Chuva, Cheias

A culpa é do esquerdalho que precipitou as nuvens e fez descer a pressão. O Chóible confirmou há bocado que os valores estão acima da média.

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O comentário habitual à sondagem semanal do ComRegras:

SondaMono

Mono, Bi, Polidocência… Tudo Depende

Não tenho uma ideia clara e definitiva sobre a questão da monodocência no 1º ciclo, assim como questão isolada e sem a integrar numa lógica mais ampla de organização dos ciclos de escolaridade e da extensão (ou não) do ensino pré-escolar.

Tal como as coisas estão, acho que a monodocência deve continuar a ser a regra básica, com um professor titular de turma a assegurar o essencial do trabalho com as turmas e, em especial a partir do 3º ano, a poderem existir professores que venham trabalhar áreas como a Educação Física, o Inglês ou as TIC, podendo dar mesmo a sua classificação com maior ou menor peso na nota final.

Isso até permitiria flexibilizar a redução do horário lectivo dos professores do 1º ciclo de forma regular, sempre que acompanhassem a turma do 1º ao 4º ano, algo que agora não acontece. E acho que, numa lógica de articulação vertical do currículo, faz todo o sentido que se comecem a partilhar experiências e olhares entre os vários ciclos do Ensino Básico.

Mas, confesso, preferiria que esta discussão fosse feita a par de uma outra mais vasta acerca da própria organização do Ensino Básico que, numa lógica de escolaridade de 12 anos, não tem grande sentido estar dividido em três ciclos, preferindo em que se reduzissem para dois, cada um deles com 4 ou 5 anos. Num 1º ciclo com 5 anos, a monodocência deveria existir até ao 3º ano e depois existir já um início de polidocência, ficando o 2º ciclo com uma estrutura mais alargada e próxima do actual 3º ciclo. Na outra hipótese (4+5), a introdução da polidocência ou uma forma de monodocência coadjuvada poderia iniciar-se no 3º ano. Mas tudo isto depende, lá está, de um outro debate igualmente mais amplo sobre o conteúdo do currículo do 1º ciclo e do que queiramos entender como matérias curriculares obrigatórias e actividades extra-curriculares opcionais.

A monodocência, num aspecto mais restrito ou alargado, tem a vantagem de manter um referencial central para os alunos mais novos e acho que esse é um valor que não deve ser abandonado. No entanto, acho que só se terá a ganhar com a abertura do 1º ciclo à presença de outros professores e de outras experiências, outras metodologias, quando os alunos chegam aos 8-9 anos.

Fim da monodocência? Não.

A sua reformulação e enriquecimento numa perspectiva mais alargada de reforma da organização do Ensino Básico? Sim.

Horário Mínimo Anual de Aulas (2014/15)

Como se levantaram algumas dúvidas, em relação a um post de há uns dias, quanto ao total do número de aulas anuais dos alunos portugueses, devido à extensão da escolaridade obrigatória ser diferente, ficam aqui os elementos para 2014-15 da base de dados europeia Eurydice, com a respectiva explicação. Nada disto invalida que a média de horas na escolaridade obrigatória em Portugal seja das mais elevadas (até porque estes valores contemplam até ao 12º ano) e, em conjunto com a França, aquele em que a Língua Materna e a Matemática ultrapassam os 50% da carga horária média. A Finlândia, apontada quase sempre como modelo, continua a apresentar um valor mínimo anual muito inferior ao nosso. No caso da Inglaterra, deixou de existir um valor mínimo oficial.

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O Grande Pacto

Eduardo Marçal Grilo é coerente na sua postura de querer um pacto educativo nacional, destinado a permitir a continuidade de políticas educacionais para além dos mandatos educacionais. Defende isso há 20 anos, honra lhe seja feita.

Claro que podemos questionar sempre se os pactos não acabam por, em muitas matérias, existirem informalmente. Como existem sobre o modelo de gestão, a pulverização da rede escolar, o combate ao insucesso nas estatísticas. Excepção feita aos “exames da 4ª classe”.

Mas o que eu acho ser um erro é querer que esse pacto se faça apenas entre os protagonistas políticos, com ou sem a muleta de outros actores instrumentais (sejam sindicatos pacificados com verbas para formações dadas pelos seus quadros, organismos periféricos em representação das “escolas” com meia dúzia de directores ou confápes em defesa das “famílias”), mas nunca, por nunca ser, com quem tem a missão de implementar as reformas no terreno e quem deveria ser consultado a sério e mobilizado de forma positiva para o fazer: os professores.

Mas isto é apenas o meu corporativismo a falar, porque essas consultas são difíceis de operacionalizar (mais vale ir a escolas com base em solidariedades escutistas) e “democracia” é fazerem-se acordos de regime com o antónio e o pedro. Ou quaisquer outros no seu lugar. Que fariam os pactos enquanto os patos ficavam a ver tudo a passar.

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Expresso, 13 de Fevereiro de 2016

 

Branqueamentos – II

O João Paulo fez um novo texto em que pensa estar a demonstrar que não esqueceu os males do mandato de MLR e faz uma extensa exposição em que destaca que esses tempos foram incomparáveis, no mau sentido, pela forma como a ministra e essa equipa ministerial se relacionaram com os Professores.

Ora bem… até podias ter escrito dez textos como esse, cheios de fotos e tudo, desde que não se começasses a subentender aquilo que acho ser a parte II do branqueamento em curso, acredito que involuntário da tua parte. E que é dizer que o mal de MLR foi o estilo e a forma de se relacionar com os professores, pois o resto das suas ideias até era bom.

Ora… não era na sua maior parte. Em meu escasso entendimento, claro, eu que fico agarrado a atavismos e embirrações ou obsessões, como alguns pragmáticos gostam de me apontar.

Discordei e discordo da Escola a Tempo Inteiro, discordei da manutenção das ACND (que entrevejo à esquina a espreitarem-me, dadas talvez por formadores ou animadores), acho que as NO foram uma fraude, que as aulas de substituição não trouxeram ganho nenhum aos alunos, que os Magalhães foram um fiasco dispendioso, as AEC uma proletarização indigna do trabalho pedagógico reduzido a entreténs e os quadros interactivos e os portáteis aos pontapés uma excessiva alocação de verbas em tecnologias que em poucos anos se tornaram obsoletas ou subutilizadas (portáteis). Acho que a Parque Escolar foi responsável pelo maior processo de desigualdade na Escola Pública, com escolas de primeira classe para as elites urbanas e outras suburbanas com poder de pressão sobre o governo, escolas de segunda classe para quem recebeu algumas melhorias e escolas de terceira para quem nem recebia verba para afagar e pintar o piso do pavilhão escolar, isto no caso das escolas com pavilhão. MLR não foi apenas quem legislou a carreira em dois patamares e os titulares, introduziu os congelamentos sem troika, criou o modelo único de gestão, o fim do par pedagógico em EVT, a remodelação do enquadramento dos NEE com uma lei destinada apenas a reduzir o seu número por via administrativa, a PACC, a ADD e tanta outra coisa que agora parece esquecida e como se fosse criação do Nuno Crato. MLR foi alguém que encarou a Educação não como uma prioridade nacional mas uma arma de arremesso político e manipulação estatística, a cúmplice ideal do engenheiro e a protegida do Cavaco. Os estudos muito recentes sobre os PISA 2009 já levantaram o véu sobre as distorções da amostra usada e que tentou provar os imensos ganhos graças às suas medidas como os alunos que beneficiavam do PAM sem sequer serem abrangidos por ele. Foi alguém que criou truques formais para subregistar o abandono escolar, mas quase todos preferem elogiar os números.

Para terminar, por agora, retomo o meu comentário no teu texto acerca das lutas em tempo de Crato, corrigindo apenas uma ou outra gralha que lá deixei:

Quanto às mobilizações de 2014 como a greve às avaliações, estarás a reduzir muito as coisas ao culpar o PSD por não estar nelas. Não é verdade e o fim dessa greve é responsabilidade, em grande medida, da Fenprof que preferiu, de novo, fugir da trincheira quando a coisa apertou e mandar dizer que era porque os professores não iam aguentar muito mais. Nunca saberemos, cortesia dos nossos “representantes”.

Nós não precisamos de luto, João Paulo. Ou já o fizemos há muito (e o de Crato fizemos logo em 2011), ou nunca conseguirá ser feito (os milhares de colegas que foram profissional e pessoalmente destruídos por ela). Não precisamos é que, alegando que é preciso deixar de olhar para trás, nos digam aquilo em que devemos pensar e o que devemos sentir em nome de um futuro que se parece demasiado com esse passado. Até porque, se nos esquecermos do passado, ainda acabaremos a revivê-lo como se fosse coisa nova.

Dali

The Same Old Scene

Um governo chega, acha que as coisas estão mal na Educação – acontece de forma clara e explícita há mais de 20 anos -, identifica uns quantos problemas ou objectivos- sempre virtuosos como os níveis de abandono e insucesso escolar e a necessidade de “melhorar as aprendizagens” ou”qualificar a população” – e nasce uma nova narrativa.

Por via de regra, a narrativa sobre o abandono e o insucesso recorre a um qualquer novo estudo da OCDE e tem quase sempre as mesmas assinaturas. Houve casos em que tivemos estudos tipo-OCDE, feitos por técnicos da OCDE pagos pelo serviço, mas que não o faziam exactamente no âmbito da organização. No governo anterior deslocou-se um pouco o âmbito da encomenda e apareceram coisas tipo-FMI. Surgem recomendações que o Governo acha serem imperativas para o sucesso e a melhoria das aprendizagens dos alunos. E ao abrigo disso legisla-se da forma mais disforme e desconexa entre si, como se quaisquer meios permitissem chegar a quaisquer fins.

E há sempre quem aplauda.

E surgem números a provas de forma indesmentível toda a narrativa. E consegue-se demonstrar que a+b=x e que a é função de g elevado ao cubo aos quadradinhos, tendo em conta a variação de x em Aquário.

Basta ler o posto do João Paulo que eu discuti abaixo e os testos de Guilherme Valente no Público de há uns dias e no Expresso de ontem para perceber que a cor da camisola determina a intensidade do empurrão do defesa central do Campomaiorense sobre o Jardel, atendendo à diagonal do Bruno Paixão.

E um tipo pensa assim, que merda a minha que estou sempre nesta terra de ninguém equivalente a ser do Vitória de Setúbal ou da Académica no campeonato nacional de iniciados em Educação para Totós, que não percebo nada disto e ainda acabo a ver uma série de gente a elogiar a bondade da reintrodução das ACND (com outra sigla ou mesmo em modo descaracterizado) em nome do enriquecimento do currículo e a virtuosidade da municipalização com base no projecto inter-municipal de articulação da rede escolar entre Frielas, Ranholas e Boliqueime de Travessa à Cinta.