Não Vou Contar a Ninguém

Há muitos anos que não ando em transportes públicos, o que me retira conhecimentos diversos como as tarifas praticadas e a percepção mais aprofundada da realidade antropo-sociológica, percepções e anseios de algum portugal mais profundo. Estou apenas a ser sarcástico q. b. A sério que faz falta fazer de paulinho das feiras ou de professor marcelo de vez em quando para ter um reality check regular.

Isto vem a propósito da minha rotação matinal para o segundo pequeno-almoço, aquele que faz a ligação fatal cafeína-açúcar que me matará – junto com a do sal-triglicerídeos (que ainda estão controlados, acreditem) – de acordo com muitos prognósticos em redes sociais, acaso eu não me converta ao chá de beringela e ao pó de caroço de abacate.

Dizia eu… que na minha rotação matinal em busca do pastel de nata perfeito (ou torta de Azeitão ou pastel de cereja), acabo por passar por diversos estabelecimentos onde há gente à espera dos transportes públicos, onde só existe o Correio da Manhã e o Record como leitura substituta d’Os Cadernos de Wittgenstein que deixei em casa por engano ao lado dos Aforismos do Schopenhauer), e onde as televisões estão sintonizadas, ali por volta das 8.30, na tele-adivinhação baseada em cartas que não mentem, lidas por uma senhora com idade para ainda usar laca às carradas porque é de antes de terem inventado a camada de ozono, que bate palmas para o computador saber que as pessoas podem ligar (do Luxemburgo e da Suiça sem necessidade de prefixo, o que dá jeito entre a diáspora portuguesa).

Hoje, entre outros dramas – avultou o da telespectadora nascida em 1959 que queria saber o estado e futuro da sua relação sentimental e a quem disseram que ela (a relação) é puramente carnal, o que não está mal se ela apenas quiser ter os pés quentes no Inverno [sic] – prendeu-me a atenção a pessoa que ligou para saber o que se iria passar na sessão sobre pagamento de pensão de alimentos e custódia do neto ou do filho de uma amiga ou parente (desculpem, quem perde 5 segundos da conversa devido ao som muito baixo do telefonema, perde sempre coisas importantes), ao que lhe foi garantido que tudo iria correr bem, que a criança ficaria com a mãe e o juiz decidiria em seu favor quanto aos pagamentos.

A pessoa que ligou agradeceu e despediu-se. Prometendo que não contaria nada a ninguém daquilo que passou em canal generalista, tendo ela dito o seu nome e data de nascimento.

E um tipo começa logo o dia com um sorriso nos lábios, embora com o inevitável sentimento de embaraço perante a humanidade em toda a sua crueza.

Chula Rabela - Douro - Mário Costa

4 thoughts on “Não Vou Contar a Ninguém

  1. O meu ex-sogro punha-se em bicos de pés” Eu na 4ªclasse resolvia problemas com 3 ou quatro contas!! Aposto que tu não és capaz…!” eu, que resolvi integrais na faculdade sorria.
    A minha mãe era mais humilde” Não percebi nada das noticias, hoje” eu, com paciência lá lhe explicava os factos da coisa pública. Ela rematava “Pois, mas o CDS é ´único que é cristão…”
    Aos alunos explico com paciencia o que é uma rocha. Viro as costas e comentam “isto das pedras é uma seca!”

    Sinto-me um grão de areia num imenso deserto…! Mas não desanimo porque ás vezes os miúdos surpreendem-me e trazem umas pedras para eu identificar todos animados! 🙂

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