As Tribos Parolas

Eu acho bem que se defendam os amigos. Assim como acho bem que, nem que seja em privado, se lhes comuniquem as falhas. O que acho menos bem é que se usem argumentos da treta para fazer aquela defesa, em especial quando em público.

O João Miguel Tavares decidiu defender, hoje, o Henrique Raposo naquela polémica parva sobre o seu livro de exorcismo sobre o Alentejo, acabando por prolongá-la para além dos cinco dias canónicos que afirma durarem estas polémicas. O pior é que, num assomo típico da nova intelligenstia mediática, decidiu fazer a defesa de HR em cima de preconceitos perfeitamente simétricos dos que critica.

Resumindo: JMT acha que HR está a ser vítima de uma turba histérica das redes sociais mas também de uns tipos “mais perniciosos” que acumulam diversas maleitas de carácter, a saber: 1) não gostarem de HR por ser de direita e escrever no Expresso; 2) serem comunistas ou cripto-comunistas que não gostam de publicações do “tipo do Pingo Doce”; 3) não perceberem um estilo de escrita de tipo anglo-saxónico (!) que mistura géneros e tem entre nós, segundo JMT, o expoente máximo em Maria Filomena Mónica que terá “numerosas obras” desse tipo; acrescenta, de forma algo enigmática (ou não) que “contêm o risco do erro, mas não o bocejo do papagueio”.

Ora… eu pensei não regressar a este assunto, li a crónica, pensei, pensei (coisa que faço de quando em vez e me faz ficar com grande dor de cabeça), e decidi comentar até porque: 1) me estou nas tintas para HR ser de direita e ainda há duas semanas tive direito a uma página de Expresso em boa parte por causa de um livro; 2) não sou comunista e até publiquei um livro numa colecção do “tipo do Pingo Doce” e ainda pertencer a um dos conselhos da FFMS; 3) conheço este tipo de escrita que não é apenas de tradição anglo-saxónica e que, por acaso, não surge em “numerosas” obras de MFM.

E o meu comentário é… ó João Miguel, deixa-te de tretas (ou de merdas para ser menos delicodoce) sobre esquerdas e direitas, pêcêpês e estilos anglo-saxónicos e gasta o papel do Público a assumir que foi apenas mais um pretexto para meter política onde ela não faz falta, exibir preconceitos e desculpar “erros” de um amigo. Pode ser assim e nem desenvolvamos o tema dos erros e dos pés pelas mãos?

E já agora, que tal exemplificar uma ou duas das “numerosas” obras de MFM que se enquadram neste género (e não sejam meras memórias) e quantas obras anglo-saxónicas leste deste tipo que não tenham equivalente, por exemplo, do lado francófono ou mesmo latino. Só para início de conversa, esse estilo tem muito de europeu continental, sendo eu capaz de ter a ousadia de recomendar a leitura de autores como Claudio Magris (Danúbio), Italo Calvino (O caminho de San Giovanni), Orhan Pamuk (Instambul) ou W. G Sebald (Austerliz e muito mais), para não me estender mais em bacoca erudição. O problema é quando – e eu também já o fiz, por entusiasmo, distracção, mas principalmente por ignorância – se confunde a nossa pequenez com um grande conhecimento das coisas e o tomamos – claro! – pelo único lado justo de uma questão.

snob2

6 thoughts on “As Tribos Parolas

  1. Houve uma altura que dediquei atenção à tribo “erudita” da blogosfera até porque andava interessada em escrever literatura. Escrevi uma série de memórias curtas, reflexões e coisas assim. Não me ligaram nenhuma, achei que o defeito era meu, por não exibir a cultura que eles achavam importante. Deixei-me disso e fui adotada por um escrevinhador de contos tão humilde quanto eu. Ah! o que nos divertimos…! Depois é que percebi que a “elite” não valia nada….por aí além! Eram apenas meninos bem da capital…!

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