O Debate

Ouvi muito pouco, tanto por causa dos compromissos lectivos, como porque não sou muito fã de cerimónias fúnebres.

Mas, a caminho de casa, lá apanhei coisa de uns 15 minutos, intercalados com música para limpar as sinapses, entre o final da resposta do efémero novo PM à intervenção do Bloco e o início da do Jerónimo de Sousa.

O que quer dizer que apanhei, assim de frente, com a intervenção do Nuno Magalhães em forma de vénia e a resposta, com salamaleque final, de Passos Coelho.

Pelo meio, ficou uma conversa que, mesmo para alguém que desgosta de comparações excessivas com outros tempos por causa da banalização do recurso, só fazia recordar o seminarista António ali por 1930-32.

O uso de expressões como “dar o passo maior do que a perna permite”, a propósito da comparação dos gastos dos tempos de Sócrates com a eventual recuperação salarial de muitos portugueses, e outras pérolas demagógicas do género, deu-me vontade de questionar se devo acreditar na reencarnação, mas entrópica, de outro alguém que muito (ab)usava deste tipo de discurso popularucho.

O problema é que o novo e efémero PM parece não perceber – ou se percebe, disfarça – que os excessos socráticos e o que acumularam à dívida do Estado passaram muito mais pelos gastos sumptuários com obras de que muito beneficiaram as empresas do centrão dos negócios que agora se aflige e não tanto pelos salários de enfermeiros e professores ou pelas pensões, por muito que o ranzinza carreira insista todas as semanas, com gráficos do mais simplista que se conhece e o beneplácito da jornalista que acena que sim.

Uma coisa é travar o TGV ou o novo aeroporto, parar as auto-estradas feitas a monte pelo campos e o lino ou ter tino nas obras da Parque Escolar e outra coisa é regatear pensões de 1500-2000 euros após 35 ou 40 anos de trabalho.

O problema é que, pelo que se conhece, apesar dos cortes draconianos nos rendimentos dos portugueses, do desemprego e da emigração, continuamos com uma dívida pública galopante porque o finado governo não teve coragem para cortar as verdadeiras gorduras dos chupistas do Estado (chuchalistas, mas também muitos laranjas que andaram a gerir empresas do Estado e passaram a secretários e consultores), muito dos quais continuou a beneficiar.

O resto da conversa, repito, relembra o que de mais chão nos deu há mais de 80 anos um outro grande moralizador dos gastos públicos, sendo que, por ser repetido e sem qualquer lampejo de originalidade, revela uma enorme indigência política e preguiça intelectual do actual.

SuperSalazar_1-478x478

Até tem orelhas e tudo.

4 opiniões sobre “O Debate

  1. Os pafistas (governantes, deputados) mostraram-se histéricos. O Amorim então estava apoplético!

    Quando estas criatura acusam o AC de querer é o poder a todo o custo, fustigam-se com um irónico boomerang.

    Quanto ao suposto “despesismo” que aí vem com o novo governo, não me espanta que eles utilizem esse argumentário tremendista, mas que haja tanta gente (alguma que se julgava informada, mas por vezes também o credo ideológico não ajuda…) que crê e parece ter interiorizado a ideia de que o buraco nas contas do estado se deve aos FP e aos pensionistas. Ainda pedirão desculpa por viverem acima das suas possibilidades. Quiçá por existirem (aliás, o governo da direita até governaria bem não fora o empecilho que os portugueses são).
    Espero que, em conformidade, rejeitem quaisquer reposições salariais que lhes queiram dar…

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  2. O moralismo faz parte do património genético de todas as direitas.

    E de alguma esquerda, se calhar, também.

    No tempo presente, é sobretudo o neoliberalismo que usa e abusa do discurso moralista, para nos convencer a pagarmos as fraudes e os buracos financeiros causados por banqueiros gananciosos aliados a políticos corruptos que andaram a viver acima das nossas possibilidades.

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