Bons Velhos Tempos

Escola Secundária Alfredo da Silva, 1982-83.
Filosofia 19, História 19, Geografia, 16.

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O Segredo

Do sucesso educativo.

Das sociedades escandinavas ou orientais.

Não foi dar mais do mesmo, obrigar os alunos a estar do nascer ao pôr do sol nas escolas, em aulas ou “actividades”. Não foi tornar tudo muito “interessante” ou “divertido”. Não foi determinar esse sucesso por decreto. Nem foi carregar de burocracia as escolas e professores.

O segredo esteve em algo muito diferente e é comum a esses tipos tão distintos de sociedade nos momentos em que se tornaram líderes neste tipo de comparações internacionais. Foi a auto-disciplina e auto-exigência dos alunos em relação ao desempenho, a capacidade das famílias os apoiarem fora do horário escolar, a motivação e valorização do papel dos professores, um conceito de Escola que não se confunde com o de outras organizações sociais, uma visão política a longo prazo não determinada por calendários eleitorais, interesses de facção partidária ou meras racionalizações economicistas e, finalmente, a existência de um sentido social para a Educação, não vista apenas como um espaço de colheita de diplomas. Foi a combinação desses factores que permitiu o sucesso.

Por cá preferem-se os truques de curto prazo, a pressão administrativa e burocratizante sobre as escolas e os professores para fabricarem sucesso estatístico ou então precisam de 24 folhas de impressos para se justificarem, abdicando-se de interligar o progresso educacional à mudança social no sentido da melhoria das condições de vida dos alunos e famílias e do combate (a sério) à desigualdade. Parece que dá mais trabalho fazer isso do que produzir portarias, despachos e decretos a partir do ME.

Desculpem-me lá a franqueza, mas uma batata é uma batata e a sua lógica é a mesma, seja ela branca, roxa ou às pintinhas.

Kramer

Horários Escolares pelo Mundo (Secundário)

Uma espreitadela a dois horários de 10º ano na Alemanha:

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Agora o caso de Leeds, de que não interessa apenas o horário mas o que é dito em seguida e que constitui uma forma muito diferente de encarar o currículo que implica mais mudanças mentais do que quaisquer outras.

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She (Anna) has a 10-day cycle of classes, five periods per day, each lasting one hour. It is up to the teacher to dismiss students from class early enough for them to get to the next class on time. The daily “PM Registration” time is equivalent to a US “homeroom”, but Anna says clubs often meet during this time or it can be a time to take care of other school business.

And what are these gaps in the schedule where she has free periods? Who is watching her? …No one. She can go to the library, or the common room (which she has not noticed any staff member supervising, although administrative offices are nearby.) Or she can check herself out and walk home or into town (which she can also do during lunch.) It seems that the UK system treats a 16-year-old as a young adult, while 16-year-olds in the US are treated the same as much younger students.

Anna was allowed to choose all of her classes. Note that she is taking only 4 courses: Maths, Physics, Chemistry, and History. No courses are required, but students must choose their coursework carefully. Students work to prepare for A level qualifying exams. When they apply to university, they apply to a specific college course and will only be accepted into that field of study if they have earned the proper qualifications at A levels.

Horários Escolares pelo Mundo (4º-6º Ano)

Modelo oriental (China, Coreia, Japão) e ocidental (EUA, Finlândia, Inglaterra) há alguns anos. Só em Pequim e Washington as aulas ou actividades passavam das 15 horas e em nenhum caso depois das 16. Talvez dê para perceber alguma coisa a algumas mentes. Ou não. Porque não se avança a copiar só o que dá jeito.

Basic Research on Academic Performance – International Survey of Six Cities – Preliminary Report

A sucessão de imagens segue a seguinte ordem, Beijing, Helsínquia (4º ano), Londres (6º ano), Seul, Washington e Tóquio. Excepto nos casos assinalados, são horários de 5º ano.

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Horas na Escola (Europa, 2014)

Já estamos no 2º lugar em horas na escola… mas queremos o 1º! Em relação à amada Finlândia temos mais de 3500 horas em excesso. em relação à Suécia são mais de 3000. Até em relação à Espanha são mais umas 900 e à Itália umas 650.

A imagem é deste artigo com base nos dados da amada OCDE. Já sei… vão dizer que passam a ser menos horas de aulas e mais de divertimento. Amigos… muitas das aulas já são pura diversão.

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Lá Vamos Nós

Acabam-se os exames para satisfazer a facção mais vocal, mas querem-se os alunos na escola em regime de quase internato até ao 9º ano. Em boa verdade, só lá não ficam já os que não querem, pelo que esta medida só se entende se for no contexto do alargamento do conceito de jardim-escola e parque de diversões às escolas. Para os que acham que isto vai trazer mais postos de trabalho nas escolas, será melhor terem em atenção que, mesmo contando com o alargamento pretendido do pré-escolar, as verbas previstas são menores do que nos últimos anos.

Como esta oferta vai funcionar é que ainda não se sabe. Para já, o Ministério da Educação apenas refere que ainda não começou a negociar este tema. Já que é certo que o alargamento das atividades extracurriculares (AEC) a todos os alunos do ensino básico – cerca de 878 mil alunos, entre o 1.º e o 9.º anos – tem de ser negociada porque vai ser necessário contratar funcionários, professores ou técnicos e até convencer as autarquias a entrarem nesta oferta, à semelhança do que acontece no 1.º ciclo.

Tudo isto me faz recordar outros tempos, conceitos de Escola a Tempo Inteiro que me desagradam profundamente, porque se encontram ao serviço de uma ideia de continuação da desregulação dos horários laborais e a uma ideia de Educação que cada vez mais desconta o papel das famílias, reduzidas ao papel de acordar e deitar as crianças (e dar-lhes o jantar e pequeno-almoço no caso das menos desafortunadas).

Quanto alguns amigos muito de Esquerda me acusam de estar a ser demasiado crítico, a não dar benefícios da dúvida, a não contemporizar com as alegadas boas intenções a 4 anos deste governo, eu recordaria que em 2008 todos (ou quase) éramos contra estas medidas e não há Crato que as justifique retro ou prospectivamente.

A ideia de uma Escola a Tempo Inteiro até ao 9º ano é uma prática completamente ao arrepio do que fazem os países mais desenvolvidos da Europa, em que as escolas não são depósitos de crianças e jovens, onde lá ficam até à mais extrema saturação. É o regresso à ideia de Sócrates/MLR de que as escolas devem ser a rectaguarda de famílias a quem não se dão condições de vida para estar com os seus filhos a horas decentes. É a rendição a uma lógica com que não me identifico, assistencialista no pior dos sentidos, em que as escolas se tornam centros de assistência social (sem assistentes sociais) e uma enorme campo de actividades (assegurados com “técnicos” pagos a 3 euros a hora ou com as horas ditas “não lectivas” dos professores).

A todos aqueles que agora aplaudam esta ideia, por ser de um “governo de Esquerda”, espero que contemplem com muitas horas destas actividades extra-curriculares no horário com aqueles mesmos alunos de que se queixam nas aulas. Que lhes possam dar, em regime “extra-lectivo” o que deveria estar nos currículos, mas sem exames, que é para ninguém levar nada disto a sério.

Eu discordo disto e já o escrevi há muitos anos e não mudei de opinião, desculpem-me lá se sou casmurro. Cada vez mais isto me parece o modelo MLR com um sorriso nos lábios.

A Escola a Tempo Inteiro Como Símbolo Maior do Fracasso do Estado Social