50 Anos

A caminho dos 51 e a paciência a esgotar-se com tanta gente que sabe imensa coisa, que se esforça imenso por nos demonstrar isso, que se encastela (vou surripiar esta expressão a uma mensagem de um amigo de esquerda que me acha demasiado idealista) nos postos de poder (político. mediático, económico ou tudo misturado) que lhes permitem dar-nos lições quotidianas de como fazer, mas que depois tem um historial de décadas de profunda incompetência política (na governação), económica (com a falência mais ou menos clara de  empresas e imensos projectos criados só para absorver verbas europeias) ou financeira (a banca privada portuguesa, outrora farol do nosso empreendedorismo de sucesso, só sobrevive à custa da CGD ou de dinheiros angolanos). E não nos esqueçamos dos políticos-economistas de balcão como aqueles que escrevem e peroram anos a fio na comunicação social (camilos, arrojas, gomesferreiras e sucedâneos como aquele duque do honoris causa ao salgado ou um qualquer nogueiraleite em prateleira dourada para ficar calado uns tempos) e escrevem livros sobre como eles seriam imensamente bons a fazer aquilo em que são imensamente maus todos os outros, incluindo aqueles que convidam semanalmente para nos ensinar como somos todos tão maus e mesquinhos, os tipos que ganham 500, 1000, 1500 euros por mês e provocamos a falência do país e ainda queremos que não nos aumentem mais os impostos, enquanto são todos falinhas mansas com os direitos adquiridos dos que levam milhões e raramente prestam contas do que lhe fizeram. Dito assim, isto parece uma coisa à Paulo Morais, Henrique Neto ou Medina Carreira- quiçá mesmo um Pulido Valente ou António Barreto em dia bom , quando os fantasmas comunistas não os assombram – com a distinta diferença que eu não fui nem quero ser detentor de um cargo com possibilidade de fazer mesmo alguma coisa (porque sei o que temos a pagar em alma por isso) e só quero que me deixem fazer o meu trabalho (leccionar, escrever e publicar umas coisas) e que não me chateiem permanentemente, acusando-me de ser, enquanto professor do ensino público, um privilegiado, um chupista, um egoísta e um incompetente pelo simples facto de ser o que sou.

Vão-se tratar.

Tenho meio século de vida neste torrão – é pouco comparado com os matusaléns de que me lembro desde que usava calções, mas tanto ou mais do que muitos imberbes que agora já herdaram o poleiro em sucessão hereditária ou cooptação medíocre (do género dos nomeados para certos reguladores ou ex-secretários de estado distribuídos com generosidade em administrações e consultorias de negócios que tutelaram) – mas cansa-me ver a degenerescência a que isto consegue chegar, a cada novo patamar de indigência do debate político, seja movida a relvas ou a galambas.

Era pequeno, só me lembro de patrulhas da gnr e chegadas tardias a casa do progenitor, pelo que não assisti com atenção e militância ao estertor do Estado Novo e o PREC para mim foi a época dourada de arrancar cartazes das paredes para horror da minha mãe (porque eu era especialista nos da extrema esquerda e isso poderia acabar em porrada). Já crescido lembro-me do que foi o final do meu secundário e início da Faculdade, os tempos da austeridade do fmi da primeira metade dos anos 80, os salários em atraso, a península de Setúbal a ferro e fogo e as famílias da minha rua com meses no rol de fiado. Lembro-me, já adulto, do vergonhoso final da clique cleptocrática que cresceu à sombra das maiorias cavaquistas, os duarteslimas e muitos outros, ricos de um momento para o outro como se no seu regaço tudo se transformasse em ouro. E, depois, já com a paciência a escassear, a claustrofobia dos tempos maioritários de Sócrates de que nunca se saberá verdadeiramente a dimensão porque muita gente teria de desaparecer do cenário, dos ecrãs, das lições públicas aos palermas. Tempos em que se aprofundaram as raízes uma forma cobarde de fazer política, baseada na crença da impunidade total de quem pode amesquinhar quem bem entende na sua dignidade sem qualquer risco de reparação ou responsabilização efectiva (já repararam como sumiram do mapa, como impolutas virgens, as vozes que questionaram sem fundamento certos currículos, usando-se do candidato idiota, que estava longe de ser o tino?).

Só que agora, neste último ano, a podridão atingiu de uma forma que parece irreparável o debate político, as ideias desapareceram, a menos que sejam as que ouvimos e lemos completamente desligadas do que deveria ser o seu significado concreto, a discussão passou para o nível da indignidade pessoal e a mentira passou a ser um acto voluntário de luta política, distorcendo-se de forma voluntária os factos para atingir meios e fins através do acotovelamento de tudo e todos.

Isto para mim é que é claustrofobia democrática, porque os rangéis que outrora passaram por seus teorizadores e os assis que se acham sebastiânicos, andam à solta como se fossem senadores da República, quiçá mesmo reservas morais do regime, quando não passam de simulacros de políticos a sério, sendo apenas vozes desligadas de qualquer verdadeira base de apoio na sociedade e representando-se apenas a si e à sua vazia vaidade, só possível graças a quem mexe os cordelinhos que os mantém em movimento.

Joker

Pronto, pronto, já me calei, isto foi apenas uma brincadeira de Carnaval. Foi só uma mascarada, eu a fingir de velho dos marretas porque se fosse de pulidovalente ainda acabava em deputados por seis meses. Não é nada a sério e eu já tomei um cházinho de camomila. A Pátria está do melhor, o Governo é do melhor e a Oposição do mais responsável que me foi dado conhecer em toda a História recente, passada e porvir-se.

 

 

13 thoughts on “50 Anos

  1. A Mudança só se Dá na Continuidade
    Dirigirmo-nos a alguém com a missão de que se transforme noutro, é irmos com a embaixada de que ele deixe de ser ele. Cada qual defende a sua personalidade, e só aceita uma mudança na sua maneira de pensar ou de sentir, na medida em que esta alteração possa entrar na unidade do seu espírito e enredar-se na sua continuidade; na medida em que essa mudança se puder harmonizar e se conseguir integrar com tudo o resto da sua maneira de ser, pensar e sentir, e possa, por outro lado, enlaçar-se nas suas recordações. Nem a um homem, nem a um povo – que, em certo sentido, também é um homem – se pode exigir uma mudança, que desfaça a unidade e a continuidade da sua pessoa. Pode-se mudá-lo muito, quase até por completo; mas sempre, dentro da continuidade.

    UNAMUNO

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  2. Maybe..provável..a chagafa aos 50 faz—nos sentir a perenidade como.um facto invevitavel..não sou conformista no sentido.mais efectivo da palavra…sou talvez um pragmático semirealista e sim algo meio conformista.:-) :-)bem vou ver uma turma de 7 ano..tempo horrível..abro.uma excepção..é pequena 🙂 :-)bom carnavale..

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  3. pois….assino por baixo. Mas eu que já tenho 50 e mais um ano que o Paulo, prof não previligiada -Indíce 167 com 17anos serviço e, de há 4anos para cá, com pior horário do que qd comecei!!!!-, já perdi a paciência até de escrever/falar sobre este pântano. Só sonho com o dia em que me possa reformar antecipadamente, mesmo com menos de 500euros, para me ir embora desta merda de país. E esta, hein?!…acabei por dizer o que penso….

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  4. O meu manifesto de Entrudo:

    O dia de Entrudo costuamva ser um dia especial na tradição: representa a rejeição do velho, do inverno, das trevas e a passagem para o novo, a Primavera, a Luz. Na acentralidade pagã esta passagem representava os rituais de sementeira que se avizinham, o lançar á terra de nova colheita. Com a era Cristã, representa a passagem das trevas da ignorancia e pecado para a nova luz que culmina na Páscoa. Daí a quaresma, tempo de recolhimento, expiação dos pecados, abstinência da carne. O que era pagão passou a simbologia cristã.
    No entanto, quado vemos os Carnavais que passam na TV, vemos sobretudo critica social. Expiação dos pecados, o aligar da carga negativa para um novo ciclo de luz. Mas,… ninguém leva a sério o Carnaval. É só brincadeira. E assim deixamos de ter renovação e o lamaçal da vida em que vivemos não se regenera. Viva o Pântanal na coisa pública. Poderemos nós, idividualmente, fazer a diferença?

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