Empatia

O texto não é curto, mas é daqueles que algumas pessoas acharão mais para o adocicado. Mas as coisas são o que são e o mundo a preto e branco é interessante mas descolorido.

Indo ao que interessa… quando falha a capacidade empática do professor com os alunos, as aulas tornam-se um suplício para ambas as partes ou transformam-se no estereotipo da aula chata e pseudo-magistral que diziam ser o modelo de outros tempos, porque não sei, parece-me que ainda existe e está de boa saúde. Quando a capacidade de se estabelecer uma relação pessoal, humana, nas aulas falha – e não estou a falar de desatarmos a falar só fofinho, queridinhos para cá, amorzinhos para lá ou a tentarmos ser os jovens que já não somos para nos sentir integrados – quase tudo falha e impera o domínio do medo e do seu combate pelo exercício de uma autoridade insegura e que, como todas as autoridades inseguras, se refugia atrás de aparatos, como se fossem capacetes, armaduras defensivas perante os ataques.

Sou dos que acham que as aulas não têm de ser preenchidas em todos os minutos com múltiplas actividades de aprendizagem repetida, para que se torne possível traduzir isso em registos e cruzinhas que tranbsformam aulas falhas em representações papelentas (ou digitais) de aulas fabulosas. Prefiro uma aula com momentos de respiração ou aulas em que não nos preocupamos com aprendizagens programaticamente relevantes para falarmos apenas ou termos um tempo de comunicação não mediatizada por conteúdos.

Como é que concilio isto com o facto de defender a existência de provas finais e não me desagradarem rankings? Com alguma facilidade, se deixarmos de lado o pensamento dicotómico… aquele que nos diz que a felicidade só tem um caminho e o resto é sofrimento, apenas. Há de tudo… a escola e as aulas podem e devem ser paletas de vários tipos de sensações e aprendizagens. Mas, para isso acontecer, é preciso que exista uma pessoa adulta com capacidade de ir além das suas fronteiras naturais e despertar nos outros mais do que a ânsia de um perfeccionismo técnico que encaixa a criatividade em esquemas mentais pré-concebidos, ou seja, a antítese do que deve ser a criatividade. Rankings ou provas finais só são factores de infelicidade se não soubermos usá-los e nos deixarmos esmagar por eles.

Nunca gastei mais de 5% do conjunto das aulas do 5º e 6º ano de Português por causa directa dos “exames” ou provas finais. Andar com isso apenas na cabeça é uma obsessão que não partilho e acho mesmo estranho que alguém no Ensino Básico condicione de tal forma a sua prática pedagógica que a defina em termos de um momento, perdido a meio de Maio. Já não estranho, claro, que quem nunca tem avaliações externas, elabore teorizações imensas sobre a qualidade do ensino alheio e conceba planos e grelhas e formulários e coisas assim muito geométricas e coloridas para fazer passar por excelência aquilo que assim é apenas auto-avaliado. E nunca pelo alunos, porque isso seria dar-lhes uma voz que poderia incomodar as certezas extraídas das fórmulas de uma aritmética da média e nada mais.

Para aulas interessantes e que, de quando em vez, consigam traduzir-se em aprendizagens relevantes é preciso mais de algo simples, mas nem sempre abundante: humanidade, empatia, bom-senso, capacidade para dizer não, para cima, para o lado, para baixo, não abdicar de regras claras, mas aplicá-las com justiça e não com cegueira, seguir os rostos e não só os regulamentos. Ou, como me dizia uma colega, pôr-se a jeito para levar em cima.

BArtsimpson

6 thoughts on “Empatia

  1. O ano passado tive 8º. No oitavo faço sempre trabalhos de grupo/investigação. Estes pressupõem pesquisa do tema, construção de trabalho escrito e apresentação oral. As apresentações orais são o culminar e é feita auto e hetero avaliação do processo e do resultado pelos alunos. O ano passado numa das turmas um aluno evidenciou-se por apresentar o seu tema explicando a matéria sem ler o pp e com grande há-vontade. Reconheceu que não era a primeira vez que o fazia (os outros era) e daí nasceu uma discussão riquíssima sobre competências de comunicação, regras, melhorias e os alunos revelaram tanta responsabilidade e discutiram de forma tão assertiva entre eles que me orgulhei muito de ter possibilitado aquela aprendizagem. Foi um momento de empatia e cumplicidade único que teve efeito em todas as apresentações e enriqueceu, verdadeiramente, a vida académica daquelas pessoas de 13 anos.

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  2. Absolutamente de acordo! Texto fantástico!
    O umbigo resguardou-se neste quintal de produção bio, onde acabarão por voltar muitos dos que sentiram a falta da Educação Do Meu Umbigo.
    Parabéns e felicidades, Paulo!

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