Sindicalismo

Publicado originalmente no ComRegras, a acompanhar os resultados da sondagem semanal. É mais extenso do que o habitual por aqui, mas…

Sindicatos: é amiúde insuportável viver com eles, mas não podemos viver sem eles. Pelo menos, num regime democrático, em que os trabalhadores não estejam proibidos de se associar livremente e ter representantes, legalmente protegidos, a negociar em seu nome com os patrões/empregadores, privados ou públicos.

Os resultados desta sondagem indicam exactamente isso: apenas um pequena minoria contesta a sua existência; mesmo incluindo os que os consideram um “mal necessário” só se atinge pouco mais de um terço das respostas.

A minha relação com os sindicatos sempre foi de distanciamento pessoal, nunca tendo sido sindicalizado. A principal razão para essa distância não se baseia numa desafeição pela sua existência ou importância, mas mais no desagrado pelo seu funcionamento concreto, pelos procedimentos organizacionais. Assim como não me inscreveria nunca num sindicato (ou em mais) apenas para beneficiar das suas vantagens (apoio jurídico, descontos aqui ou ali).

E o que me desagrada, verdadeiramente, no caso concreto do sindicalismo docente, assim visto de fora e correndo o risco de ouvir aquele argumento míope e gasto de que só quem lá está dentro tem direito a criticar (se assim fosse, nunca poderíamos criticar a conduta de partidos a que não pertencemos)?

Desagrada-me, em primeiro lugar, a sua atomização numa multiplicidade de organizações, quantas delas criadas não sabemos bem porquê, por quem ou com base em que apoios e recursos. No caso do sindicalismo docente, é difícil sabermos sequer o nome correcto de metade ou mais dos sindicatos que por vezes colaboram com o seu símbolo para as “plataformas” unitárias efémeras e raramente conseguimos saber o nome de algum dos seus líderes. E muito menos conhecemos o seu programa ou algumas das suas posições, tão pouca é a sua presença nas escolas.

Em segundo lugar, em especial nas organizações mais representativas, desagrada-me aquilo que podemos designar como “sindicalismo profissional”, ou seja, pessoas que há décadas deixaram de exercer o seu ofício original (neste caso, ser professores, educadores) para se dedicarem apenas ao papel de dirigentes sindicais, como se fossem insubstituíveis nesse papel e uma classe profissional tão vasta e qualificada não permitisse uma renovação dos rostos que vemos sempre nas mesmas funções ou em rotas ascensionais que se podem considerar carreiras. Em meu entender, o exercício da nobre função de sindicalista não pode sobrepor-se à de professor e é difícil sentir-me identificado com quem não exerce a profissão que diz representar. Seria essencial existir uma limitação nos mandatos que cada pessoa pode exercer com dispensa total da docência. Sei que é uma posição mal vista em alguns ambientes, mas bem aceite em muitos delegados sindicais que fazem o trabalho de base nas escolas, raramente com dispensa de horário para tal.

Por fim, por agora, gostaria de destacar o desagrado na forma de funcionamento da generalidade dos sindicatos que têm um processo de tomada de decisões que raramente parte da consulta das bases ou que, quando o faz, apresenta um guião pré-definido, com posições prévias que raramente vi serem alteradas depois de tal consulta. A nossa história recente está polvilhada de situações deste tipo, em que a distância entre a decisão tomada pelas cúpulas sindicais e o sentir dos professores nas escolas foi demasiado grande. E isto não é uma simples opinião pessoal, mas sim o resultado de uma observação directa e quotidiana, de anos a receber testemunhos e mensagens a sublinhar isso mesmo, o facto de se sentir que a “representação” assume o duplo sentido da palavra, esquecendo quantas vezes o que tem de emanação de poder dos representados e optando por assumir mais as roupagens do que chamo a “coreografia da contestação”. Coreografia que oscila entre o radicalismo da retórica e a responsabilidade dos acordos assinados à pressa.

Dito isto, retomo o que escrevi inicialmente. Sem a existência de sindicatos, a democracia fica amputada. Apesar dos seus defeitos, não há outro modo dos trabalhadores terem uma representação em sua defesa. Que precisam de alterar os seus procedimentos, os tiques de controlo do “aparelho” por parte dos que se gostam de perpetuar nos cargos? Sim. Que isso só se faz através da participação interna, da sindicalização e da militância activa? Talvez. Mas também é verdade que já vimos momentos em que os sindicatos foram empurrados de fora para dentro a agir de modo diferente. Até porque eles pretendem representar os professores, todos, e não apenas os prosélitos que apenas servem para ecoar a voz que surgem do topo.

sindicatooo

4 thoughts on “Sindicalismo

  1. Apesar disto “o exercício da nobre função de sindicalista não pode sobrepor-se à de professor e é difícil sentir-me identificado com quem não exerce a profissão que diz representar” e da “coreografia da contestação”, que me encanitam especialmente (a segunda bem sentida na pele), também votei no “imprescindíveis”. Still.

  2. E para contextualizarmos melhor a questão, devemos sublinhar que, na situação em que vivemos, o papel dos sindicatos ainda se torna mais relevante e necessário.

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