Estudos (Nacionais e) Internacionais

Se há argumento que quase toda a gente usa em defesa das suas posições em matéria de Educação é o dos “estudos internacionais” que provam para além de qualquer dúvida aquilo que se afirma. Só que raramente se identificam com clareza esses tais “estudos” que raramente vão além, como escrevi em outro post, de relatórios da OCDE ou coisa parecida. Se perguntarmos porque é assim, responderão quase certamente que é porque num debate político não é habitual começar a debitar referências bibliográficas.

Acho mal. Porque se usam argumentos “científicos” ou “pareceres técnicos” para fundamentar decisões políticas deveriam explicitá-los com clareza.

Eu exemplifico com declarações públicas desta semana, contra e a favor de exames e provas de aferição e/ou vice-versa.

O editor Guilherme Valente, no Público de 2ª feira:

Absolutamente contra a prova  dos  factos, dos resultados, dos avanços mais recentes das ciências cognitivas e agora, também, o aviso informado e corajoso de directores,  volta a ser imposta a escola  facilitista, das teorias delirantes dos “especialistas” da educação, do fim da avaliação, da farsa das aferições (…).

O ministro Tiago Brandão Rodrigues, 3ª feira, em conferência de imprensa:

“O modelo anterior estava errado e era nocivo”, argumentou Tiago Brandão Rodrigues, invocando a existência de “estudos nacionais e internacionais” que apontam para prejuízos causados pelos exames nos anos mais precoces do ensino e supostas vantagens das provas de aferição.

Ambos podem ter razão, certamente estarão cobertos por ela, mesmo se acho que ambos também estarão em parte errados. Porque tudo depende muito do contexto.

Nos EUA, um estudo razoavelmente recente, conclui que “There is no significant difference in the success rates of students who submit their standardized test scores to colleges and those who don’t (…).

No entanto, entre nós, mesmo na área dos especialistas educacionais ligados ao PS, temos quem já tenha afirmado com clareza as limitações das provas de aferição, a meio do percurso da sua aplicação anterior:

O texto mostra que o país tem lidado mal com as provas de aferição. Neste momento, praticamente ninguém parece levá-las a sério.

(…) As provas aferidas têm que ser credibilizadas, têm que ter um plano de administrações e de disciplinas a abranger. É um desperdício administrá-las anualmente. Nenhum país parece estar a fazê-lo. Precisa-se de uma ideia para as provas aferidas que as integre num todo coerente de contribuições para a avaliação dos alunos, das escolas e do sistema. Mais uma vez, dificilmente se poderá conceber um programa de provas desta natureza sem um projecto associado de investigação que descreva, analise e interprete os dados e que seja capaz de intervir no sentido de fazer recomendações que façam sentido para os decisores políticos, para as escolas, para os professores e para os alunos

Embora o estudo fosse feito com base em alunos de outro nível de ensino, eu prefiro este tipo de recomendações, seja qual for o método de avaliação das aprendizagens realizadas:

The belief that academic success required not only high cognitive ability but also sound study habits and attitudes (SHAs) was confirmed in the present study. A significant correlation between students’ study habits and attitudes and their performance in licensure examinations was clearly shown in the present study. Thus, to enhance the quality of education, there is a need to improve the study habits and attitudes of the students. This could be done through provision of developmental programs that will help students build efficient and effective study habits and positive attitudes towards learning, in an early stage of their studies. Engaging students in educationally purposeful activities that will result in high levels of learning and personal development for all students is likewise suggested.

.batmannthink

2 thoughts on “Estudos (Nacionais e) Internacionais

  1. Que eu não fundamente as minhas opiniões aqui nos comentários ou mesmo num fórum reativo parece-me normal (mesmo assim, num fórum, ás vezes, tem de ser ou não te levam a sério).
    Mas num debate a sério, em casas a sério, é essencial haver fundamentação. Não sei é se os deputados têm estofo para tanto…. será? Para que querem os secretários e assessores? Há tanto doutorado a precisar de emprego… esses aprendem a fundamentar 😛

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  2. Esses “estudos” constituem um bom álibi, principalmente para não se examinar a realidade particular de cada sistema e país, para não se reflectir sobre esse conjunto complexo e variável e para não se decidir de forma ponderada e articulada.

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