França e Venezuela

Eleições complicadas nos dois países. Em França, as ondas de choque dos atentados dão uma força enorme a Marine Le Pen (que tem mais apoio nas comunidades portuguesas do que se gosta de admitir), pois Hollande não convence quase ninguém e o seu show-off militarista das últimas semanas é visto como oportunista.

Na Venezuela, o perigo é que Maduro é um proto-ditador, incapaz de perceber que os “ismos” morrem com os próprios e que as eleições não servem apenas para enfeitar os regimes.

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Cretinismo Cronístico

É complicado ter de escrever crónicas por ofício quase único e ter um leque repetido de ódios de estimação. É que, por vezes, nem o talento para a escrita consegue ocultar a distorção intelectual.

Não falo de MSTavares, porque aí teria de retirar a parte do “talento” e deixar apenas o “jeito”. Refiro-me a Vasco Pulido Valente que, após décadas a deitar abaixo o PCP por ser ortodoxo, marxista-leninista até ao tutano e incapaz de se reconverter à vida em democracia e à necessidade de se chegar aos meandros pragmáticos da governação, hoje surge a criticá-lo, citando Lenine, por ter feito tudo aquilo que antes se afirmava ser necessário que fizesse.

Mesmo eu, que muito desgosto das práticas do PCP em muita coisa e que por lá tenho quem me deteste como modo de vida (quem andava pelo Umbigo sabe do que falo), sou obrigado a admitir que o PCP não pode ser crucificado tanto por ser ortodoxo e monolítico como por ser heterodoxo e flexível às conjunturas.

Não sei se uma caixa de megakompensan conseguirá ter sequer um bocadinho de efeito, mas era bom que VPV não se afundasse de forma tão caricata nos seus demónios.

VPV6Dez15

Prioridades

A sondagem do ComRegras desta semana foi sobre quais deveriam ser as prioridades do novo ME. Enquanto não me chega o gráfico com as respostas, fica aqui o meu comentário.

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A dispersão das respostas nesta sondagem demonstra até que ponto é complicado encontrar um denominador comum minimamente alargado para uma política pela positiva na área da Educação. Sendo que é relativamente pacífico encontrarmos aquilo a que nos opomos, já é bem mais problemático encontrar 3 ou 4 medidas que consigam congregar uma relativa unanimidade e muito menos uma consonância com as agendas políticas. Basta ver como, entre quase 1500 respostas, apenas 2,9% se revela preocupado com a necessidade de reduzir o número de exames, que foi a primeira prioridade da nova maioria parlamentar de apoio ao novo governo. Uma minoria muito aguerrida e vocal nem sempre corresponde ao sentir da maioria. Assim como uma maior autonomia das escolas, grande causa comum dos governos liderados por PS e PSD nas últimas décadas tem um eco diminuto no sentir dos professores (2,7% das respostas a este inquérito) quanto ao que poderia melhorar o funcionamento das organizações escolares.

Assinalada esta desconformidade entre agendas políticas de quem decide e legisla e as prioridades sentidas por quem tem a obrigação de executar, passemos para uma proposta muito pessoal de prioridades que coincide apenas parcialmente com as respostas mais frequentes dos inquiridos. Vou dividi-la em três planos: o dos alunos e famílias; o dos professores e o das organizações escolares.

No plano dos alunos e famílias, julgo que a redução do número de elementos por turma é essencial para potenciar uma melhoria das aprendizagens, pois permite um ambiente em sala de aula à partida mais calmo e que possibilita mais tempo para cada aluno se expressar, colocar as suas dúvidas e interagir com o professor. A medida, quantas vezes apresentada como corporativa e apenas como vantajosa para os professores, deveria ser uma prioridade das organizações parentais, quantas vezes mais interessadas apenas no seu papel institucional e em idas a reuniões e muito menos no que é essencial para que as aulas decorram nas melhores condições. Ainda em defesa dos alunos, considero de elementar justiça que se faça uma pausa nos experimentalismos curriculares e programáticos, com efeitos directos num outro aspecto que é a do mercado dos manuais escolares e materiais de apoio. É essencial estabilizar o currículo e os programas das disciplinas, terminando de vez com lutas feudais em disciplinas como a Matemática e o Português ou as iniciativas demagógicas em torno do ensino do Inglês. É tempo do Ministério da Educação ganhar a capacidade de estar acima dos grupos de pressão e funcionar como regulador e não como actor parcial.

No plano dos professores, estranho que os docentes atribuam tão pouco valor a uma reforma do Estatuto da Carreira Docente, embora isso se possa dever a um justificado receio com base no que se passou na última década: para pior, antes assim. Mas acho que seria importante que o ECD passasse, pelo menos, a ser letra viva quanto a um plano de carreira que ficou congelado e sem qualquer perspectiva de aquecimento global. Já o regresso a um modelo de concurso com regras unificadas e transparentes, admitindo poucas excepções, seria se elementar justiça para evitar distorções graves em matéria de eventos “extraordinários” ou concursos de oferta de escola que mais parecem o faroeste durante a corrida ao ouro. Não me parece que outras iniciativas sejam mais importantes, mais parecendo que, em certos momentos, existem “lutas” que passam muito ao lado do que é mesmo relevante, para dar aparência de “movimento”.

Quanto às organizações escolares, parecem-me fundamentais duas medidas que, elas sim, representariam um enorme ganho em termos de funcionamento: a primeira delas seria a travagem do processo paradoxal de fragmentação nacional do sistema de ensino em combinação com a híper-centralização local da rede escolar. Traduzindo… é importante parar com a municipalização da gestão escolar antes de se ter uma avaliação séria das primeiras experiências (o que não se faz num par de anos), assim como reverter a dramática amputação da rede escolar de primeiro ciclo, factor adicional de desertificação de muitas zonas do país e origem de novos mecanismos de desigualdade de oportunidades. Uma segunda medida seria a flexibilização do modelo interno de gestão escolar, acabando com a solução única da direcção unipessoal, permitindo às escolas públicas uma liberdade organizacional que existe nas escolas privadas que alguns de apresentar como modelos de boas práticas e de sucesso.

Por fim… uma parágrafo quase curto sobre a nova equipa ministerial, em ligação às sondagens anteriores. Do novo ministro pouco sei, apenas achando que este não é um cargo muito apropriado para se fazerem aprendizagens em exercício. Quando à secretária de Estado adjunta (Alexandra Leitão), após ver uma sua intervenção pública sobre Educação, fiquei convencido que é uma opção de casting equiparável à da secretária de Estado inicial de Nuno Crato (Isabel Santos Silva), ou seja, alguém com umas ideias muito gerais sobre tudo isto; resta, pois, O secretário de Estado João Costa, o único elemento do círculo mais restrito de conselheiros de António Costa com conhecimentos sobre Educação. Parece-me pouco, embora se adivinhem tempos mais calmos na contestação sindical, que deve voltar à cordialidade real dos tempos de Isabel alçada/Alexandre Ventura, com declarações públicas tão inflamadas como inconsequentes perante o diktat dos comités centrais.

ComRegrasPrioridade