O Bem Maior

Ou o mal menor.

Estou cansado que me peçam para ver ao longe o bem maior ou o mal menor que justifica a tomada de más medidas. estou cansado que me amedrontem com bichos-papões que sairão de debaixo das nossas camas e nos devorarão se não fizermos o que nos dizem aqueles que antes disseram que iriam fazer o bem maior e que arengavam que não há males maiores ou menores, mas apenas males, maiores ou ainda maiores, conforme a opção pelo número dos que são atingidos.

Só para ficarmos no novo milénio. o José Manuel Cherne justificou-se com a fuga do Guterres e com o país que estaria de tanga; o engenheiro Sócrates chegou lá e locupletou-se de créditos com o desejo de ser verem os amadorismos do Santana pelas costas. O cidadão Pedro do feicebuque legitimou-se com a bancarrota herdada do engenheiro, chorando lágrimas imensas pelos males de que não queria ser responsável, ele que agora até descobriu ser um resquício social-democrata. Costa chegou e justifica-se com o receio de muitos de voltar a dar espaço ao Pedro se o Orçamento for chumbado.

Ainda poderia recordar-me, em milénio passado, do somo Guterres chegou ao poder para evitarmos uma nova versão de cavaquismo, como Cavaco chegou ao poder por causa da austeridade do Bloco Central e como o Bloco Central nasceu da implosão, com FMI à mistura, da AD.

Parece que andamos sempre a fugir do muito mau, sendo que herdarmos novo muito mau com a justificação que de que o muito mau anterior ainda seria muito pior do que ste muito mau. Ou porque é socialmente mais sensível ou porque é financeiramente mais responsável. Ou porque.

Estou cansado de uns bons 15 anos de tretas renovadas e esperei, não por um “tempo novo”, porque não acredito que os protagonistas da governação saibam o necessário ou tenham a coragem para tal, mas pelo menos um tempo velho que não herdasse apenas truques velhos e discursos velhos para fundamentar fórmulas velhas. Dar com uma mão (baixando o IRS) e tirar com outra (subindo uma série de impostos e taxas sobre o consumo, algum do qual essencial para a formação do rendimento) é mais do mesmo. Esperei que ousassem um pouco mais, resistissem um pouco mais aos lobbys, não optassem por agradar apenas aos que têm mais voz na comunicação social na sua área política e deixassem os restantes a marinar.

Na Educação, foi o que se passou. A Ciência e o superior autonomizou-se porque tinha as pessoas certas para ter peso político nos bastidores e conseguir satisfazer a sua base de apoio. O Ensino Básico e Secundário foi entregue a um neófito (que provavelmente adoraria a outra pasta), desconhecedor do bas-fond político nacional, auxiliado por gente que pode ter muitos conhecimentos mas que parece mais preocupada em agradar para cima do que a ser justo para baixo. Estou cansado que me chamem corporativo quando faço estas queixas ou que me digam que não estou a ver o bem maior que deveria adoçar o meu mal menor. porque podia ser pior. Phosga-se, pá! Claro que tudo poderia ser pior. Imaginem que o raio do mosquito do zika decide que o nosso clima está mesmo a pedir uma visita. Imaginem que há um terramoto daqueles que anda a ser prometido há 200 anos para a área de Lisboa por causa da falha tectónica lá dos fundos. imaginem que há muito mais bancos falidos do que aqueles que nos deixaram saber e é preciso pagar a coisa e não tugir, mugir ou balir. Imaginem tudo ao contrário do John Lennon. Sim, tudo pode ser pior. Aliás, tudo parece ser sempre mesmo pior. Para os mesmos, salvo um ou outro salgado mais guloso, um vara mais destravado, um isaltino menos prudente.

Os do costume, os que têm sempre as portas abertas para conversas, seduzir, aliciar, pressionar, têm sempre os direitos adquiridos respeitados, as dívidas reescalonadas, os processos arquivados ou, em último recurso, absolvições em recurso. Esses não são corporativos. Esses não têm de se preocupar com o bem comum. Eles acham-se o bem comum.

A única diferença é que eu pensava que agora havia watchdogs no quintal. Parece que não.

cerbero1

 

9 thoughts on “O Bem Maior

  1. O problema, meu amigo, é que a maior parte da malta não consegue despir a camisola. Tanto os que prometem, como os que governam e como os que opinam.

    Tudo, ou quase tudo, ou muita coisa é sempre melhor se forem os nossos, os bons, os puros, a fazer.

    Desde que não sejam os outros – os maus, os maquiavélicos -, tudo, ou quase tudo, ou muita coisa tem sempre justificação.

    Mesmo que, como sempre, seja asneira da grossa.

    Excelente texto, Paulo.

    E sintomático o facto de ainda não ter tido comentários.

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  2. Talvez..mas muitos fizeram aqui análise bem.elaboradas sobre este governo antes de o ser ..prevendo que nunca o seria 🙂 🙂 eu continuo na minha vou esperar até 2017..os dois anos e picos necessarios para se ver algo de concreto e bem definido..Se eu acredito que é agora?Não o creio mas ainda acredito que algo.possa ser um pouco diferente ao menos…a não ser assim pouco mais nos resta que opinar

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  3. Creio que todos entendemos o sentido deste post e muitos o subscrevem de uma maneira ou de outra. Porém, há alguns aspectos em que convirá atentar talvez melhor.

    1º. Não deixa de ser curioso que, à direita, em torno do seu referencial ideológico (dominante…) e das consequentes práticas governativas, não haja o sentido de (auto)crítica que ocorre à esquerda, chegando nesta, nalguns casos, quase à autoflagelação. Há quem lhe chame pragmatismo ou eficácia…

    2º. E também não posso deixar de reparar que, no discurso mais ideológico da direita (hoje o Paulo Rangel, outro dia o Chaufer do PP), começa a aparecer o termo “maniqueísta” apontado à esquerda…

    3º. Este apontamento de PP merece reflexão e que se retirem as devidas ilacções: “Há dois aspectos positivos na vida política dos últimos meses, que deveriam servir de élan para as forças que querem outra política e outra composição do espectro político. Essas forças vãs do centro e centro-esquerda à esquerda, e estes aspectos tem sido desbaratados e pouco usados: um, é o derrube do governo PAF; e outro a política a que pejorativamente se chama de “reversões e reposições”, que representa o melhor que este governo tem feito.
    São em ambos os casos, medidas políticas muito fortes, a primeira traumática e genética, a segunda estrutural, mas tem tido um papel menor na argumentação política, como se fossem triviais ou meramente defensivas. Quer uma quer outra seriam boas oportunidades para dar um impulso e uma assertividade à actual maioria parlamentar que suporta o governo e, quer uma quer outra, ameaçam perder-se por uma mistura de passividade, moleza, descrença, má-fé, egoísmo de grupo e partido. A direita, pelo contrário, mesmo estando ainda muito assarapantada, não perdeu a sua agressividade. Conduziu uma campanha em primeiro lugar assente na ilegitimidade da solução governativa e, depois de esgotado este tema, conduziu outra campanha destinada a desqualificar a acção governativa nas “reversões” com argumentos tecnocráticos, aproveitando-se da interiorização que muitos jornalistas e comentadores fizeram do argumentário da direita nos últimos quatro anos. As medidas do Governo foram e são interpretadas em função do cânone da direita, e a esquerda recita-as, em particular o BE e o PS, como se fossem “positivas”, mas sem as inserir num debate político que precisava de ser muito mais dinâmico. Mais do que “promessas” ou meras reivindicações dos acordos PS-BE-PCP, as “reversões” são o sinal de que a governação passou, ou deveria passar, a servir o “bem comum” a maioria dos portugueses. Deveriam ser uma honra ao serviço da dignidade das pessoas e não uma mera correcção de rumo.” (in Público).

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  4. Buli, vou repetir o que já disse:

    – Considerei, neste e noutros espaços, que não acreditava que viesse a surgir um governo de coligação de esquerdas. E disse nessa altura que caso surgisse algo, mais não seria do que um governo do PS com apoio parlamentar do PCP e BE, através de um acordo pior que o das pizzas.

    O que cheguei a acreditar, em determinado momento das negociações, foi que esse acordo estava em risco de ser alcançado, pois soube que o PCP não estava a gostar do protagonismo do BE. E soube isto de fonte segura, tal como sei que, neste momento, ocorre uma pequena revolução dentro do PCP pois o andamento das coisas não vai ao gosto da sua ala mais dura.

    Quanto ao resto, vou ficar a assistir às cenas dos próximos capítulos com a calma e a raiva (…) de quem sabe que pouco ou nada do que deveria ser efectivamente feito será, pois nunca acreditei em salvadores da pátria nem tive esperanças de que esta solução governativa pudesse ser a mudança de que o nosso país necessita.

    Aliás, neste momento já estou curioso em saber quem será dos três o primeiro a roer a corda, pois o interessante vai ser assistir a hipótese de, numas próximas eleições, caso o PS ganhe sem maioria, ver o que irá ser feito.

    E não fiquem admirados se, com os votos do CDS, o PS conseguir a maioria parlamentar, tenhamos uma dupla Costa-Cristas no poder…

    Esperemos é que daqui não nasça um PSD renascido com o Passos Rabbit novamente a mandar.

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