Neutro Indefinido?

Não.

O Luís Braga exemplifica um bom e um mau exemplo da municipalização da Educação para dizer que ela não é boa ou má em si, tudo dependendo da qualidade da Democracia.

Exacto, concordo com o princípio enunciado. Mas anoto que o bom exemplo dado é de fora e o mau é de dentro.

O meu problema com a municipalização não é o princípio em sim, mas a concretização que dele se faz, em especial quando se quer impor esse tipo de solução à força no maior número de casos que venha a ser possível, com base concelhia ou inter-municipal.

Conhecemos o nosso contexto, o caciquismo local que impera e as práticas que já existem, mesmo sem criação de dependências directas maiores dos que as que já existem em relação ao primeiro ciclo. Conheço óptimas práticas autárquicas em matéria de Educação sem qualquer transferência adicional de competências. Não é necessária uma deslocação maior de poder das escolas para as autarquias (embora se diga que as competências são transferidas do ME para as câmaras isso não corresponde, na sua maior parte, à verdade) para que existam colaborações excelentes e uma articulação de boas práticas, mesmo no plano inter-municipal.

O que agora está em causa é a captação de verbas europeias para projectos que devem ter uma base local ou regional. O resto é conversa fiada. Mas há quem já esteja disposto a alinhar, até porque tem um pé no poder local e o outro nas escolas. Ou espera ter. No papel de aconselhamento e consultoria nas câmaras. Aquele papel que é desnecessário se for nas escolas, porque já se sabe o que fazer e não se precisa de penduricalhos, mesmo que seja com imenso prestígio académico ou apenas camaradagem partidária.

Já vejo nesta matéria algum mais ou menos discreto vira-casaquismo (não é o caso do L. Braga, entenda-se) que vai ser justificado com o nem vão querer contratar professores (pois, serão apenas os técnicos, formadores e animadores), algo que até já tinha desaparecido dos casos já aprovados. A atitude de alguns representantes vai ser uma espécie de déja vu em relação a outras matérias que foram objecto de luta até serem de domesticação consentida.

Vão dizer que as experiências-piloto foram maravilhosas com base na auto-avaliação (como fizeram uns com as NO e outros com o vocacional, por exemplo) e que devemos dar uma hipótese à proximidade.

A sério? Então querem mais proximidade do que escolas de dimensões humanas a tomar as suas próprias decisões? Ou é demasiado radical?

Não acham curioso que muitos daqueles que abominam a gestão democrática das escolas sejam dos primeiros a invocar o aspecto pretensamente democrático de colocar vereadores a mandar nas escolas?

Uma boa acção, no sentido mais ético do termo, quando praticada apenas a pensar no dinheirinho que ela pode render, passa a ser apenas uma acção. Que até se pode tornar má.

Camaleao_Segredo_Cores

 

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3 thoughts on “Neutro Indefinido?

  1. Subscrevo na íntegra.
    A municipalização da educação, tal como aparece desenhada, na situação política concreta que temos – que é aquela com que podemos contar -, afigura-se um erro tremendo, uma vez que irá alimentar sobretudo os caciquismos e politiquices e interesses mesquinhos blocais/regionais.

  2. “O que agora está em causa é a captação de verbas europeias para projectos que devem ter uma base local ou regional. O resto é conversa fiada.”

    O essencial está aqui, dito com inexcedível clareza.
    E sendo esta a linha política mais estruturante do nosso modelo de (sub)desenvolvimento, ficam explicados os seus fracos resultados .
    Faz-se, não o que deve fazer-se ou precisa de ser feito, mas aquilo que é susceptível de captar financiamentos comunitários, de preferência a fundo perdido.
    Primeiro vê-se “o que é que está a dar” nos programas comunitários disponíveis e depois inventam-se as políticas que melhor permitam sacar o guito…

  3. “A sério? Então querem mais proximidade do que escolas de dimensões humanas a tomar as suas próprias decisões? Ou é demasiado radical?”

    De acordo.

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