Da Velocidade

Podemos dizer o que dissermos, termos as pretensões que tivermos, mas a malta nova vive desde demasiado cedo a um ritmo que nós (pessoal na meia idade, pronto) só acompanhamos com muito esforço e nem sempre sei bem com que custos. Para nós, mas também para eles. Fazemos o que pudemos, há quem aguente, mas a maior parte ou não consegue ou vai lá na base daqueles defesas centrais já nos meados dos trinta, com muita manha a compensar a falta de pernas.

Lembrei-me disto ao lembrar-me de um dos meus alunos nee, de um pequeno grupo que eu ocupo um par de horas por dia com uma esperançosa introdução à informática, sem programa definido, mais a experimentar o que cada um consegue fazer. Este meu aluno, vamos chamar-lhe L em defesa da privacidade é um caso bastante complicado e os objectivos do ano passado passavam por ele saber ligar, usar e encerrar um computador com um apoio mínimo da minha parte, já que ele mal reconhece as letras e muito menos palavras completas. Distingue alguns ícones e teclas básicas de movimento, usando o mouse com se tivesse a manusear um cristal coberto de explosivos.

Este ano, passámos para a fase de ele já aceder aos programas ou aos programas de navegação e de tentar fazer pesquisas com as primeiras letras da palavra inicial do que lhe interessa. No 5º ano só pensava no Benfica e nos vídeos dos jogos, mas este ano deslocou o interesse já para o cinema e em especial as comédias, o que revela bem os progressos realizados. Numa das primeiras aulas pediu-me para ver “filmes para rir daquele senhor de bigode” e eu fiquei a patinar um bocado até perceber que ele falava do Charlot. Quando lhe coloquei alguns a partir do Youtube foi ver a imensa felicidade dele e o riso transparente de alegria. Lá tentei que ele aprendesse a pesquisar sozinho, mas ele perde-se sempre que dispara uma janela de pop-up ou aparecem daqueles anúncios manhosos que foi necessário ensinar-lhe a ultrapassar. Claro que ele se referia aos curtos filmes mudos e não é possível interessá-lo por outros.

Há coisa de um par de semanas pediu-me para ver “coisas do Zorro”. Eu sei que há sempre quem ache que isto não são actividades de aprendizagem, que ele assim não aprende nada, mas eu permito-me discordar e até explicaria se tivesse tempo e pudesse fazer uns desenhos ou passar umas gravações das nossas aulas.  Indo ao Zorro… fui em busca e lá achei os episódios da velha série que eu vi em puto, a de final dos anos 50 da Disney, mas vi claramente a sua desilusão ao fim de poucos minutos, apesar dos episódios dobrados em português do Brasil. Porquê? Porque era tudo muito lento, muito pausado, perguntando-me ele se eu não tinha o filme com as lutas. Eu disse-lhe que não, que o filme mais recente (com o Banderas e a Grande Zeta) só em sites piratas se pode ver e isso não pode ser, só pequenos pedacinhos. Na aula seguinte, lá me apareceu ele com um dvd (original), muito riscado do filme e lá me pediu para lhe ensinar como se via e lá ficou fascinado pela cor e movimento do filme, mesmo se passava para as cenas de acção sempre que os diálogos e cenas mais descritivas apareciam. Segundo ele, era chato e ele queria coisas a acontecer. Mesmo que, por quase todos os padrões que usemos, ele tenha uma capacidade bastante limitada para acompanhar o que se passa em seu redor. Mas queria coisas a acontecer.

Na mesma semana, quando fiquei uma turma de 6º ano reduzida a metade em virtude de uma actividade desportiva e chegámos a acordo em ver um qualquer filme que estivesse disponível (calma, nem todas as minhas aulas serão sessões da Cinemateca, eu garanto, mas já que tenho estes recursos, sempre se criam espaços para respirar) e não fosse daqueles de terror sangrento (a primeira opção da maioria), escolhi o que achei ser uma comédia não muito exigente, o velho Ases pelos Ares. Engano meu.  Mesmo para mim, 25 anos depois, o que foi considerado um filme cheio de parvoíces, idiota para muitos, disparados sem cessar, pareceu-me lento e demasiado cheio de referências que a miudagem de 12-13 anos não entende, só se rindo com piadas mais físicas ou escatológicas. Quase parece um filme intelectual e com pouco ritmo quando o Topper tem as suas memórias e introspecções. Também estes alunos, do ensino dito regular, queriam coisas a acontecer. A um ritmo que, há um par de gerações, seria impensável. E a um ritmo visual, que dispensa diálogos mais demorados, explicações, ideias, um ritmo de comunicação que não é o nosso, torrencial, não intelectualizado da forma tradicional.

E é aqui que se percebe que algo mudou à nossa volta. Muito. O ritmo da vida passou a ser imposto pela impaciência dos mais novos e não pela disciplina dos mais velhos. Tudo acelerou. Sendo que no caso do meu aluno L a identificação é com o ritmo frenético das imagens do Charlie Chaplin de há 100 anos.

E esta, hein?

Fernando pessa

Adenda: isto é que é um texto mesmo fora deste tempo. Lento, sem um propósito claro que não escrever-se e tentar ser lido.

 

12 thoughts on “Da Velocidade

  1. Li e gostei da reflexão. Tenta a Pink Panther… Vais ver o resultado!
    Curiosamente, acho que ainda não perdi parte do ritmo: mas, cá fora compenso com silencio, tranquilidade, calma e uns cigarros. Quando entro na aula transformo-me. Mas cada vez menos.

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  2. A questão não é geracional, mas de nível cultural..A cultura pop vive da rapidez e da sensação a todo o custo, porque a profundidade e a complexidade não são categorias constitutivas do seu universo. Desenvolvendo-se apenas horizontalmente, agarrada que está a formas e fórmulas esgotadas e paupérrimas,(as que servem um público manipulado e imbecilizado), aposta tudo nos artifícios de intensificação. A velocidade é apenas um deles.
    Utilizar, sem mais, as ideias de geração e tempo parece-me prestar-se a um exercício explicativa que deve mais a uma metafísica essencialista do que a uma justa compreensão dos fenómenos culturais e sociais.

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    1. A cultura pop não nasceu agora. Eu escrevi exactamente que há 100 anos existia a mesma tentação. Há é fases de aceleração e desaceleração. A actual fase de aceleração, alimentada pela rápida evolução tecnológica, é de enorme aceleração.

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  3. Muito bom o diagnóstico. Os miúdos de todas as idades parecem viciados em acção e movimento, e cenas mais paradas, românticas ou introspectivas tornam-se rapidamente “uma seca”.

    Surpreendentemente o Chaplin, mesmo mudo e a preto e branco, agarra-os e prende-lhes a atenção: é verdade!

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  4. Também sinto que está tudo muito acelerado e eu estou a sentir algumas dificuldades para acompanhar este ritmo. Mesmo um texto que, até há poucos anos, entusiasmava imenso os jovens, como o “Manifesto Anti-Dantas”, foi considerado uma seca por uma turma que tive o ano passado. Acho que já me começa a faltar energia para tanta velocidade!

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  5. É verdade, sem dúvida! Mas, tb é cada vez mais de lavagem ao cérebro, porque ver um filme italiano ou francês já gerava rejeição. Esta Cultura formatada, acelerada, gera, maioritariamente, mentes lisas, a caminhar para robôs.

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