Ideologias

Ensinaram-me de pequeno que os cristãos defendiam a vida humana, toda e qualquer uma, acima de qualquer outro valor e que o liberalismo se preocupava, acima de tudo, com o indivíduo, abjurando quem os indistingue nas massas dos colectivismos que tudo reduzem a leis deterministas. Percebam, portanto, que me sinta baralhado ao ver, ler e ouvir liberais crentes a defender medidas políticas e económicas baseadas em fórmulas e modelos matemáticos, erguendo tabelas, índices e médias e alegando valores estatísticos acima dos interesses do egoísta conforto da vida humana individual, como que acreditando num darwinismo social e económico da sobrevivência dos mais fortes ou adaptáveis às leis abstractas de um mercado impessoal. Baralho-me ainda mais quando vejo empedernidos materialistas colectivistas preocupados com a dignidade dessa vida humana individual e a defenderem políticas de solidariedade social que visam apoiar toda e qualquer vida. Eu sei que Jesus perceberia tudo isto, mas quer-me parecer que ele era capaz de ser um utópico esquerdista. E eu sinto-me mais cristão do que os que batem no peito e se perdoam a si mesmos com más confissões e ainda piores justificações.

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Privatize-se!

O Natal.

Não apenas a parte das compras, mas uma replicação moderna do próprio momento do nascimento e adoração, com a benção do arroja e genuflexões variadas do césar das neves.

Porque me parece que a lei da concorrência teria permitido que existisse uma qualquer hospedaria aberta em Belém, quando José e Maria (a original, sem laca) procuravam abrigo. Para além disso, o gado em presença no palheiro dava toda a aparência de estar mal nutrido, resultado de uma exploração pecuária pouco intensiva, o que só se pode atribuir a deficiente inserção no mercado concorrencial que eliminaria as explorações menos eficazes. Já os Reis Magos, usassem eles GPS e transporte uberizado e não teriam chegado atrasados ao ditoso acontecimento, até porque a estrela cadente parecia ser claramente de uma empresa pública palestiniana. Isto para não falar na muito ineficaz divulgação do evento em si mesmo, que se tivesse ficado nas mãos de uma agressiva empresa de gestão de imagem, teria certamente suscitado a presença de muito maior audiência, filmando-se os primeiros gargarejos do Menino de modo a serem visualizados em tempo real em meia dúzia de redes sociais. A iluminação à vela, em estilo muito retro, também se revelou fraca ideia, embora com a vantagem de ter conseguido dar um efeito imediato instagram aos instantâneos colhidos pelos pastores.

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