Paternal

Nunca tive discussões políticas muito longas com o meu pai, embora tenham sido claras e sempre respeitando as respectivas posições. ele seria comunista até à morte e eu respeitei isso; eu nunca o fui e ele nunca me tentou converter em nenhum momento da vida.

Com o tempo, ele foi amaciando as arestas e tornando-o mais paciente e contemplativo da política activa, em especial ao ver que nos panos de todas as cores caíam grandes nódoas.

Eu fui fazendo o trajecto inverso, perdendo mais rapidamente a pachorra com o passar do tempo, em especial com certas figurinhas cá deste burgo rectangular e ilhas.

Nos nossos almoços dominicais, por vezes, falava-se das actualidades e eu nem sempre me continha e lá verbalizava uns quantos amoques político-pessoais em relação a criaturas diversas, de pelagem variada

Ali pelos finais do Verão de 2000, quando tomei conhecimento da elevação a ministro de Guterres de um professor efémero que tivera num seminário de mestrado uns bons anos antes e que eu considerava o exemplo típico do homem sem qualidades, cheio de conversa fiada e bom conviva de mesa de café, mas tão só, lancei-me em diatribe mais longa do que o habitual sobre a mediocridade do recrutamento da classe política.

A certa altura, quando terei parado para nova garfada, disse-me o meu pai que eu estava errado e que, apesar de tudo, “qualquer gajo que chega a essa posição algumas qualidade há-de ter”, por muito que eu o achasse um pompous fuck (não usei estes termos ou equivalente à mesa, bem se entenda… mesmo nas esquerdas há decoro perante as vitualhas que tanto custaram a comprar).

E era essa a sua forma de ver as coisas, mesmo quando aplicada a gente muito fora do seu quadrante político. E eu acabei por lhe dar razão, realmente estas criaturas têm as suas qualidades, assim como qualquer escaravelho ou escorpião as tem no conjunto dos seres vivos.

A questão é que essas “qualidades” não são aquelas em que me revejo ou que, nem de longe, gostaria de ter ou partilhar.

Tudo isto porque vi um texto de página inteira do Miguel Relvas no Público, depois de outro do Francisco Assis, ontem, assim como o Pires de Lima num telejornal, todos a tentar raspar um tema que lhes considero tão pouco natural quanto a ética política. Lá que terão “qualidades”, terão… só que… f***, f**k, f*ck… (pardon my french).

Pompous

5 thoughts on “Paternal

  1. Essa é a tradição da velha Margem Sul. No velho Interior deprimido, a tradição é a religião: vota-se a quem anuncia ser Cristão (CDS). Os filhos do Interior deprimem e protestam: uns vão para a politica mamar como os alfacinhas- querem ser gente, outros, muitos, emigram e finalmente outros lutam todos os dias, numa luta feroz contra o envelhecimento e vão votando ao sabor das modas.
    Eu voto em quem demostra melhor preparação para o cargo e não, não sigo a tradição.

  2. Nestas ocasiões, de maior crispação e turbulência política, é que vêm mais ao de cima – como se costuma dizer do azeite – as “qualidades” dos nossos actores políticos.

    Uma das “qualidades” que me diverte mais é observar como eles projectam nos outros, nos seus adversários ou rivais, os defeitos, os fantasmas que lhes assistem, que os atormentam a eles próprios.
    (O velho Freud chamava a isto justamente “projecção”).

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