Presidenciais – 6

Estive a ver e rever o único debate entre candidatos presidenciais que interessava, o de António Sampaio da Nóvoa e Marcelo Rebelo de Sousa. O resto é cenário e percebeu-se bem isso pela postura crispada e nervosa do segundo que foi bem mais agressivo, mesmo a roçar a grosseira em algumas observações e certamente pisando fortemente a deselegância, pois sentiu estar perante quem mais o ameaça na sua desejada caminhada triunfal.

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Rasgadinho, rasgadinho, com muita troca de acusações e MRSousa a não conseguir explicar porque teve tantas opiniões erradas e rodopiantes. O argumento de que teve opinião sobre tudo e mais alguma coisa é muito fraco, porque isso todos tivemos, mas só a ele têm pago para todas as semanas produzir opinião aos terabytes, em forma de entretenimento. Lá por isso, o Tino de Rans também pode dizer que sempre teve opinião, mas se calhar só passou no canal 2 da televisão da paróquia de Rebordosa do Reviralho de Cima.

Mas, mais a sério, nunca tinha visto MRSousa tão tenso, com uma linguagem corporal tão acossada, com o olhar baixo, expressões faciais de irritação, sorrisos claramente encenados e refugiando-se na moderadora em busca de um apoio adicional perante um ambiente friccionante que criou ,mas que o perturbou claramente, ao ponto de parecer um miúdo com àpartes sucessivos, desafios verbais do género diga-lá, diga-lá, ah-pois, ah-pois, que são pouco compatíveis com o que quis apresentar como um trajecto de grande experiência política (afinal, também ele não passou de autarca de 2ª linha e de ministro há mais de 30 anos). Tudo isto enquanto Sampaio da Nóvoa adoptava uma linguagem corporal muito mais positiva e distendida no próprio espaço do deabte.

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Em termos de forma e substância, MRSousa pareceu-se um pouco com Bill Clinton quando optou por se refugiar na semântica do disse que era interessante e útil, mas não apoiei (propostas do governo PSD/CDS para a Saúde e Educação) ou apoiei, mas não participei (campanha presidencial gastadora de Cavaco Silva).

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Mas aquele que acho o seu maior erro táctico terá sido o que ele pensou ser um trunfo… o de querer apresentar Sampaio da Nóvoa como presidente de uma parte do país… sendo que essa parte do país (anti-austeridade, anti-ressabiamento social, anti-liberalismo delirante, anti-destruição dos serviços públicos) é maioritária neste momento e Sampaio da Nóvoa só pode ficar a ganhar por ser apresentado de forma tão clara como seu representante e líder nesta eleição.

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Para além de que a leitura que Sampaio da Nóvoa faz dos poderes e da função presidencial é muito mais rica do que a de MRSousa que a parece querer limitar a uma leitura académica da Constituição e, assim sendo, passível de ser desempenhada por qualquer professor razoável de Direito Constitucional.

Embora assuma as minhas simpatias de forma clara, talvez este tenha sido o momento em que MRSousa cometeu mais erros e em que Sampaio da Nóvoa se revelou com uma postura muito mais calma, ponderada e presidencial.IMG_0214

Ideias Avulsas – 5

A municipalização. O horror. A municipalização. O horror. A pseuso-proximidade criada para matar de uma vez por todas qualquer autonomia das escolas é uma das maiores aberrações preparadas ainda em tempos socráticos-rodriguistas e implementadas em tempos de casanova-crato com a activa colaboração de uma coligação de câmaras PSD/PS/Independentes do Centrão.

Quando se diz por aí que em pouco mais de um mês se desmontou a política educativa do anterior ministro fico abismado porque, em concreto, este ME ainda só anunciou um par de coisas razoáveis (fim da BCE, sistema integrado de avaliação no ensino Básico), pressionado pela actualidade, até porque nem haveria tempo para uma verdadeira inversão de marcha.

Sendo que, para uma verdadeira alteração das políticas há coisas tão ou mais estruturais do que a eliminação da prova final do 4º ano por via parlamentar. Passemos por alto a questão do vocacional (que também estará em estudo) ou o modelo de gestão das escolas (que nem precisaria de análise muito demorada para ser flexibilizado, mas já sei que sem grupos de trabalho e reflexão não se fará nada) ou mesmo a concentração da rede escolar e concentremo-nos na malfadada municipalização que algumas pessoas garantiram durante a campanha que seria uma das medidas que o PS no Governo travaria. Algo de que duvidei e duvido, tamanho o lobby do centrão a favor do controle das escolas a partir dos gabinetes autárquicos e dos humores partidários locais.

A municipalização apresentada como aproximação dos centros de decisão aos cidadãos é uma redonda, quadrada, triangular, octogonal, mistificação. A municipalização apenas acrescenta uma nova camada de poder que esvazia – e muito – as competências das escolas e, por isso mesmo, afasta a decisão dos principais interessados (alunos e famílias, mas também professores e pessoal não docente).

A questão é tão interessante que espero há quase um ano pela publicação das comunicações apresentadas em Aveiro no

Já temos disponíveis online os materiais finais de seminários realizados posteriormente (o do ensino das Ciências teve a última sessão a 2 de Março de 2015, o que abordou a avaliação externa das escolas decorreu também nesse mês de Março e os relativos ao acesso ao Ensino Superiorà formação inicial de professores realizou-se em Abril passado), enquanto continuamos à espera dos daquele que tratou os processos de descentralização em Educação (18 de Fevereiro de 2015).

Eu sei, como participei sinto-me nesse mais motivado para a sua divulgação, até por ter curiosidade em perceber qual ficou o texto final de algumas intervenções, em particular de alguns autarcas. Arriscaria mesmo dizer que, pela duração e pompa da apresentação, a do presidente da Câmara de Cascais deve ser o motivo de tamanho atraso, exemplo maior de uma postura vaidosa de demagogia sôfrega por mais poder, competências e envelope financeiro. Assim como será interessante comparar essa postura com a de outro autarca, de Ponte de Lima, que apresentou vasta obra feita de apoio à Educação no seu município sem precisar de nenhum quadro legal de reconfiguração das competências atribuídas. A versão revista da minha apresentação oral – expurgada de certos tiques coloquiais – estará lá, bem como a contundente intervenção do presidente do Conselho de Escolas, José Eduardo Lemos (fomos os últimos, antes do encerramento).

Mas voltando à questão da municipalização em si, que se percebe ser incómoda de travar por quem esteve na sua origem e partilha muitos dos seus conceitos, gostaria mesmo muito de ver a coragem política de não avançar por um caminho que apenas serve para esvaziar a pouca autonomia de que as organizações escolares ainda dispõem. Avançando a municipalização, mais vale a apagarem a palavra autonomia de qualquer léxico educativo.

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Vidências

Os documentos (parecer e relatório técnico) do CNE sobre a avaliação das aprendizagens do alunos do Ensino Básico estão aqui. Como previa esta manhã, entram em choque com muitas das ideias dos partidos que suportam a actual situação governativa nestas matérias. Por acaso, até acho que a colisão mais frontal foi moderada, mesmo se em termos mediáticos atrai mais a parte que pode ser mais polémica. Confesso, ainda, que partilho – para grande incompreensão de muitos colegas meus – da posição do CNE sobre a introdução de uma prova final no 9º ano na área das Ciências e sobre a importância de avaliações intermédias antes desse ano, pelo menos em Matemática e Português. Discordo do silêncio sobre o exame made in Cambridge que, na formulação ainda em vigor, se integra no âmbito deste parecer. Julgo que esta omissão pretendeu evitar fricções adicionais, com o ME ou avec quelqu’un. Posso estar enganado, mas… teria sido interessante que existisse uma posição clara quanto à avaliação na área do Inglês.

zandinga