de tarefas como os trabalhos de casa.

keepcalm