A Solução Final

Comia eu distraidamente a queijada matinal (os pastéis de cereja são algo sazonais) quando observei as borras no fundo da minha bica (penso que deve ter sido tirada com restos da anterior) e vi a solução que acho mais adequada e quase definitiva para resolver o problema do abandono e insucesso escolar.

De acordo com a sua disposição, com a conjugação da orientação este/oeste dos dejectos fecais do bijou da madame que ia a passear pelo passeio, percebi que a escola pública deve ser organizada com três ramos educacionais fundamentais a partir do 5º ano (quiçá antes).

O ramo do internato – em que as famílias depositam a sua prole numa escola da sua escolha – ou área de residência para a esquerda pouco esperta – e vão à sua vida até terem saudades de fazer um afago ou trocar uns monossílabos com a sua progenitura. A escola assegurará ocupação a tempo inteiro, dormida em saco-cama no pavilhão escolar até às 7 da matina (no refeitório nas muitas escolas que a Parque Escolar não dotou de pavilhão da 3ª geração), comida a tempo e horas e roupa lavada através de uma qualquer parceria com aquelas novas empresas de máquinas de lavar na esquina. Ao fim de 12 anos de permanência, desde que não fiquem muitos fins de semana em casa da família, recebem diploma e consideram-se todas as competências plenamente desenvolvidas e adquiridos os conhecimentos indispensáveis para o internato universitário.

O ramo do externato – em que os alunos não precisam de se deslocar à escola, podendo ficar por casa ou vaguear por aí, no espaço real ou virtual, recebendo os materiais por mail ou em partilhas nas redes sociais e fazendo testes online, individualmente para os esquisitos ou em grupo para os que defendam a abordagem colaborativa da descoberta do conhecimento. Desde que tuítem ou instagramem uma vez por quinzena ou laikem dois posts do responsável pelo curso em cada mês, não será possível fazer qualquer registo de abandono escolar. Neste caso, ao fim de 12 anos, para além do diploma anterior, devem ainda receber um certificado de excelência em e-learning e um voucher com um estágio numa empresa à escolha no vale do silicone.

O ramo irregular – destinado à minoria de alunos com famílias que gostam de os ter perto de si e com empregos que o permitam, assim como aos que gostam de ter aulas, aprender de forma presencial com o professor e prestar-se ao enfado da realização de provas de avaliação interna ou – cruzes – externa. Só neste regime se contempla a possibilidade de não transição nos 12 anos de escolaridade obrigatória e exige-se registo criminal e de ausência de dívidas fiscais aos pais, porque isto de querer ter um ensino público tradicional – dirão os especialistas que arcaico – deve ter as suas exigências, porque luxos destes não são para todos.

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5 thoughts on “A Solução Final

  1. O teu problema é a falta dos pastéis de cereja: mas não te preocupes! Não tarda nada, aí estão elas. O tempo passa a correr, a Primavera e o dia da Poesia estão quase aí, e depois é um pulo até ás cerejas.
    Embora uma discussãozita possa minorar o efeito, claro!

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  2. Há uma solução bem mais eficiente, porquanto se atingem objectivos na plenitude e em horizonte temporal pré-definido e permite racionalizar, a jusante, muitos recursos humanos e materiais (na verdade não é nova, e ciclicamente aí está ela espraiada na comunicação social, de assalto ao ensinar e ao aprender… – matéria, esta, reservada a uma elite que terá, futuramente, a decisão nas suas mãos):
    legisle-se a proibição de marcar faltas e de chumbar!

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