O Anti-Trump

É certo que agrega os descontentes anti-sistémicos mas e que haverá quem ande a votar nele só para voltar a bloquear a Hillary Clinton, mas este tipo, ao menos, não tem vergonha das suas ideias e se em Portugal seria um perigoso esquerdista, nos States é quase um extraterrestre. Mas que vai tendo os votos dos mais jovens. O anúncio da candidatura foi especialmente memorável porque ele parece só querer acabar com aquilo (ali pouco depois dos 9.00 já se vê que está farto) e ir-se embora tratar da vida, não da vidinha, dele.

E aqui explica bem o que o distingue do Trump em matéria de anti-sistema e porque atrai o voto dos jovens.

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Incomoda-me

A tão escassa conta em que a futura líder do nosso partido democrata-cristão com representação parlamentar tem as crianças dos recreios das nossas escolas.

Eu explico o contexto, apanhado de raspão um pouco antes das seis da tarde, na TSF, enquanto procurava algo musical para ouvir no regresso a casa depois de umas sessões de vida na Idade Média e relações feudo-vassálicas para jovens adolescentes agitados.

No Parlamento, na sua intervenção final sobre o OE, Assunção Cristas (em cuja doçura e graciosidade eu depositava tantas esperanças, depois de toda aquela assertividade do Grande Líder de partida) decidiu comparar o Orçamento para 2016 “àquela asneira feita no recreio da escola que nenhuma criança assume ter feito” [quase sic, a TSF tem uma versão ligeiramente diferente, mas em defesa de alguma imprecisão minha na citação direi que estava distraído com a forma criativa como os meus colegas automobilistas recriam as regras de circulação nas rotundas. Para melhor, consultem-se as actas ou a gravação da sessão].

Ora bem.

Eu sei que a Assunção não é nenhuma filha de Rousseau (por questões eminentemente cronológicas, embora não só) e por isso não acreditará, pela via do bom selvagem, na bondade natural do ser humano que só a sociedade corrói.

Mas sempre esperava mais da sua crença na honestidade de, pelo menos, algumas crianças do recreio da tal escola. A menos que ela estivesse a pensar no caso de uma escola pública em terra de esquerda, com pais e professores todos de esquerda e, por via disso, com a petizada já devidamente corroída pela sociedade e incapaz de um acto de coragem e responsabilidade em assumir as suas malfeitorias.

Apesar disso, dessa possibilidade explicativa, confesso que a coisa doeu no meu âmago, porque tenho ainda um pouco de criança em mim (quero acreditar que são os 25 quilos que carrego em excesso para a minha altura) e senti-me magoado pela tão pouca confiança que a tão católica Assunção demonstra ter nas crianças que, já dizia a cantora, são o nosso futuro. Até porque a tomar como boas as suas palavras, certamente certificadas pela Verdade inspirada do Alto (mais inspirada só a  Verdade de um césardasneves ou de um arroja quando fala da mãe e de pénis made by the hand of God himself), o futuro se afigurará muito negro. De esquerda, portanto. Como o Orçamento.

Cristas

Não Vou Contar a Ninguém

Há muitos anos que não ando em transportes públicos, o que me retira conhecimentos diversos como as tarifas praticadas e a percepção mais aprofundada da realidade antropo-sociológica, percepções e anseios de algum portugal mais profundo. Estou apenas a ser sarcástico q. b. A sério que faz falta fazer de paulinho das feiras ou de professor marcelo de vez em quando para ter um reality check regular.

Isto vem a propósito da minha rotação matinal para o segundo pequeno-almoço, aquele que faz a ligação fatal cafeína-açúcar que me matará – junto com a do sal-triglicerídeos (que ainda estão controlados, acreditem) – de acordo com muitos prognósticos em redes sociais, acaso eu não me converta ao chá de beringela e ao pó de caroço de abacate.

Dizia eu… que na minha rotação matinal em busca do pastel de nata perfeito (ou torta de Azeitão ou pastel de cereja), acabo por passar por diversos estabelecimentos onde há gente à espera dos transportes públicos, onde só existe o Correio da Manhã e o Record como leitura substituta d’Os Cadernos de Wittgenstein que deixei em casa por engano ao lado dos Aforismos do Schopenhauer), e onde as televisões estão sintonizadas, ali por volta das 8.30, na tele-adivinhação baseada em cartas que não mentem, lidas por uma senhora com idade para ainda usar laca às carradas porque é de antes de terem inventado a camada de ozono, que bate palmas para o computador saber que as pessoas podem ligar (do Luxemburgo e da Suiça sem necessidade de prefixo, o que dá jeito entre a diáspora portuguesa).

Hoje, entre outros dramas – avultou o da telespectadora nascida em 1959 que queria saber o estado e futuro da sua relação sentimental e a quem disseram que ela (a relação) é puramente carnal, o que não está mal se ela apenas quiser ter os pés quentes no Inverno [sic] – prendeu-me a atenção a pessoa que ligou para saber o que se iria passar na sessão sobre pagamento de pensão de alimentos e custódia do neto ou do filho de uma amiga ou parente (desculpem, quem perde 5 segundos da conversa devido ao som muito baixo do telefonema, perde sempre coisas importantes), ao que lhe foi garantido que tudo iria correr bem, que a criança ficaria com a mãe e o juiz decidiria em seu favor quanto aos pagamentos.

A pessoa que ligou agradeceu e despediu-se. Prometendo que não contaria nada a ninguém daquilo que passou em canal generalista, tendo ela dito o seu nome e data de nascimento.

E um tipo começa logo o dia com um sorriso nos lábios, embora com o inevitável sentimento de embaraço perante a humanidade em toda a sua crueza.

Chula Rabela - Douro - Mário Costa