Banha da Cobra

Andava a ver o meu mail na parte das promoções e dei com o anúncio de uma editora com muito material da minha área de estudos (as inúteis humanidades) a proclamar descontos até 40%. Lá fui eu a trote ver as ofertas e não é que só UM livro tem desconto de 40% e outro de 30% e as restantes dezenas têm os canónicos 10% ou (loucura!) 20%? Quando é que eu aprendo a não acreditar em manás caídos do céu?

Banhadacobra

O Conforto da Fé

Explicava eu hoje a conversão dos povos bárbaros ao Cristianismo e como a mensagem de salvação eterna para quem fosse bom cristão pareceria muito apelativa em tempos de mortalidade acelerada, em especial quando em troca de umas boas acções terrenas algumas penitências (bem duras para os padrões actuais) e esta ou aquela oferta para as obras divinas.

E ia pensando que me falta, enquanto agnóstico, esse conforto dado pela Fé de que os juntos serão recompensados no fim dos tempos e que as más acções levarão os seus autores até às chamas da danação infernal (agora que o Purgatório já foi eliminado sem consultarem o Le Goff). E que desta forma fico sempre com aquela ansiedade natural de ver (não) castigadas nesta terra todas as maldades a que assisto de perto e de longe, já que não acredito que depois de defuntos os sacanas deste mundo serão devidamente punidos no Além.

Falsos pregadores

Os Direitos que Deveríamos Ter

O direito a exercer a nossa profissão com dignidade, o que inclui não ser desrespeitado no espaço escolar ou nas salas de aulas (incluindo alunos, encarregados de educação e por vezes outros actores), ter condições para aposentações em tempo útil de não andar completamente nas últimas só porque alguns articulistas imbecis (e seus derivados nas redes sociais, que lhes multiplicam as diatribes) e decisores políticos sem qualquer sensibilidade para estas coisas acham que isso é um privilégio, um controlo efectivo e rigoroso das situações de baixa médica justificada para não termos de pagar (não receber) todos por causa de uns quantos desonestos, políticas que não ziguezagueiem a cada mandato ou semi-mandato, uma forma partilhada de tomar decisões nas escolas, uma carreira que o seja e não um deserto parado sem miragens ou sequer horizonte (reparem como deixei isto para o fim, o que custa mais dinheiro).

Se assim fosse, mesmo se algumas destas medidas implicam impacto orçamental, as escolas funcionariam melhor, muitas aulas melhorariam de qualidade e certamente os primeiro a ganhar com estas transformações que quase ousaria chamar paradigmáticas (só para me sentir muito conceptual e sofisticado) seriam os alunos. Os danos causados pela falta da percepção do que é efectivamente importante para melhorar o desempenho de todo o sistema educativo são muito maiores do que uns milhares de aposentações antecipadas sem cortes draconianos ou a mesquinhez de cortar no salário de quem está doente e tem o bom senso de não ir trabalhar nesse estado.

Não vê isto quem não quer ou quem até vê mas acha que a malta aguenta, aguenta e sempre se poupam uns tostões enquanto se destroem coisas muito mais importantes. E não há exames, aferições ou adêdês que substituam as medidas correctas, mesmo se desagradáveis para o bestunto de alguns pseudo-liberais de gabinete ou fanáticos de médias e variâncias em excel.

Infelizmente, somos governados de acordo com as leis fundamentais da estupidez humana, oportuna e magistralmente definidas por Carlo Cipolla.

HomeB

 

O Direito que não Temos

Aquele que, quando usado e abusado, marca a diferença entre o profissionalismo de quem se sente professor, apesar de todas as adversidades e o andar-por-aí-a-dar-umas-aulas. É o de tirar o gosto e o prazer dos alunos numa determinada matéria ou área de estudos, só porque se está de mal com a vida ou . há que admiti-lo – se é tão incompetente que nem se consegue gostar um pouquinho do que se ensina ou que gostem do que ensinamos.

Por muito mal que sejamos tratados pela tutela, pelo funcionamento da nossa escola ou pela vida em geral ou particular, ninguém tem o direito de descarregar isso nos alunos e fazê-los deixar de gostar, por exemplo, de História ou Português, que são as disciplinas que lecciono.

O pouco que eu me meti em lutas em defesa dos professores e a acusação de corporativo que muitas vezes sofro, não sendo raro dizerem-me que eu defendo a minha classe apesar de todos os seus defeitos, traça a sua fronteira nestes casos que, mais do que falta de vocação para a docência, têm falta de vocação para a vida e vivem sem disponibilidade para encontrar nos outros um interesse genuíno em aprender, sendo nosso dever, no mínimo, acarinhá-lo. As turmas podem ser más, os alunos podem ser, em muitos casos, mal-educados ou desinteressados, os encarregados de educação ausentes ou arrogantes, a política educativa uma porcaria, mas nenhum de nós deveria ter a falta de pudor de se estar nas tintas para os alunos que querem aprender e que, apesar de todos os problemas, se interessam, colocam questões, trabalham.

Confesso que a quem age de tal forma não considero meu colega de profissão e acho que não passa de uma cadáver ambulante a arrastar-se pelos corredores e a fazer perder tempo e gosto aos alunos que têm o azar de o ter apanhado no sorteio da factura do azar. Quem diz que a mobilidade não faria bem a quem assim encara as coisas?

Stupid2