Aromas de Esquerda

Eu sei que as generalizações são injustas. Sei que há sempre excepções, minorias maiores ou menores, regras e fronteiras que se movem e não dividem tudo em bom e mau. E nem sequer acho que do outro lado esteja a virtude. Só que não sou capaz de negar que quando a esquerda (não vou usar agora a maiúscula) chega ao poder em matéria de Educação -mesmo quando eu estive a puxar para que ela chegasse ao poder –  fico logo com aquele receio desgraçado de que a seguir venha aquela típica atitude de excessiva compreensão por tudo e mais alguma coisa, típica dos traumas com os autoritarismos e cheia de pré-conceitos acerca da necessidade de não discriminar mais os desfavorecidos. Traduzindo para português educacional das últimas décadas do século passado… não tornar a escola um mecanismo de reprodução das desigualdades (bourdieu em doses fortes, bernstein só para os eruditos, perrenoud para os francófilos, apple para os atlantistas, hargreaves para os apenas anglófilos). Não chumbar os alunos, porque a maioria é socio-economicamente mais vulnerável e o insucesso tende a reproduzir-se (claro! se nada se fizer de diferente, claro que quem não percebeu ou nem quis perceber, assim continuará), não ser muito severo com a disciplina porque temos de compreender o contexto dos alunos (aguardo uma previsível nomeação sebastiãnica para um novo observatório sobre a não-violência escolar e lições de moral aos professores socialmente insensíveis que se preocupam com a vitimização de alguns alunos)

É tudo muito bonito e bem intencionado. A sério que é.

Mas na maior parte dos casos é ineficaz, contraproducente e resvala, ao fim de um par de anos, para o que científica e sociologicamente podemos definir como bandalheira que até dói. E, principalmente, é uma atitude profundamente preconceituosa na pretensa luta contra os preconceitos e preguiçosa na forma de solucionar os problemas.

Já estou cansado de escrever que se existe uma relação evidente (mesmo que não determinista) entre o baixo estatuto socio-económico das famílias e o insucesso escolar, a solução mais estrutural e com efeitos mais duradouros é a elevação desse estatuto e não a sucessiva alteração das vias curriculares ou das regras da avaliação, por forma a reduzir administrativamente o insucesso ou o abandono. E se a indisciplina é causada por disfunções sociais e a desagregação dos valores tradicionais, se calhar a intervenção deve ser feita no combate a tais disfuncionalidades e na apresentação de modelos de comportamento e sucesso que sirvam como bons exemplos a seguir pelos que mais do que se rebelar geracional e saudavelmente contra as regras tradicionais apenas se preocupam em dar cabo disto tudo porque não me acontece nada.

Será que sou de direita em matéria de Educação porque acho que a qualidade não aumenta de forma artificial, deslocando os parâmetros da sua definição? Porque acho que é intervindo na sociedade que se criam condições para que os mais desfavorecidos deixem de o ser e ganhem melhores condições para o seu desempenho escolar (há uns tempos acho que isto seria esquerdismo, agora já não sei) e não obrigando a Escola a fazer o que fora dos seus portões ninguém mais faz? Porque não acredito que é retirando todos os obstáculos à progressão que se criam melhores alunos? Porque acredito que é equipando as escolas com meios humanos especializados (e não apenas computadores ou animadores) que se conseguem despistar, enquadrar e resolver de forma individualizada as diferentes problemáticas dos alunos, algumas das quais nem são específicas do foro educacional e residem muito mais nas condições do grupo humano envolvente, família tradicional ou outra (penso que isto já faz de mim esquerdista e despesista)?

Ou será que estou mais preocupado em resolver os problemas concretos dos alunos do que em provar teorias que li, nas quais me filiei e sem as quais me sinto perdido numa realidade caótica e que não se integra em modelos conceptuais que de tão perfeitos esbarram sempre na aspereza do quotidiano?

esquerda-direita-reaca-comu

8 thoughts on “Aromas de Esquerda

  1. «é intervindo na sociedade que se criam condições para que os mais desfavorecidos deixem de o ser e ganhem melhores condições para o seu desempenho escolar»
    Exatamente, digam o que disserem as teorias. E a sociedade desregulada que temos também contribui para isto tudo.
    P.S.: a imagem está o máximo! É-se pres@ por ter ou não ter cão/cadela!

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  2. Eu tenho, há muitos anos, colocado questões muito próximas destas. Tenho dito que a Escola não pode ter apenas como função a protecção e guarda das crianças. E, essa afirmação tem ainda mais importância para todos os meninos que “precisam” da escola como “elevador social”. Ou seja, a direita trata de educar os seus, recorrendo ao sistema privado e aí os “conhecimentos” são mesmo para saber. Ora, para que os meninos da Escola Pública lá possam chegar, têm que aprender. A Escola Pública tem que ser uma escola de conteúdo e tem que criar condições para que mais crianças aprendam. A outra questão é a da indisciplina, mas essa fica para outro comentário.
    JP

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    1. No problem… o ME encomenda uns estudos ao JSebastião e ficamos a saber (de novo) que não existe indisciplina, existem é professores insensíveis. E não há violência, há é uns mariquinhas que não sabem levar umas lambadas sem se armarem em vítimas.

      E a sociedade é que tem a culpa, mais o capitalismo. Aquele a que se cede em muito do essencial.

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  3. Convém ressalvar que nem toda a gente de esquerda alinha ou se revê nesse padrão. Mas as “linhas mais oficiais”, infelizmente, não conseguiram ainda ultrapassá-lo.

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  4. O último parágrafo vai ao cerne da questão em relação ao enviesamento paranóico-ideológico dos nossos esquerdistas pequeno-burgueses de serviço. Só uma escola pública que proporcione um ensino de qualidade e garanta um ambiente sócio-moral saudável poderá ter um papel decisivo na trajectória de vida dos alunos que, para nós, não são uma abstracção, mas seres concretos com nome e rosto. A concretização desta escola depende de políticas públicas que, a montante, minorem os factores de insucesso e de meios humanos que, no terreno, favoreçam a resolução dos problemas sinalizados

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  5. A mim o que me parece mais relevante na visão da escola como uma alavanca social é a questão dos modelos que os alunos seguem. Seja em casa, na escola ou na sociedade, aqueles olhos inquiridores veem e avaliam tudo. E selecionam.
    Pessoalmente procuro ser e parecer um modelo a seguir já que vim de um meio desfavorecido e progredi socialmente através da Escola. Não sei é se terei muito sucesso…pois vejo pessoas como a Milu e outros a rebaixar o que sou. Problem is: tenho mais qualidade de vida do que muitos que me acham uma baby-sitter e vivem pior que eu…

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  6. Paulo, quanto a esta matéria, já não somos de esquerda nem de direita, apenas sabemos pensar, coisa que a maralha que anda pelos sucessivos governos não sabe fazer!
    Tudo o disseste está 100% correto, só não entende quem é muito estúpido!

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