Canibalismo

Há realmente que ter uma enorme pachorra para ler disparates sobre disparates, de uma ponta à outra do “espectro político” nestes tempos de imbecilidade elevada à categoria de análise do momento político. Com o pretexto do orçamento escrevem-se, subscrevem-se e partilham-se as maiores inanidades e incoerências. É intelectualmente indecoroso quem se inflamou contra Sócrates por ter congelado a carreira docente, achar que isso era natural com Passos Coelho e vir agora acusar Costa por fazer um OE que só trará benefícios aos funcionários públicos. É demasiado mau, é demasiada falta de carácter, demasiada desonestidade intelectual.

Li há pouco alguém que se aposentou em tempos bem mais favoráveis do que serão os meus, depois de uma carreira na função pública a subscrever, com o pretexto de declarações do presidente da GALP acerca dos aumentos de impostos sobre os combustíveis (que também critico, até por não ter transportes públicos da minha residência para o meu local de trabalho), esta autêntica sucessão de bojardas divulgada de forma pública numa rede social:

O que importa que o país vá perder? O importante é que os Funcionários públicos são aumentados. Os funcionários públicos, os verdadeiros pobres, o verdadeiro povo. Aqueles desgraçados que nunca ganham o ordenado mínimo, nem menos que isso; aqueles desgraçados que não têm medo de perder o emprego; aqueles desgraçados que não enchem as filas de desemprego; Aqueles desgraçados que vão passar a trabalhar menos 270 horas anuais que os ricos dos privados… esses porcos capitalistas que estão aborrecidos por irem pagar os privilégios dos pobres mencionados acima.

Isto é muito mau, é um chorrilho de mentiras e revela uma visão paupérrima do que deve ser uma sociedade que não se queira apenas terceiro-mundista e a disputar as migalhas do desenvolvimento com o Paquistão ou o Vietname.

Vamos lá a ver:

  • Os funcionários públicos não vão ser aumentados; quanto muito verão parte da sobretaxa que lhes foi aplicada ser reduzida ou desaparecer nos rendimentos mais baixos. Isto ser validado por quem esteve no funcionalismo público até ao momento que quis e que saiu a tempo de receber a aposentação que eu nunca terei, mesmo que trabalhe mais anos, é indecoroso. Não é rebeldia, não é verdade, não é incorrecção política. É MENTIRA.
  • Defender que os trabalhadores do Estado estão errados por poderem vir a regressar às 35 horas semanais é de uma tacanhez extrema, porque em vez de se defender o alargamento dessas condições ao universo dos trabalhadores (o que até permitiria aumentar o emprego), defende-se que todos devem ficar piores. isto não é defesa de equidade ou justiça, é apenas ESTUPIDEZ.

Tudo o resto é deste calibre, dum facciosismo claustrofóbico que até a um crítico de várias medidas deste governo empurra para a sua defesa perante o destrambelho extremo de quem comeu no prato de que desdenha, cuspindo alarvemente no daqueles que ainda fazem o seu melhor, dia após dia, mês após mês, com a carreira congelada e ganhando menos do que há uma década.

Realmente, só mesmo como observação antropológica um tipo se obriga a ler estas coisas, embora negando dar o nome a quem assim uiva ao deus dos mercados e da bondade privada quando se encostou ao Estado até ao último suco de tutano. Ide…

Haddock