A FNEprof no ME

Foi ao ME e, como convém em termos de respect, foi recebida por toda a equipa ministerial. Novos tempos, ao que parece de grande esperança, quiçá em novas pizzas de borliu, porque a mim parece que nada de fundamental se virá a alterar em termos de carreira ou de recuperação das perdas. Muitas conversações, encontros, palmadinhas. talvez. Na CMTV (sim, eu vejo) citava-se algo como “após 10 anos de pancada, temos esperança”. Bem… acabar a pancada já não será mau de todo. De qualquer modo, sendo assim, eu gostava mesmo era que o Mário Nogueira voltasse a dar um aninho de aulas. O que isso traria de credibilidade ao movimento sindical seria inestimável. Mas acho que ele não percebeu ainda uma ideia tão avançada e continua a preferir a mesa das negociações, nem que seja para termos imensas vitórias virtuais na luta. A mim chegava um descongelamento. Sem grandes alaridos. As gáspeas ficaram todas gastas.

gelo

Os Valores

Parece que os tempos estão propícios ao regresso da ideologia da educação para os valores, para a cidadania plena, em vez de ser apenas para resultados, avaliações e rankings. Acho que não é bem assim, mas até concordaria num regresso bem doseado a uma forma diferente, mais humana, de encarar o trabalho de alunos, funcionários e professores nas escolas, sem as ditaduras das grelhaduras para tudo e nada e da conversão em números do que devem ser qualidades.

Mas…

     … gostaria muito de perceber onde podemos definir as fronteiras para o início/fim dessa educação para os valores, fronteiras físicas mesmo. Vamos circunscrevê-la ao recinto escolar ou vamos englobar a zona envolvente e optamos por agir perante quem, ali mesmo ao lado do portão, tenta vandalizar um sinal de trânsito, uma árvore inocente, um ecoponto, as paredes de habitações alheias, com pinturas, ruidezas ou palavrões ad hoc?

Isso é mais do que é a nossa função?

Pois, certo, talvez. Mas… e dentro do recinto escolar? Incluímos tudo ou parte do que se vê e ouve de atentados aos ditos valores da convivência em sociedade com um mínimo de respeito? Ou isso é limitar a liberdade dos alunos e no intervalos e no pátio, nos espaços mais verdejantes, pedrejados ou alcatroados é lá com eles e só nos preocupamos com o interior dos edifícios?

E no interior dos ditos? Temos vontade e ânimo para intervir nos corredores, a caminho das aulas,combatendo atropelos, violências verbais e físicas, más-criações das mais elementares, comportamentos que acharíamos profundamente impróprios em qualquer outro espaço público?

Ou só nos preocupamos da porta para dentro da sala, que é esse o nosso domínio, a nossa área reservada de exercício de influência?

E na sala de aula? Vamos ter a força e coragem para reagir, educando para os valores, a tudo aquilo que afronta de modo bem frontal qualquer escala mínimo dos ditos?

Ou…arranjamos uma qualquer outra fronteira? Muito interior? E termos apoio nessa nossa atitude pelos pares e hierarquias? E estarão as famílias disponíveis para que a escola, os professores, exerçam esse tipo de magistério nas escolas públicas, como aceitam que o façam nas privadas, pagando ainda para tal?

Ou a educação para os valores é apenas uma escapatória que fica muito bem apenas na enunciação de princípios mas raramente na concretização de fins, apesar da produção de protocolos para os meios?

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Um Dia

Ainda falta. Mas já é possível fazer um balanço – assim pelos números redondos – de 295 tempos lectivos com os alunos, dos 305 previstos (sim, antecipei a reposição do feriado do 1º de Dezembro e faltei mais uns tempitos dispersos). O que, para quem conheça a realidade concreta, cansa um bocado e retira muita paciência nestes últimos dias para ouvir gritarias ou aturar mentais paralisias. E não falo necessariamente dos alunos, pois não serei o único assim para o saturado. Mesmo se há quem assim fique com muito menos de 295 aulas. Tomara eu. Amanhã desejarei as boas festas e um bom ano às turmas que também já andavam a pedir uma pausa há coisa de um mês, bastando ver o precipício das classificações no terceiro teste do período. Claro que há quem ache que se deveria ainda ficar na escola até às 23 horas de dia 24. Dava muito mais jeito, até porque os centros comerciais precisam ficar abertos e as crianças precisam de quem as guarde em segurança. E ainda há quem queira escola a tempo mais inteiro, vinte quatro sobre sete. E que o burnout é um mito. Eu é que lhes queimava qualquer coisa e deitava fora.

Burnout

Muito Menos

Todas as retóricas desabam quando os dados são analisados de forma objectiva. Claro que o atávico ódio aos professores – excepção aos do ensino superior, nicho a que pertencem muitos desses mesmos odiosos – encontrará explicações muito sofisticadas para justificar tudo isto, a começar pelo gastíssimo argumento demográfico. A verdade é que o que se passou foi um corte brutal no serviço prestado aos alunos, com uma enorme sobrecarga sobre os professores. Que nada disto é possível sem que se atinja um ponto de ruptura, é mais do que óbvio. Só que há quem esteja à espera que o colapso aconteça antes de fazer qualquer coisa para prevenir a implosão das escolas públicas. Talvez porque isso seja uma justificação para o outsourcing?

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