Mais do Mesmo

Que é como quem diz, mais com menos. Mais trabalho para os professores com menos meios. Podemos estar a ver mal, como escreve o David, mas é o que dá para ver ao olharmos para a proposta de OE para 2016. Eu não vejo nenhum tempo novo na Educação, mas sim a junção de elementos de dois tempos velhos, não vejo um avanço para uma utópica Escola do século XXI ou para uma Educação nova (não a velha Educação nova, mas uma Educação nova mesmo nova), mas sim o aproveitamento de elementos do que foi o guterrismo educacional da segunda metade do século XX (o retorno ao discurso do centramento de tudo no aluno e um certo menosprezo pela avaliação que não conduza ao sucesso a todo o preço) mas sem as vacas gordas (que permitiram satisfazer muitas das reivindicações sindicais da época) e a manutenção de tendências de racionalização com mais de uma década (como sejam a redução draconiana da rede escolar do 1º ciclo, o congelamento da carreira docente, o modelo de gestão escolar baseado na dependência hierárquica, a pseudo-avaliação do desempenho).

Mais do mesmo. Mais com menos. Afirma-se que se quer o enriquecimento do currículo mas já se percebe que se pretende fazer isso sem mais investimento. E as propostas de contratação de uma pessoa por cada duas que saem comprova isso. Apresentam-se mais verbas para os projectos, mas como o bolo é mais pequeno é porque se corta em outras partes do funcionamento do sistema, sendo que há poucos meses já se gritava que não havia mais onde cortar. Aliás, é curioso ver como aquilo que há poucos anos seria razão para rasgar vestes no pino do Inverno, agora apenas é uma ligeira preocupação, uma perturbação no descanso, quando se tinham anunciado um quadro parlamentar muito favorável aos professores. No fundo, deseja-se que os do costume façam, de novo, mais, sem qualquer tipo de retorno, tirando uma palmadinha nas costas e uma cenoura raquítica na ponta do mesmo pau de marmeleiro com que lhes têm zurzido no lombo de 2005 para cá.

Só interessam os alunos?

E aos alunos interessa ter professores desmotivados, continuamente proletarizados e sem perspectivas de qualquer carreira que não seja um plano descendente ou horizontal no melhor dos cenários?

Ou o plano é ensino continuar a fazer sair professores e a contratar o lumpen barato que se acumula à porta dos concursos?

O aumento das verbas transferidas para o ensino particular e cooperativo é especialmente chocante, mesmo quando justificado pelos “compromissos anteriormente assumidos” e descarregados para o governo anterior (no que me faz lembrar a forma como Valter Lemos há uma década descarregou para o antecessor Canavarro a assinatura dos contratos de associação de diversos colégios de um certo e determinado grupo), porque parece que os compromissos só se respeitam quando não se trata de cumprir os que existem com os professores da rede pública.

Meus amiguinhos, se não há verbas para investir na rede pública, se as promessas de reposicionamento são apenas engodos para a FNEprof tentar amansar as salas de professores, então há que ser claro e dizer aos colégios com contrato de associação que se não podem manter assim os seus alunos há escolas públicas com vagas para os receberem e se as famílias não querem essa solução, então poderão sempre pagar essa sua opção. Se podem desrespeitar quase uma década de compromissos legais assumidos num estatuto de carreira com quase 100.000 professores, também o podem fazer em relação a umas dezenas de empreendedores que querem manter as suas margens de lucros de forma a renovar periodicamente os eu parque automóvel e o pagamento a consultorias e directores executivos de lobbys. Acreditem… não são apenas os líderes sindicais que acabam a ser pagos com dinheiros do Estado, mesmo que indirectamente e de forma menos transparente.

Mais do mesmo. Mais com menos. Mas sempre para os mesmos. Não vejo aqui um tempo novo, David, por belíssimas que sejam as tuas intenções e virtuosos os teus desejos. Não chega proclamar a inclusão, acabar com dois exames e um par de disparates imensos como a PACC e a BCE para a Educação se transfigurar. Basta ir às salas de professores e tomar o pulso ao desânimo que permanece. À desilusão por quem quis acabar com o tempo velho.

E quero ver com estes dois olhinhos, mais as duas lentes cheias de dioptrias que tenho aqui encavalitadas, o que o Bloco e o PCP têm a dizer sobre isto. Se apenas perdem o descanso ou se – como em outros tempos – estão disponíveis para cumprir as suas promessas e para não serem iguais aos outros.

Ouroboros

 

7 thoughts on “Mais do Mesmo

  1. Repara na desqualificação: se reduzirem a carga letiva, poderemos ter de compensar com aec´s (do 1º ao 9º) – eu acho giro ensinar ciências a um 1º ano mas… sei que é um desperdício de recursos humanos (era mais bem aproveitada se estivesse a ensinar Biologia a um 12º ano); sei que me pagam a mesma coisa mas…como fica a minha dignidade se estiver metade do meu horário a entreter meninos em vez de lhes ensinar a sério?
    ou seja,
    o grau de especialização do teu trabalho está diretamente relacionado com o reconhecimento social e com a tua auto-imagem.
    A imagem da classe docente está a ser fortemente degrada e no futuro não tenderá a melhorar.
    Não era esse o Tempo Novo do Nóvoa: ele defendia uma educação baseada no ensino e na aprendizagem e não no entretenimento…

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    1. Há enormes equívocos acerca do que é “novo” e do valor da “mudança”. A mim, assim do meu quintalito, parece que regressar ao passado tem o seu valor quando isso tem condições para nos trazer uma melhoria e não para se encenar algo que não passa de uma troca, troca essa em que uma das partes é sempre a que dá mais e ainda tem de embrulhar as críticas se as coisas não correm bem, nunca lhe sendo dada a responsabilidade quando algo funciona.

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  2. Ah! Estás a falar de nós: é verdade: eramos respeitados no pós-25 Abril, a carreira levou um impulso enorme ( e no entanto andava tudo aos berros) houve valorização salarial, condições atrativas para uma área com imensas carências…até saturar. Ainda houve a lavagem do Guterres com “a paixão pela educação” e depois foi um pulo até à Milu. Dezenas de milhares de excedentes, formações de qq maneira, cursos em todas as esquinas, só podia dar nisto. Tudo proletarizado, tudo tratado a chicote. Desde a Milu que a classe não levanta a cabeça e acho que é irrevogável, independentemente de teres feito a tua formação numa Universidade Publica ou num botequim qq.
    O que não é melhor é a qualidade do trabalho, a evolução pessoal e coletiva que tu fizeste. Somos profissionais responsáveis, sérios, esforçados, os nossos resultados têm melhorado, somos mais eficazes, mais sábios. Resistimos porque gostamos do que fazemos. Mas essa resistência está escondida numa capa social que reza assim “os professores no geral são maus mas…os dos meus filhos são a exepção”. Há que acordar e começar a fazer leituras do particular para o geral. O contrário é que envenena.

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