8 de Março de 2008 e Depois – 1

Da entrevista de hoje ao Expresso a propósito do livro sobre a manifestação de 8 de Março de 2008

P: O que mais recorda desse dia?
R: Lembro-me de uma altura em que estava a meio da Avenida da Liberdade, olhei à minha volta e vi-me completamente rodeado de gente. Para quem, como eu, nunca tinha estado numa manifestação, era uma sensação bastante estranha.

P: Que marcas deixou nas escolas?
R: Vendo com esta distância, acho que deixou marcas de desânimo e alguma tristeza. Houve demasiada esperança para tudo o que não foi conseguido. Nenhuma reivindicação essencial foi satisfeita.

P: Mas a distinção entre professores e professores titulares não foi para a frente e o próprio modelo de avaliação foi muito simplificado.
R: Aquela avaliação não era possível de pôr em prática porque acarretava um tal peso burocrático e tanto tempo para ser concretizada que quase paralisaria o funcionamento das escolas. Não tínhamos e continuamos a não ter gente suficiente nas escolas com o reconhecimento pelos pares e a formação específica para proceder a uma avaliação rigorosa. Ainda hoje, não passa de uma ficção, em que as pessoas que avaliam têm a mesma qualificação daquelas que estão a ser avaliadas, que não permite detetar as más práticas docentes.

P: Não é possível distinguir os bons dos maus professores?
R: Com o modelo em vigor, os professores, e mesmo assim não os de todos os escalões, só têm duas aulas assistidas. Ora, um professor dá perto de 700 aulas por ano. Sendo as aulas assistidas marcadas previamente, mesmo um mau professor consegue dar duas aulas razoáveis. Poderá fazer imensamente mal em todas as outras, que não passará pelo crivo desta avaliação. Já na altura o modelo tinha esse erro. Uma avaliação eficaz baseia-se num acompanhamento de proximidade e de continuidade, que não existe.

P: Mas se os professores não reconhecem aos seus pares a qualificação e formação necessárias para o fazer, quem assumiria esse papel?
R: Tem de ser construído a médio prazo. Não é possível pôr um modelo de avaliação de qualidade a funcionar em dois ou três anos. Tem de existir um período de formação e de experimentação nas escolas. Todos nós sabemos quem são os maus profissionais. O que tem de haver é autoridade de alguém, reconhecida pelo grupo, e coragem dessa pessoa em confrontar quem sabemos que tem práticas menos corretas para dizer “ou alteras a tua prática, ou há consequências”. E tem de haver mecanismos de controlo sobre a própria relação entre avaliador e avaliado. Nas escolas, as pessoas prestam-se muito às pequenas vinganças e às pequenas amizades que depois se podem refletir na nota.

P: Isso pode acontecer em qualquer empresa e em qualquer profissão.
R: Entre os docentes há uma cultura muito enraizada de igualdade. Consideramos que temos todos a mesma competência para desempenhar a profissão, daí que haja dificuldade em aceitar que a avaliação seja feita pelos pares. Tem de haver um grupo de professores avaliadores, que devem continuar a dar aulas, mas que devem ter um horário para se formarem e testar o modelo. É um investimento a médio, longo prazo que nenhum Governo, com um calendário de três ou quatro anos, aceita. O sistema está contaminado pelo facilitismo e pelo amiguismo. E há outra questão: com a carreira congelada em oito dos últimos dez anos, mesmo uma má avaliação não tem consequências. Por isso, o que sentimos é que é uma inutilidade. Estimula-se a apatia e fomenta-se o desânimo.

(continua…)

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9 thoughts on “8 de Março de 2008 e Depois – 1

  1. E quando a add privilegia, em muitos contextos escolares, o “show-off”, o “fogo de vista”, “o lambe-botismo” e quase ignora a prática lectiva?

  2. Por tudo o que tenho lido do Paulo e pela ideia que tenho de si, nunca me passou pela cabeça que fosse essa a 1ª manifestação a que foi. Ainda bem.

  3. “Houve demasiada esperança para tudo o que não foi conseguido”.
    Caro Paulo Guinote. Tenho respeito pelo seu blog e pelo seu trabalho. Mas, todas estas manifestações, entre 2007 e 2011, foram manipuladas, na sombra, pela Páfia de Passos Coelho e Miguel Relvas, que na sua ânsia de poder, não olharam a meios para chegar aos seus tachos em 2011 (usando, por exemplo, a CGTP, o PCP e o Bloco). Obviamente, é muito ingénuo achar que o desgoverno laranja poderia alguma vez melhorar a vida dos professores, das escolas, e da educação em geral.
    As únicas manifestações que dão algum resultado (ainda que possa ser pequeno), em qualquer parte do mundo, são aquelas manifestações contra a direita conservadora e reaccionária.

    1. Tenho a sensação que a sua cronologia está ligeiramente baralhada. PPC chegou à liderança do PSD em 26 de Março de 2010, muito depois dessas manifestações de 2008-09.
      Penso mesmo que o seu comentário não passa de uma produção em piloto automático.

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