Prioridades

Devo ser um caso anómalo, mas pouco do que anda em acesa discussão – provas de aferição/exames; 35 horas semanais – satisfaz a minha egoísta e radical agenda corporativa. Acho que o governo está, em matéria, de Educação, a ser extremamente hábil na forma de evitar as questões mais de fundo e partilhadas pelo centrão alargado, deslocando a discussão para o populista e demagógico campo de batalha da avaliação. Confesso que exames ou provas, terei de classificar umas dezenas, assim como terei as mesmas horas de trabalho enquanto o número dos meus alunos se mantiver.

Calma que eu nem sequer vou falar na tão prometida revalorização da carreira docente ou (re)dignificação da condição docente, essas miragens permanentemente anunciadas do alto do convés da bossa do meio do dromedário. Os banifes já se encarregaram de me fazer perceber que a temperatura média continuará bem abaixo dos valores médios para qualquer estação decente. Basta olhar para algumas das primeiras páginas de hoje.

Mas vou falar em três matérias que são bem mais profundas em termos de organização do sistema de ensino nacional e que – como eu gostaria de estar enganado – o actual ME não parece ter qualquer urgência em mudar, muito menos de se focar nelas de modo radical, a saber, a municipalização da Educação, o modelo de administração e gestão escolar e o fim e  regressão no processo de centralização da rede escolar.

  • A primeira questão (municipalização) apareceu à última hora no debate político pré-legislativas, com promessas mais ou menos explícitas de que seria travada por um governo do PS. E até ganhou credibilidade com o apoio parlamentar do PCP e do Bloco, já que a Fenprof fez uma consulta pública com resultados bem claros sobre essa matéria. No entanto, quer-me parecer que há grupos de pressão bem instalados, não apenas no PSD (o CDS não conta muito neste plano) mas também no PS e naquela ficção dos independentes (tipo Matosinhos ou Oeiras).
  • Quanto à segunda, gostaria de ver coragem para flexibilizar o modelo de gestão das escolas de forma a devolver a possibilidade de cada agrupamento ou escola não agrupada poder escolher a solução mais adequada à sua realidade, abandonando-se a solução única da direcção unipessoal, bem como a lógica da nomeação e fidelidade hierárquica nos cargos de chefia intermédia e devolvendo um sentido de cooperação e partilha ao funcionamento das escolas.
  • Por fim, no terceiro caso, e como abundante literatura comprova, a macrocefalia das “unidades de gestão” em mega-agrupamentos com dezenas de pessoal não docente, centenas de docentes e milhares de alunos, tudo espalhado por escolas de todos os níveis de ensino, numa lógica de concentração piramidal (ou de afunilamento, para usar uma palavra agora em voga na 5 de Outubro), é incompatível com uma lógica de proximidade na Educação, entre decisores (directores), executores (professores) e alvos das medidas (alunos). O mesmo se pode dizer do processo de encerramento das escolas do 1º ciclo, contributo maior para que o aspecto repulsivo de muitas regiões do interior, agravando desequilíbrios sócio-demográficos a nível nacional, mas também local com as hiper-centralizações municipais.

Não sei se esta agenda é muito radical, mas são questões que acho relevantes e prioritárias, apesar de quase ninguém parecer muito interessado em discuti-las )e muito menos em romper o pantanoso status quo vigente), embora sejam bem mais sistémicas e importantes para a qualidade da Educação enquanto serviço público do que a discussão do número de exames ou provas de qualquer coisa.

Burnout

 

3 thoughts on “Prioridades

  1. Ora bem!
    Tem-se visto toda a gente a discutir as avaliações, a dar seguimento à iniciativa populista e ideológica daquela esquerda que quis marcar a agenda no parlamento – “vamos acabar com os exames no 4º ano!”. Depois disso, tem sido um fartote!
    E falo disto tanto mais à vontade quanto apoiei a extinção do exame. Só que tenho sublinhado repetidamente que a questão da avaliação não deveria ser dramatizada e muito menos prioritária na agenda da política educativa.
    Não sei se o ME ao seguir essa agenda o fez por alinhamento político, por oportunismo ou por convicção. Os passos que der para implementar e apoiar a sua ideia de conferir centralidade à qualidade das avaliações – com a qual concordo – é que poderão mostrar o que o ME realmente pretende. (Num post acima, o Paulo elenca um bom número de sugestões nessa matéria).

    Gostar

  2. As três questões que o post – e muito bem – traz à colação colocam-se num patamar claramente político, nas grandes opções da política educativa. Elas é que porão verdadeiramente à prova o ME.
    No modo como as tratar – por acção ou por omissão – se poderá inferir a visão e o peso político do ME. Na questão da municipalização, mais o peso político do ministro (e da sua equipa); nas outras duas, a sua visão sobre a Educação e o caminho que ela deve tomar no nosso país.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.