Opacidades

Não serei o maior fã de Paulo Baldaia, mas a sua demissão e substituição pelo director do panfletário Observador parece-me um dos pontos baixos da que tem sido, apesar de alguns percalços, uma estação de rádio verdadeiramente de referência em termos noticiosos. Os tempos andam muito agrestes na nossa comunicação social e a saída, há meses, de António José Teixeira da SICN e, há dias, de Ana Lourenço são mais uns pregos na credibilidade da informação a que temos direito.

Fog

Prioridades – 2

Quereis, realmente, focalizar radicalmente no aluno e dar qualidade às suas condições de aprendizagem?

Aí vai uma meia dúzia (com duas de bónus) de propostas radicais e eventualmente muito esquerdistas, mas daquele esquerdismo mais de actos do que de conversa fiada.

  • Não obriguem os miúdos do 1º ciclo a fazer uma hora ou mais de trajecto até ao caixote escolar mais próximo.
  • Equipem as escolas com meios humanos (de qualidade) para despiste precoce de problemas de aprendizagem e posterior construção de respostas individualizadas.
  • Reduzam o número de alunos por turma (a sério, a melhoria é tanto ou maior para eles quanto para os professores).
  • Demonstrem que a escolaridade obrigatória de 12 anos tem um sentido e que não é apenas um parque de estacionamento nas proximidades do centro de desemprego.
  • Não inventem vias do tipo fast lane para fingir que se está a combater o insucesso e o abandono ou vocações precoces para alimentar o lumpenproletariat e a malta precária na lojas dos centros comerciais.
  • Permitam a oferta de actividades (extra) curriculares sem serem medidas apenas com o olho na minutagem do horário dos professores.
  • Distribuam de forma justa e equilibrada as verbas destinadas à requalificação dos equipamentos escolares.
  • Criem condições sócio-laborais para que muitas das famílias possam dar o devido apoio à vida escolar dos seus educandos.

profpardal

Prioridades

Devo ser um caso anómalo, mas pouco do que anda em acesa discussão – provas de aferição/exames; 35 horas semanais – satisfaz a minha egoísta e radical agenda corporativa. Acho que o governo está, em matéria, de Educação, a ser extremamente hábil na forma de evitar as questões mais de fundo e partilhadas pelo centrão alargado, deslocando a discussão para o populista e demagógico campo de batalha da avaliação. Confesso que exames ou provas, terei de classificar umas dezenas, assim como terei as mesmas horas de trabalho enquanto o número dos meus alunos se mantiver.

Calma que eu nem sequer vou falar na tão prometida revalorização da carreira docente ou (re)dignificação da condição docente, essas miragens permanentemente anunciadas do alto do convés da bossa do meio do dromedário. Os banifes já se encarregaram de me fazer perceber que a temperatura média continuará bem abaixo dos valores médios para qualquer estação decente. Basta olhar para algumas das primeiras páginas de hoje.

Mas vou falar em três matérias que são bem mais profundas em termos de organização do sistema de ensino nacional e que – como eu gostaria de estar enganado – o actual ME não parece ter qualquer urgência em mudar, muito menos de se focar nelas de modo radical, a saber, a municipalização da Educação, o modelo de administração e gestão escolar e o fim e  regressão no processo de centralização da rede escolar.

  • A primeira questão (municipalização) apareceu à última hora no debate político pré-legislativas, com promessas mais ou menos explícitas de que seria travada por um governo do PS. E até ganhou credibilidade com o apoio parlamentar do PCP e do Bloco, já que a Fenprof fez uma consulta pública com resultados bem claros sobre essa matéria. No entanto, quer-me parecer que há grupos de pressão bem instalados, não apenas no PSD (o CDS não conta muito neste plano) mas também no PS e naquela ficção dos independentes (tipo Matosinhos ou Oeiras).
  • Quanto à segunda, gostaria de ver coragem para flexibilizar o modelo de gestão das escolas de forma a devolver a possibilidade de cada agrupamento ou escola não agrupada poder escolher a solução mais adequada à sua realidade, abandonando-se a solução única da direcção unipessoal, bem como a lógica da nomeação e fidelidade hierárquica nos cargos de chefia intermédia e devolvendo um sentido de cooperação e partilha ao funcionamento das escolas.
  • Por fim, no terceiro caso, e como abundante literatura comprova, a macrocefalia das “unidades de gestão” em mega-agrupamentos com dezenas de pessoal não docente, centenas de docentes e milhares de alunos, tudo espalhado por escolas de todos os níveis de ensino, numa lógica de concentração piramidal (ou de afunilamento, para usar uma palavra agora em voga na 5 de Outubro), é incompatível com uma lógica de proximidade na Educação, entre decisores (directores), executores (professores) e alvos das medidas (alunos). O mesmo se pode dizer do processo de encerramento das escolas do 1º ciclo, contributo maior para que o aspecto repulsivo de muitas regiões do interior, agravando desequilíbrios sócio-demográficos a nível nacional, mas também local com as hiper-centralizações municipais.

Não sei se esta agenda é muito radical, mas são questões que acho relevantes e prioritárias, apesar de quase ninguém parecer muito interessado em discuti-las )e muito menos em romper o pantanoso status quo vigente), embora sejam bem mais sistémicas e importantes para a qualidade da Educação enquanto serviço público do que a discussão do número de exames ou provas de qualquer coisa.

Burnout

 

Quid Pro Quo, Clarice

Espero que muitos dos que apoiam, nem que seja por alívio em relação a anteriores ocupantes da pasta, as medidas mais recentes do actual ME estejam conscientes que elas não vêm sem uma contrapartida… fim dos exames, mas a prioridade é o sucesso e uma focalização “radical” no aluno. Ou seja, tal como nos anos 90 do século passado, a pressão para a produção de sucesso – agora que os selectivos exames foram removidos do caminho até ao 9º ano – vai ser imensa e será alegado que, como se devolveu a calma e serenidade às escolas, só os professores poderão ser os responsáveis pelo insucesso, pois uma falta de qualidade das aprendizagens nunca poderá ser atribuída aos aprendentes. Neste caso, o CNE corroborará o princípio. Se quiserem ir já tirando as senhas para o balcão das reclamações… poderão ficar menos tempo na fila.

thesilenceofthelambs199