Concorrência a Tempo Inteiro?

Em defesa da chamada “Escola a Tempo inteiro” há argumentos medianos, mas que representam uma rendição de uma certa “esquerda” à inevitabilidade do capitalismo e à estratégia micro-reformista de adaptação às realidades de mercado, mas depois há aqueles que são mesmo muito mais, agarre-se-lhes por onde agarrarmos.

O mais ridículo para mim é o de, estendendo aquela prática que dá pelo nome de AEC até ao 9º ano, será possível às escolas públicas competir com as escolas privadas que garantem actividades desse tipo aos seus alunos e lhes permitem ficar mais tempo na escola, depois das aulas.

Deixemos de lado a questão da adopção da lógica concorrencial e de mercado por malta que se diz anti-capitalista.

Concentremo-nos no aspecto concreto das “actividades” quanto ao tipo de propostas aos meios para as implementar e horários previstos. Eu acredito que há quem tenha ao seu dispor escolas da (agora amada) Parque Escolar e não tenha a minha experiência como encarregado de educação (escola sem pavilhão desportivo) ou professor (pavilhão fora do recinto escolar com imensos problemas de manutenção admitidos, mas nunca resolvidos, pelos burrocratas de serviço no ME que por lá passaram). E nem é bom falar em salas com condições especializadas para certas actividades como aquelas que eu passo a indicar estarem disponíveis nos colégios com quem certos inteligentes querem colocar as escolas públicas a competir.

E depois há outra coisa curiosa… os colégios privados que promovem esse tipo de actividades, têm instalações apropriadas, cobram inscrição e mensalidade e não as desenvolvem em horários nocturnos (no Inverno) ou quase (no Verão), como podem consultar nesta tabela de um dos colégios de topo do Porto. Veja-se como funciona o prolongamento no Colégio São João de Brito (45 euros mensais para saírem depois das 16.30 até ao 1º ciclo, mais pagamentos à hora para ficarem na Biblioteca, valores que similares aos do colégio do Rosário, no Porto), veja-se o caso das extra-curriculares do Planalto, veja-se ainda o leque de actividades do colégio privado mais próximo da escola da minha petiza e digam-me lá se no novo modelo de concorrência do ensino público eu poderei dispor de equitação, natação, esgrima, canto lírico ou ballet clássico.

Ó pessoazinhas bem intencionadas, vamos lá ver um par de coisas: não há família fidalga ou arrivista com dinheirinho fresco que vá deixar de colocar os seus filhos num colégio com pedigree para a mandar para a escola pública da zona, só porque a miudagem pode ficar um par de horas com um monitor qualquer a fazer qualquer coisa considerada pouco diferenciada; assim como quem não tem meios para pagar propinas e actividades extra em escolas privadas vai deixar de andar nas escolas públicas se essas actividades não existirem. Até porque, existindo, os miúdos as encararão como mais do mesmo ou apenas uma brincadeira adicional. Mesmo se os promotores fizerem relatórios a destacar o imenso sucesso da iniciativa ou do projecto.

Vamos lá ver uma outra coisa… os alunos que querem ficar nas escolas públicas até às 18.30 ou mesmo um pouco mais já o podem fazer. Se isso é feito de um modo não enquadrado em “actividades” resulta em muito dos constrangimentos colocados em termos de horários aos professores, que já estão mais do que sobrecarregados, bem como o pessoal não docente. Colocar tais actividades a concurso, a tostão à hora, com obrigação de aceitar a proposta mais baixa é um convite à falcatrua (fancaria é um termo que também já usei e se adapta muito bem) na ocupação dos tempos livres dos alunos.

Querem mesmo concorrer com os privados e tornar as escolas públicas mais concorrenciais? Permitam a existência de transportes escolares mesmo escolares e não apenas a frequência dos transportes públicos, quantas vezes com trajectos afastados do espaço escolar o que tem implicações na segurança com que se deslocam e nos horários praticados. Equipem as escolas de forma permanente com espaços e meios humanos para que certas actividades não sejam descontinuadas a cada novo ano em que se renova todo o pessoal e se inicia tudo de novo ou de cada vez que um novo ministro aparece com ideias de racionalização dos procedimentos e encargos. Não brinquem aos pobrezinhos, tratem destes assuntos com seriedade. O problema é que sabemos, pelos antecedentes, que esta Escola a Tempo Inteiro é uma enorme treta que tem tanta capacidade de concorrência como o meu velho e fiel Fiat 127 dos anos 80 com os audis mais turbinados do que a malhoa no novo vídeo. E todos sabemos disso e apenas se agravam preconceitos.

Existisse mesmo coragem para concorrer e este tipo de propostas nunca aconteceriam, porque a Escola a tempo inteiro é a falência de qualquer modelo social desenvolvido.

Stupid2

6 thoughts on “Concorrência a Tempo Inteiro?

  1. Tais “socialistas” revelam, por estas intenções, que a sua superior aspiração consiste em adaptar funcionamento da Escola Pública ao precariado que este capitalismo em roda livre produz crescentemente.

    Em vez de pensarem a transformação social, a dignidade dos trabalhadores através da humanização das condições e da organização do trabalho e de aspirarem, por outro lado, à mobilidade e elevação social que a Escola pode proporcionar, contentam-se em estabelecer na Escola Pública um modelo de assistencialidade paternalista – sob formas concentracionárias, não nos venham com a tanga de “concorrer com a oferta privada”! – para permitir que os patrões possam explorar cada vez mais os pais e proletarizar as famílias.

    Acresce a isto, que, subjacente a esse projectos, está uma visão da infância e da juventude moldada pelo pensamento e aspirações do capitalismo fabril: o homem – e isso deve ser logo começado na infância -, deve ser educado para projectar o tempo da sua vida sob o regime da “ocupação útil”, de esquecer a sua subjectividade, a sua interioridade, a sua afectividade (que as “crianças inúteis” descobrem e realizam através do ócio e das brincadeiras livres), porque são “luxos” a que o “homo economicus” não se pode entregar.

    Com esta “esquerda”, o capitalismo pode, não apenas ficar descansado, como agradecido…

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  2. Uma análise sólida. Mas este é o país em que muito fazedor de opinião passa por iluminado e muita popular por ilustrado ao criticar a reposição das 35 horas na função pública porque no privado se trabalha 40 horas. A ideia de que os trabalhadores dos dois sectores devem trabalhar 35 horas – e de que a reposição do horário semanal da função pública é uma maneira de dar passos no sentido de levar a legislação a mudar também para o privado – aparece como o irracional. Quando a lógica e o sentido de uma sociedade decente é assim corrompido torna-se impossível obter um reconhecimento do que é elementar.

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  3. a minha cunhada discute comigo porque acha bem que as crianças possam ficar até mais tarde na escola. Ela trabalha no privado e sai tarde. Nada a fazer- o problema é a mentalidade dela e de milhões que acha que o problema é da escola e não do horário dela. Se as pessoas quisessem e se mobilizassem isto não seria assim. Mas as pessoas acham que as regras do patrão são intocáveis e é a Escola que se deve adaptar. O PS (o ou psd) fazem-lhes a vontade…este é um pais de escravos!!!
    Nem é preciso dizer que para mim é a mesma coisa: faço o meu horário e venho para casa…
    Há outra coisa que o pessoal não está a ver: agora fazemos as reuniões ás 18 horas. Fora do horário letivo. Se a Escola acabar às 19,30 quando é que vamos reunir? Á hora da janta…?

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  4. Não sendo favorável à ideia de escola a tempo inteiro, mas aceitando que a escola possa ter actividades facultativas para os alunos em horário pós-escolar, sou sensível a dois argumentos:

    Ao da necessidade de dar, a algumas famílias, uma resposta em termos de alargamento de horários que é procurada, e valorizada, no ensino privado. Eu já terei em tempos escrito sobre isso, mas não me recordo se o terei feito aqui. Mas não estava a pensar nos joõesdebrito e companhia, estava mais prosaicamente a pensar no que aqui para os meus lados há a pontapés: colégios com contratos de associação que têm andado a roubar alunos às escolas públicas e que usam esse e outros argumentos diferenciadores, como a questão dos transportes escolares próprios que é oportunamente referida no post.

    É desejável que os horários laborais mudem, e os pais tenham mais tempo para estar com os filhos no final do dia, mas isso não irá suceder no imediato. E há o trabalho por turnos, o número crescente de famílias monoparentais e outros factores que obrigam a encarar a realidade: um elevado número de pais não tem disponibilidade para ficar com os filhos pequenos logo que acabam as aulas. Não me repugna que se estudem as melhores formas de oferecer, no quadro da escola pública, mas sem transformar o trabalho dos professores em guarda de crianças, uma resposta às necessidades das famílias.

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