Insanável?

A clivagem entre a forma como se tratam os mesmos temas em ambientes diferentes, conforme se trate de teóricos e especialistas, com ou sem aspirações a políticos e decisores, e professores e concretizadores no terreno, incluindo ou não os directores.

Nos últimos anos, embora com experiências no cruzamento entre os dois ambientes, tenho tido a minha conta de contacto com as duas realidades (mais a das escolas, confesso) e continuo muito céptico quanto á possibilidade de um virtuoso encontro das duas perspectivas, que se desdenham mutuamente.

Entres aqueles que estudam, a partir das Universidades ou de grupos de estudo ligados ao mundo político, a Educação existe uma tendência para se concentrarem no “largo cenário” em que o que conta são as macro-escalas, as médias, os indicadores estatísticos para fazer comparações internacionais, desenhar médias ou longas curvas de tendência, desdenhando o olhar de quem vê a realidade concreta da sua aplicação no terreno. Se há ganhos de 2-5% num qualquer indicador num determinado espaço de tempo, isso é suficiente para considerar como anedóticas ou caricaturais as descrições da forma como isso é, à micro-escala, conseguido. Colocando de forma simplista, preocupam-se com as quantidades, seja do abandono, seja das certificações, seja de que variável for, desde que progrida no sentido que acham correcto. Em tais ambientes, costumo ser o tipo que vai contar umas histórias muito engraçadas do quotidiano escolar como o daquelas alunas que, extinguindo-se a alternativa do PCA no 7º ano, passam directamente para o ensino regular vocacional de 8º ou 9º, mesmo para disciplinas que antes não tinham. Ouvem-se uns sons de espanto e consternação, mas já sei que acham que são apenas efeitos percervsos colaterais que não colocam em causa a bondade extrema das suas propostas ou medidas, bondade provada em percentagens, tudo se reduzindo a fórmulas em busca de dados comprovativos.

Entre quem está nas escolas e é obrigado a aplicar leis e normativos diversos em catadupa anual ou mensal, quantas vezes criando situações sem solução boa e vendo-se responsabilizado pelo (in)sucesso de decisões que não partilha, há um desdém, evidente pelos homens de gabinete que desconhecem o terreno. Os professores preocupam-se menos com os indicadores globais e mais com os rostos individuais e com as condições concretas da implementação de políticas que apostam apenas em atingir metas, não se preocupando em como isso é conseguido. Nas escolas, sente-se que as decisões são tomadas lá fora, sem qualquer partilha democrática, sem preocupação pelo real quotidiano e há a percepção de que existe um desprezo generalizado pela capacidade intelectual e analítica dos professores do ensino não-superior, encarados como uma massa de executores que, paradoxalmente, quanto menos intervenientes em tudo, melhor, desde que colaborem na produção de indicadores favoráveis. Voltando a simplificar, os professores preocupam-se essencialmente com a qualidade das condições de ensino e de aprendizagem nas escolas. O contacto com os ditos especialistas e/ou políticos é quase sempre tenso e os debates estéreis, porque nunca há tempo para ir além da troca de acusações ou da apresentação em monólogo das posições. Já assisti às duas situações, a de quem vai às escolas evangelizar os incréus e a de quem, havendo diálogo, ouve das boas. O meu papel nestes casos assemelha-se ao do mestiço que poucos estimam, porque não é puro.

Esta clivagem parece que continua insanável, com as trincheiras mais profundas e enlamedas, impedindo movimentos significativos. Quem decide, raramente se apoia em quem executa, ou confunde isso com uns quantos representantes dos directores; quem executa, muitas vezes não se envolve verdadeiramente em algo que já sabe não passar de um estratagema para produzir estatísticas. Verdade seja dita, temos décadas de sucesso na produção de quantidade, embora falte a coragem para apostar numa verdadeira qualidade.

IceAge

 

One thought on “Insanável?

  1. Quem continua no “lugar do morto”? Eu diria que continuam a ser os professores no terreno, transformados em operários de linha de montagem, por muitas boas intenções que haja da parte de alguns teóricos. Não acho que os alunos estejam pior, pelo contrário, temos cada vez mais qualificação na formação: só me dá vontade de rir quando os do superior pensam que fazem o trabalho todo. .. não foram as bases e logo veríamos.

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