Sinto-me Muito Básico

Quando leio colegas “do secundário” afirmar que, como isto das coisas “do básico” não lhes afecta o quotidiano, não há problema. Que isto é uma gota no oceano dos problemas do mundo e arredores. Que a escola é “muito mais”, só não se percebendo o quê, se é a escola haigue-téque se é o liceu do Aristóteles de manto e efebos à beira e as senhoras reclinadas sem se mexerem para a semente melhor se depositar. Mas também me sinto bué “básico” quando leio o Farpas acusar-me, em comentários por aqui ou pelo feice, de “dramatizar” a questão da avaliação, quando o que eu faço é tentar defender a estabilidade da vida das escolas, de alunos e professores, sem evocar, invocar ou desfocar a “tradição judaico-cristã” da “escola fabril” com um vocabulário que, como já comentei algures, povoa muitos dos alfarrábios que eu, com desvelo, adquiro e leio para os meus estudos de História da Educação e das teorias de outrora, sempre em busca da escola moderna que passou. Mas a verdade é que fico sempre com aquela sensação de ser muito “básico”, tanto de ensino como de compreensão da pós-modernidade dos anos 7o do século que enterrámos há mais de três lustros. E até já li que ando há tanto tempo “neste modelo de escola” que não consigo “libertar-me” dele. O que tem a sua graça, a sua imensa graça. A verdade, verdadinha, é que a minha análise é “básica” porque não é matizada pelas afinidades cromáticas que tornam a malta “não-básica” uma espécie de irmandade daltónica. E porque não consigo dizer que um flato pela senhora do Bocage passa a cheirar a rosas só porque não é na minha sala. É um défice teorético que me acomete, sempre que a hermenêutica me falha o paradigma. Mas, pelo menos, já descobri alguns defensores do “regime transitório” do “modelo integrado” que pode aumentar o número de provas este ano de três para seis e a sua argumentação contra a avaliação, mesmo que ela duplique. Phosga-se. Nem percebo o valor da entrega da decisão “às escolas” da realização das provas deste ano. Sou mesmo poucochinho. Não entendo nada. Cruzes.

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E as Famílias, Senhores?

Não s(er)ão ouvidas (as numerosas, as quase numerosas, as monoparentais, as alternativas) sobre matéria tão nuclear na vida escolar dos seus educandos? Parece-me mal numa decisão concertada entre um ministro humanista e um presidente tão defensor dos valores familiares.

Acho eu, que até tenho uma petiza que está no 7º ano, um dos poucos que dá tiro na água em matéria de provas possíveis.

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Isto é Mau Demais

Aguardo com indisfarçável curiosidade os defensores desta geringonça avaliativa cozinhada entre Belém e São Bento. A solução transitória que temos em mãos para a avaliação externa do Ensino Básico para este ano, é bom que se note, é reanunciada a 17 de Março para começar a ser implementada, para quem quiser manter os nocivos exames da 4ª classe, no dia 23 de Maio, sendo que todas as decisões passam pelo diretor, ouvido o Conselho Pedagógico a título meramente consultivo (quero mesmo ver os defensores da gestão democrática das escolas a defender isto), podendo chegar o número de provas (finais não nacionais e intermédias de aferição) à simpática meia dúzia (2º, 4º, 5º, 6º, 8º e 9º anos). Ou serem zero. Tudo dependendo, em última instância, dos humores, amores ou desamores de uma pessoa, que depois tem o poder de nomear quem vai desenrascar a situação que o ME criou a todos nós. Já do lado da Direita, quero ver se a nova líder do CDS não se terá precipitado ao criticar tanto uma decisão que terá sido promovida pelo novo PR, ele mesmo que terá sido um dos principais motivos para ela própria passar a líder em vez do Grande Líder que sabia ter os dias contados com o presidente Marcelo.

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Alçada II

Bem que eu fui escrevendo cedo que este ministro me fazia lembrar a Isabel Alçada, uma espécie de rosto sorridente para um ME sem voz própria. Vai-se a ver e esta solução simplex para a avaliação do Ensino Básico é o primeiro grande exemplo da cooperação Belém/São Bento, com intermediação da ex-ministra acima referida. Para os críticos apressados desta solução transitória, à Direita, como a Assunção Cristas e alguns laranjinhas de segunda linha, digam-me lá… não teria sido muito melhor ter um Sampaio da Nóvoa na Presidência?

As novas provas de aferição ainda não vão ser obrigatórias para os alunos que neste ano lectivo frequentam o 2.º, 5.º e 8.º ano. A decisão foi anunciada pelo ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, no fim do Conselho de Ministros desta quinta-feira.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, fez parte da solução anunciada pelo Governo. A Renascença sabe que se trata de uma solução de compromisso, negociada entre o ministro da Educação e a conselheira do Presidente da República para a área da Educação, Isabel Alçada.

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Provas a Gosto

Se era para ser assim não podiam ter anunciado logo? Porquê esperar meses para isto? Ou isto é assim porque estava a ser complicado descalçar a botifarra asneirenta que tinha sido metida à pressa e a reboque das circunstâncias?

O giro é que a autonomia das escolas só serve verdadeiramente nestas alturas quando se trata de desviar responsabilidades. Só fazem se quiserem, mas se não fizerem aguentem-se sozinhas. Já agora… o calendário, afinal, é na última semana de aulas e não depois de elas acabarem, como inicialmente anunciado.

Isto não parece ser feito para levar a sério. Por ninguém. Mas vamos quase todos fingir que sim.

Anexo: NOTA INFORMATIVA 1-2016

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Dias Coloridos

Estes que vivemos, em que de cada monitor brotam tabelas policromáticas com maior ou menor harmonia estética, maiores ou menores deslizes nas fórmulas, maiores ou menores objectividades na técnica rigorosa da avaliação. pelo menos, quebra o cinzentismo da observação do recibo mensal.

Tabela