Morte

Nunca conheci pessoalmente o João José Cardoso do Aventar, entre outras paragens. E nem sempre tivemos uma relação pacífica, pois parece que partilhávamos um temperamento com arestas e nem sempre a comunicação era a melhor. Mesmo em coisas blogosféricas, acabámos sempre por andar em tertúlias diferentes, depois do frentismo inicial. Mas acho que o mais importante é que sempre nos respeitámos, mesmo quando discordávamos na forma de alcançar um fim. A morte dele não me apanha de surpresa, tanto porque já pouca coisa me apanha assim, como porque pessoas amigas me iam fazendo alguma actualização da sua fulminante luta.

JJCArdoso

Foto da Margarida Az.

Transpiração

O Observador vai fazendo um imenso esforço por publicar todo o tipo de textos ou análises que demonizem e diabolizem qualquer hipótese de um governo que represente mais de 50% dos votos expressos, desde que seja à esquerda. Do douto Ramos ao barbudo Milhazes, tudo serve para agitar bandeiras vermelhas e negras.

As maiorias negativas que derrubaram Sócrates não podem ser repetidas para derrubar Passos e Portas.

Os comunistas-papões servem para alianças autárquicas com o PSD – vidé Loures e quantas outras num passado recente – mas não para uma aliança nacional com o PS.

Afinal, apesar das eleições legislativas em regimes democráticos serem para os deputados no Parlamento e não para ministros, primeiros ou segundos, em 4 de Outubro estava-se a fazer uma qualquer forma de plebiscito para primeiro-ministro.

Os recursos retóricos e falácias intelectuais em mobilização são em catadupa e os responsáveis do site político (de José Manuel Fernandes na RTP3 a David Dinis na TVI24, passando por Helena Matos onde calha) até se atropelam para aparecer nos ecrãs televisivos.

Agora até aparecem aqueles que denunciam um possível regresso em Portugal à URSS estalinista, quando muitos destes grandes democratas não se incomodavam quando os líderes europeus iam receber a avença à Líbia de Khadaffi e não se incomodam – em nome do liberalismo – com a venda das nossas maiores empresas a representantes capitalistas de democracias consolidadas como a China ou Angola.

Só não são completos hipócritas, porque se sabe que estão a fazer tudo por garantir a continuidade dos seus empregos, pois o financiamento do “projecto” pode estar em risco se não demonstrarem o afinco necessário.

E sabe-se o que as pessoas são capazes de fazer para colocar comida na mesa dos filhos ou para mudar de smartphone a cada estação do ano.

Magoo

Deslumbramentos

Muitas explicações sobre a crise em que estamos, mesmo quando apontam o dedo de forma certeira, esquecem um detalhe que para mim é fundamental: o deslumbramento parolo e provinciano de Sócrates quando pensou que os poderosos europeus eram seus amigos e que lhe podia dar a volta, ele, o intrépido escalador vindo de nenhures, capaz de causar frémitos à Ângela.

Porque estamos assim, em grande parte, porque Sócrates acreditou que aquele dinheiro vinha sem contrapartidas. Como quem recorreu aos bancos, que despejavam créditos ávidos pelos juros das dívidas, e depois ainda ouve dizer que a culpa foi sua.

Sócrates acreditou que uns encontros pela Europa e uns fatos de primeira qualidade o faziam entrar no clube dos importantes, não percebendo que eles só aceitam os que assumem a mesma pelagem (olhai os nossos comissários europeus) e nunca os que pensam ser mais espertalhões e safar-se com isso.

Em 2009-10, o dinheiro vinha para o atascar em dívidas, e atrás dele o país e todos nós, por forma a nos tornarmos serviçais do clube. E ele é culpado por não ter percebido isso, na sua cega vaidade.

Se há coisa que é inegociável é uma atitude de distância e desconfiança em relação a quem se conhece em ocasiões festivas, com mais ou menos drinques e aparências de grande proximidade. Há quem acredite que é mesmo assim.

Não é. Os amigos, muito menos de confiança, não se acham dessa forma. A pior forma de provincianismo é a daquele que se esquece que quem nos sorri muito e elogia o verbo ou o bom gosto da gravata, sabe muito bem distinguir de onde viemos e até onde estamos dispostos a ir.

É mais fácil que isso fique esclarecido desde o início e não se criem equívocos em torno do conhaque. Que será sempre pago no fim, por muito que alguém pense que foi o charme a conquistar as borlas ocasionais.

pipe

Coolness

Desanimam-me bastante aqueles adultos, já bem entrados na idade adulta, que fazem tudo para tentar parecer cool às gerações mais jovens, para isso imitando-lhes os tiques mais caricatos ou procurando fazer-lhes todas as vontades para serem gostados.

Só que essa forma postiça de se ser cool esbarra na impossibilidade de se parecer o que não é, junto de quem é. Como se os peles-vermelhas do velho oeste se deixassem enganar por um cara pálida com a cara borrada de vermelho.

Em vez de se afirmar uma identidade digna de ser respeitada e aceite, abdica-se dela e julga-se ser juventude o que não passa de outra coisa que, bem vistas coisas, se resume ao ridículo.

Albha