Cretinismo Cronístico

É complicado ter de escrever crónicas por ofício quase único e ter um leque repetido de ódios de estimação. É que, por vezes, nem o talento para a escrita consegue ocultar a distorção intelectual.

Não falo de MSTavares, porque aí teria de retirar a parte do “talento” e deixar apenas o “jeito”. Refiro-me a Vasco Pulido Valente que, após décadas a deitar abaixo o PCP por ser ortodoxo, marxista-leninista até ao tutano e incapaz de se reconverter à vida em democracia e à necessidade de se chegar aos meandros pragmáticos da governação, hoje surge a criticá-lo, citando Lenine, por ter feito tudo aquilo que antes se afirmava ser necessário que fizesse.

Mesmo eu, que muito desgosto das práticas do PCP em muita coisa e que por lá tenho quem me deteste como modo de vida (quem andava pelo Umbigo sabe do que falo), sou obrigado a admitir que o PCP não pode ser crucificado tanto por ser ortodoxo e monolítico como por ser heterodoxo e flexível às conjunturas.

Não sei se uma caixa de megakompensan conseguirá ter sequer um bocadinho de efeito, mas era bom que VPV não se afundasse de forma tão caricata nos seus demónios.

VPV6Dez15

3 thoughts on “Cretinismo Cronístico

  1. Sobre o PCP, sobretudo nos últimos tempos, têm-se dito imensos disparates. Uns por ignorância, outros por táctica, outros por pura má fé. VPV, esse, quase já só escreve para se glosar a si mesmo…

    Os Pafistas querem recobrir o PCP com os qualificativos e os fantasmas ideológicos que muitos sectores da direita sempre procuraram alimentar – por ressentimento ou desejo de vingança – desde os tempos do PREC. Em certo sentido, estes últimos 4 anos foram para ela um ajuste de contas com a História e, em particular, com o PCP e o que ele representa, radicalizando maniqueisticamente o discurso político e basculando o campo político para a direita. No fundo, nunca perdoaram a Melo Antunes ter dito, no rescaldo do 25 de Novembro, que o PCP faz falta à nossa democracia.

    Ora, o que é facto é que o PCP é um partido do regime, um partido claramente institucional (em certo sentido, é talvez o mais institucional). Por motivos históricos, políticos, sociais e culturais representa sectores da população que não se revêem em mais nenhum partido (quem viveu como eu em zonas como a do Barreiro muitos anos perceberá talvez melhor estas coisas).
    E, no papel de partido de protesto, da contestação social, sempre se comportou de uma forma civilizada, cordata e responsável. Greves e manifestações sempre dentro do quadro legal, no local e nas horas combinadas. Só poderá acusá-lo de “radicalismo” quem não conhece o que se passou e passa noutras paragens.
    A direita, aliás, devia estar reconhecida ao PCP por, tendo passado 4 anos no governo a dirigir uma política de devastação social e de revanche ideológica sem precedentes na nossa democracia, este ter constituído uma autêntica válvula de escape que permitiu manter a contestação político-social em níveis diria anormalmente mornos para a gravidade da conjuntura vivida.

    Agora, o PCP viu-se, simplesmente, na contingência de ter de apoiar um governo do PS, com um programa moderado, de centro-esquerda, por obediência ao seu consabido princípio pragmático e táctico de, quando não consegue o que se deseja, tem que se agarrar o que se pode, rompendo no mesmo passo com o tabu que ele próprio ajudara a tecer (autoexcluindo-se) de não se envolver em soluções de governo.
    E deu assim uma lição política, de rasgo estratégico e de realismo táctico, à direita histérica e desorientada.

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  2. Todo este processo serviu para revelar os verdadeiros sentimentos da direita, mesmo aquela aparentemente mais “centrada” ou mais crítica da governação. No caso deste, é o início da senilidade.

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