Memória

Quando a perdemos, desaparece a nossa identidade. A consciência de si inclui a memória do trajecto – individual, colectivo – que nos trouxe até ao presente. Quando optamos pelo esquecimento, quando nos impõem mecanismos destinados a forçar uma memória selectiva do passado, é o nosso eu que está ameaçado. Nunca coloquei assim as coisas quando optei por História. Só percebi isso com o tempo, quando entendi em toda a sua plenitude que sem a Memória do que foi nos tornamos escravos dos senhores do presente e o próprio futuro perde sentido. E que é essencial lutar contra quem, mesmo que com as roupagens de historiadores, nos procuram impor uma reconstrução – ou constrição – da Memória. E já em 2006 escrevia isso. Pelo menos de forma mais pública. Uma obsessão pessoal, talvez. Porque Clio é filha de Mnemósine.

Mnemosyne

4 thoughts on “Memória

  1. Belo post.
    Agora,
    concretizando… não teremos uma tradição sulista de ensinar que seja civilizada qb? Será mesmo? Teremos traços tipicamente nossos? Que nos distingue do pessoal do Norte? Porque não valorizar os nossos sucessos, melhorando os insucessos? Precisamos mesmo ir a Boston ou á Finlândia?
    Lemos a História da Educação e aprendemos o quê? Hem? Quem é que dizia que as queixas são sempre as mesmas tipo “generation gap” e que isto, por acaso até está melhor? 😛

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  2. “Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Temos olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas.O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés.
    Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta- o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.” (W. Benjamin, O Anjo da História).

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  3. Uma vez conheci um homem

    Uma vez conheci um homem
    cujas orelhas eram excessivamente finas, mas que era mudo
    Tinha perdido a língua durante um combate.
    Sei agora que batalhas combateu o homem
    antes de se abater o grande silêncio.
    Sinto-me feliz por ele estar morto.
    O mundo não é suficientemente grande para nós os dois

    Durante muito tempo fiquei deitado na poeira do Egipto,
    silencioso e insensível às estações.
    Depois o sol deu-me vida e eu levantei-me
    e caminhei sobre a margem do Nilo.
    Cantando o dia e sonhando a noite.
    E agora o sol deixa-me novamente
    deitado na poeira do Egipto.
    Admirai esta maravilha e este enigma!
    O mesmo sol que me juntou não me pode dispersar
    Ainda estou de pé e percorro as margens do Nilo

    A recordação é uma forma de reencontro.

    O esquecimento é uma forma de liberdade.

    Kahlil Gibran
    Areia e Espuma
    Coisas de Ler
    2002

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