Tempus Fugit

Comentário aos resultados da sondagem desta semana do ComRegras:

Carga letiva (2)

O tempo que os professores ocupam de forma directa ou indirecta é uma questão profundamente relativa e variável, pelo que esse debate só faz verdadeiramente sentido para todos aqueles que, pobres de espírito, conhecimentos e quantas vezes de respeito pelos outros, acham que vamos para a escola, damos as aulas – como se mesmo só isso fosse tarefa menor e fácil – e vamos para casa como a grande maioria dos outros trabalhadores.

Para os professores, para quem conhece as condições concretas do exercício da função, é escusado explicar que tudo varia muito no calendário do ano lectivo, nas circunstâncias de cada grupo disciplinar, de cada ciclo de escolaridade e de cada escola ou agrupamento.

Concretizando… eu tenho seis turmas, de duas disciplinas distintas, sendo uma delas de ensino vocacional, e mais dois grupos de alunos com necessidades educativas especiais com um currículo específico… pelo que tenho cerca de 130 alunos porque algumas turmas são reduzidas (presença de 2 ou mais NEE com CEI). Há semanas em que trabalho pouco mais do que os 26 tempos marcados no horário e há semanas em que esse tempo quase duplica, excedendo largamente as 40-45 horas.

Mas, há quem tenha muito mais turmas e mais alunos, eventualmente com mais níveis a leccionar, que precisam de preparar elementos de trabalho e avaliação, bem como corrigi-los e classificá-los, para 8 ou 9 turmas, mais o trabalho de direcção de turma e todo o aparato burocrático das reuniões mensais ou quinzenais. Há semanas em que a acumulação de compromissos “extra-lectivos” são bem acima do que está contemplado no estatuto da carreira e ninguém contabiliza isso.

A relatividade das condições específicas de trabalho de cada um de nós faz com que eu me sinta naqueles menos de 3% de colegas que responderam que não sei quantas horas gasto, em média, por semana, com a minha profissão.

Mas não queria terminar este muito breve comentário sem sublinhar um dos aspectos mais deprimentes do nosso horário de trabalho que é o dos chamados “tempos a repor”, calculados a partir dos 1100 minutos lectivos que devemos cumprir e que no caso das escolas que optaram pelos tempos de 45 minutos implicam que todos os meses seja feita uma contabilidade dos minutinhos que faltam para os 1100, contabilidade essa que ocupa bastante as preocupações dos senhores inspectores da IGE que fazem as vistorias periódicas destas matérias e que nos obrigam a desenvolver as chamadas actividades da treta para cumprir as contas de merceeiro decorrente da “autonomia” que se diz existir nas escolas para organizar os horários.

Cada vez que vejo aquelas contas e vejo as horas ou tempos a repor dá-me vontade de perguntar se esta não é uma das formas mais mesquinhas de menorizar o profissionalismo docente. E interrogo-me quando haverá a coragem para enviar esta obrigação para um poço bem fundo, onde a luz do sol não chegue.

3 thoughts on “Tempus Fugit

  1. Será limitação minha o facto de não compreender, nem aceitar, que nos paguem somente 45 ou 50min de trabalho por cada aula, e não uma hora completa, como antigamente? Não nos pagam o tempo do intervalo, o que originou mais 3 tempos semanais de Componente Não Letiva no horário, obrigando-nos a ter que ir à escola um, dois, ou três tempos, no turno contrário, por vezes. Para além de o intervalo ser necessário para descansar e, como tal, a exemplo do que acontece com os outros trabalhadores (por lei), deveria fazer parte do tempo de trabalho, muitas vezes estamos ao serviço ininterruptamente… Trabalhamos durante os intervalos, sim: quando nos deslocamos de uma sala para outra, ou para o gabinete dos DT, etc.

    Será que alguma coisa me está a escapar?

    Bom Ano!

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