Branqueamentos

Não estava à espera que depois da medalha do Cavaco, até o João Paulo aparecesse a defender o legado de MLRodrigues no ME, naquela estratégia de relativizar tudo o que ela fez à luz do que Nuno Crato (outro medalhado) aprofundou.

Discordo tanto do texto do João Paulo que até me custa pensar que foi ele a escrevê-lo e que se deu ao trabalho de ir buscar todos aqueles indicadores, retirando-lhes o contexto e nem sequer referindo onde os colheu (porque os que eu tenho não batem nada certo com alguns que ele usa) para demonstrar a tese de que MLR foi melhor do NC (e é isso que está em causa, nem vale a pena negar). Então quando ele fala na parte emocional da rejeição de outros tempos a MLR, parecendo achar que agora já é melhor analisarmos tudo racional e estatisticamente parte-me todo e só não me parte o coração  – 🙂 – porque isso já fez a dita cuja e a muitos milhares de professores, incluindo todos aqueles que abandonaram a profissão por causa dela e não por serem incompetentes.

Acho especialmente triste que a Memória esteja em erosão e que se preste a reescritas relativizadoras. A metáfora do ela apenas abriu a porta, ele é que fez o mal todo que aparece em alguns escritos e comentários por aí, desgosta-me para além da vontade de alinhar argumentos contra. Acho que é truncar a História falar do aumento do investimento na Educação por parte de MLR legitimando indirectamente a escola pública a 3 velocidades que se agravou nesse momento. Acho caricato que se apontem dados de redução do número de conclusões de ciclo, sem referir que o número de alunos tem sido menor, não apresentando o seu grau relativo. Claro que há menos alunos a concluir estudos porque há menos alunos, ponto. Sobre o abandono escolar os dados usados não são os que conhecemos, bem recentes. Mesmo se eu discordo dessa forma de fazer comparações.

Como já escrevi em comentário a outro escrito do João Paulo, os crimes de um nunca poderão legitimar retrospectivamente os crimes de outra. Como se os desmandos de alguém pudessem ser absolvidos porque a seguir veio quem fez pior.

Mas o que me desgosta mais é ver como a Memória é desvirtuada quando se pretendem relativizar fenómenos que foram avassaladores em dado momento da História com argumentos econométricos, ou seja, com tudo aquilo que eu pensava que reprovávamos numa visão estatística da Educação. Penso que existem limites para se mostrar boa vontade com a nova Situação. Esses limites passam pela forma e respeito como tratamos a História, pela forma como colhemos a nosso gosto este ou aquele indicador. Tudo o que antes criticámos a MLR e Crato não devemos, até de um ponto de vista moral, replicar.

Já percebi… sou um corporativo. Não vejo o enorme bem que MLR trouxe aos alunos, todos os indicadores que ela melhorou (faltou falares nas NO, João), devo estar cego pela emoção; nem sou capaz de perceber que os novos tempos são de compreensão, relativização, truncagem. De branqueamento.

Não consigo. A memória do que foi não me abandona. O futuro não é radioso. O passado mais remoto mão é menos negro, porque escureceu mais entretanto.

A noite começou antes. O luto já o fiz. Custa-me é ver a recuperação do alegado bom legado. Se é assim que vamos encarar as coisas, Salazar teve óptimos indicadores nos anos 30 em matéria de finanças e mesmo de obras públicas. E manteve-nos fora da guerra nos anos 40, como diziam muitas pessoas velhinhas. Mas fazia outras coisas. Raios… fazia coisas que não se podem comparar, pela indignidade e falta de respeito pelas pessoas, com indicadores estatísticos. Estou a hiperbolizar? Claro que estou e justifica-se.

Dali

Já agora, João… a maravilhosa experiência autárquica que de forma recorrente exaltas para Gaia não é argumento para defender que passou a existir uma municipalização virtuosa da Educação. E é disso que começo a estar à espera.

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Ignorância, Medo

Há alturas em que deixa mesmo de chegar – para eles, para nós – seguir os modelos canónicos da leitura orientada, autónoma, seja qual for, nas aulas de Português com a petizada. A maior parte dos textos mais recomendados diz-lhes muito pouco e nós já os ensinámos tantas vezes que é raro o ângulo por onde podemos meter golo.

Usar As Naus de Verde Pinho do Manuel Alegre no 5º ano, em especial no 3º período, tal como a Nau Catrineta, em articulação com os conteúdos de HGP tem as suas vantagens. Terem colocado a obra nas leituras do 6º ano levanta alguns problemas, porque o Bartolomeu Dias já atravessou o cabo das Tormentas há muitos meses e o texto poético é daquelas coisas que nem sempre encaixa em todas as turmas.

Optar por lhes dar a obra sem grande preocupação com os aspectos formais das rimas, esquecer um pouco o aspecto técnico da poesia e apostar na dramatização das Ideias, mostrando como o Medo, os Grandes Medos, nascem quase sempre da Ignorância é um caminho que, desta vez, parece ter dado resultado. Explicar as resistências dos marinheiros ao avanço, quando até as estrelas do céu pareciam ter mudado de sítio, com base na sua falta de Conhecimento, de Informação, demonstrar como a contrariar e fazer recuar a Ignorância é a grande arma que dá a vitória sobre o Medo, foi a  forma de reinventar  uma aula que esqueceu perguntas sobre as sextilhas e as rimas interpoladas ou cruzadas e conseguir atrair a atenção de quem nem sempre percebe que até os pequenos medos do quotidiano nascem, na maior parte dos casos, do desconhecimento. E assim sempre se ficou com alguma expectativa para o desfecho da estória da História que estava mal recordada, a (re)descobrir na segunda-feira.

Mapa

 

Expectável, Infelizmente!

A Confap, ao nível da sua cúpula, não se caracteriza, há bastante tempo, por um pensamento divergente em relação ao poder que esteja e raramente discorda sem ser com imensa cortesia de quem tem o poder de assinar as transferências.

Como encarregado de educação (sim, os professores também são pais e até há quem tenha os seus filhos nas escolas públicas da área de residência), as posições da Confap embaraçam-me, porque revelam uma ideia de escola e Educação que não partilho e a rendição à real politik de dizer… ahhhh… as condições das famílias são más, dão trabalho a mudar, vamos transformar as escolas em enormes instituições de assistência social.

Em vez de defender e lutar por melhores condições laborais e socio-económicas para as famílias estarem mais tempo de qualidade com os seus filhos, que afirma existirem em outras paragens, o seu presidente subscreve medidas típicas de um terceiro-mundismo. Estranhamente (ou não) não me causa qualquer surpresa. É a continuidade de um estilo que terá, a seu tempo, uma qualquer assembleia municipal ou equivalente à espera.

Isto não é defender os interesses dos alunos e das famílias, é alinhar na sua alienação.

Exp13Fev16

Expresso, 13 de Fevereiro de 2016

Recordar é Reviver

Professores disseram claramente e de forma expressiva NÃO! ao processo de municipalização da Educação

Representantes das oito organizações que constituem a Plataforma Sindical Docente fizeram, em conferência de imprensa realizada em Lisboa (5/06/2015), o balanço da consulta aos professores sobre a municipalização da educação. 97,5 por cento dos votantes disseram “Não!” .

Representantes das oito organizações que constituem a Plataforma Sindical Docente fizeram, em conferência de imprensa realizada em Lisboa (5/06/2015), o balanço da consulta aos professores sobre a municipalização da educação. 97,5 por cento dos votantes disseram “Não!” .

Faltando apurar (no momento da realização deste encontro com a imprensa) apenas 15 por cento das 2 197 mesas de voto, a Plataforma deixou uma “primeira nota” para destacar – e são já palavras de Mário Nogueira –  que “este processo de auscultação não tem precedentes no nosso país”.

A nível nacional, por voto secreto, num expressivo ato de cidadania, milhares de professores manifestaram a sua firme oposição ao processo de municipalização que o Governo quer concretizar.

Gostava só de sublinhar que na consulta feita não se questionou se os docentes queriam uma municipalização má, assim-assim ou boa e virtuosa.

O não foi a esse processo, sendo que dele já não contava a gestão do pessoal docente.

Ora… eu espero estar MESMO enganado, mas nos próximos tempos pode aparecer por aí a tese de que a municipalização pode ser, afinal, boa, se for feita com pessoas muito sensatas à mesa, nomeadamente os que apareceram nesta conferência de imprensa.

E quero MESMO acreditar que “este processo de auscultação [sem] precedentes no nosso país” não venha a ser deitado fora em troca de um novo entendimento ditado pela cedência ao lobby das obras públicas autárquicas (que querem os fundos comunitários para as construções escolares e não só) e à tese de que, sem contratação de professores, a municipalização da Educação é, afinal e ao contrário do que acham velhos caturrentos como eu, o novo Paraíso na Terra que irá permitir um desenvolvimento do país como nunca vimos até agora.

Ahhh… só um momento… isto não é anti-sindicalismo… é anti-vira-casaquismo.

Kiss