Ideias

Quem tem uma, de tempos a tempos, acarinha-a como a um filho pródigo e encara todas críticas que lhe fazem como blasfémias. Entende-se. Quem consegue ter mais de uma ideia por mês, embora as estime e defenda com a devida veemência, sente-se menos ameaçado quando as atacam. Faz parte de um hábito de debate intelectual aberto.

Canivetes

4 thoughts on “Ideias

  1. Vejamos, então, estas ideias de alguém como eu que está farto dos debates sobre educação entre a esquerda e as suas pedagogias delicodoces e a direita que se limita a atirar exames para cima dos problemas. Um post da Raquel Varela:

    “O debate sobre a educação divide-nos, há realmente visões muito diferentes do mundo. Tenho os meus filhos na escola pública. Fizeram exames na 4ª classe – não são mais ou menos infelizes por isso. Mas das 7 professoras que tiveram 5 delas davam erros graves de português e desconheciam o ensino elementar da matemática – os meus filhos sabem matemática hoje, com boas notas, porque o avô engenheiro se dedicou a ensinar-lhes. A este fenómeno não se chama escola mas reprodução social, ou seja, filho de sapateiro sapateiro será filho de engenheiro engenheiro será. A escola devia ser para reverter isto e dar acesso ao saber a todos – hoje isso está colocado em causa. Chegámos ao ponto inenarrável das crianças estarem 8 horas na escola e mesmo assim precisam de trabalhos de casa, ajuda dos pais exaustos, aulas de apoio e explicações, academias e ATLs de estudo – não respiram, não brincam e mesmo assim não aprendem mínimos. Os dados internacionais de Portugal são inaceitáveis – mais de 50% de negativas a matemática e português – um absurdo, que obviamente tem múltiplas causas mas o problema «não está em casa» porque em casa ninguém tem que ensinar matemática ou português ou fazer trabalhos de casa. Como é que se está 8 horas na escola e se necessita de mais tempo de estudo é uma pergunta sem resposta razoável. Na verdade a escola portuguesa espelha o método de países onde predomina a mais valia absoluta – não se trabalha pelo saber, racionalização , salários bons mas pela exaustão – não fez em 6 faz em 8, não fez em 8 faz em 10! É a baixa produtividade aplicada ao vivo nos nossos filhos – como não aprendem com quem sabe bem e tem boas condições em 5 horas, ficam em frente dos livros mais 5. Chama-se a isto destruição de riqueza e perda de produtividade, com o custo da infelicidade real das crianças que não brincam as horas que deviam e precisam.
    O problema tem muitas causas e duas delas são interdependentes: as condições laborais dos professores e o saber científico. Sem se resolver a questão das condições laborais não se vai resolver nada. Mas o mesmo se passa com o saber – quem ensina tem que saber ou então está a reproduzir uma sociedade classista em que quem frequenta colégios de 1500 euros (não os de 500) tem domínio sobre o saber e quem não os frequenta fica expropriado, empobrecido, entretido com um ensino rebaixado à sua «condição social». A escola é segregada não só por bairros mas pela qualidade científica dos professores. Uma das origens dos problemas destes resultados medíocres está nas Universidades, e a nós académicos ficar-nos-ia bem sermos menos corporativos. As universidades têm cursos que são há muito insuficientes para formar com qualidade os professores – nos corredores todos assumem a questão, em público fala-se da excelência e de rankings, que crescem à medida que aumenta a ignorância dos nossos alunos, pelos quais somos co-responsáveis. Bolonha, ausência de renovação do corpo docente, corte entre via de ensino e via educacional (ideia de Cavaco Silva Ministro que o PS abraçou), transformação dos professores universitários em investigadores a 100% que não centram a sua carreira na formação de alunos (futuros professores) mas na disputa de financiamento de projectos, etc. Nas escolas as turmas gigantes impedem um acompanhamento individual, há professores exaustos, em burn out, esgotados física e moralmente. São mal pagos em todos os níveis, a começar pelos da primária e a acabar na precarização dos professores universitários; a burocracia é asfixiante. O que surpreende é que com tudo isto alguma coisa ainda funcione, ainda que mal. E o que funciona, insuficiente, é graças aos professores porque as políticas ministeriais são um carro desgovernado a descer a montanha sem travões. O relatório do UBS publicou a comparação dos salários no mundo. Nos países ricos a diferença entre o salário de um engenheiro e um professor primário é de 6 para 7 e num país periférico é de 8 para 30.
    A direita resolve esta bomba relógio atirando-a para longe: com exames e chumbos e coloca os jovens nos currículos alternativos onde aprendem a ser futuros barman e caixa de supermercado. Uma parte da esquerda, incapaz de uma visão exigente do mundo, resolve ocultando a bomba, anulando as avaliações, os diagnósticos, ou diminuindo a sua importância. Como um médico meu amigo que teve um enfarte depois de análises aos triglicéridos estarem com os valores duplicados – reagiu deixando de fazer análises.
    O debate não termina aqui, vamos precisar de muito estudo sério e mudanças de fundo para reverter a situação, na verdade mobilização social sem a qual não vai haver nada a não ser pensos rápidos. Mas para começar a desarmadilhar a bomba estas duas premissas são inamovíveis: condições laborais protegidas e saber científico. Há mais, muito mais. Mas sem isto não começaremos sequer a discussão”.

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    1. Ofende os professores e depois defende os professores. Curioso.
      Quem está farto de Professores Universitários que se acham o máximo sou eu.
      Eu sou formada por uma Universidade (Coimbra) e não por uma ESE. E a maior parte dos professores da minha idade também. Mas quem é que tem falta de saber científico? Ainda se me acusassem da falta do Pedagógico…! Mas não. Estas idiotas acham sempre que os professores da Primária e por aí acima estão é mal formadas cientificamente. Que acordem.

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