Novo Dicionário Educacional – Letra P (Em Actualização Permanente)

Paradigma – palavra bastante usada por pessoas que falam sobre Educação e querem demonstrar que leram coisas e são inteligentes, mesmo se não sabem distinguir o kuhn do fundo das calças. Se usada em três ocasiões diferentes dá estatuto de especialista (tem verbete na letra E) a quem o fizer. Pode ser uma por escrito em artigo curto de opinião, mesmo que seja no jornal local pago por anunciantes ou em boletim municipal, mais duas em intervenções públicas. Em debate televisivo vale dois pontos. É praticamente condição indispensável, e mesmo suficiente se combinada com o estatuto de representante (espero ter coragem para me abalançar a tal verbete) de algo, para se chegar a conselheiro nacional da educação.

Diario

Boas Intenções

Não me desentendam. Não é por criticar as opções desta equipa ministerial em matéria de avaliação dos alunos, desculpem, aferição dos alunos que considero que fazem as coisas com intenção de piorar a situação vivida nas escolas.

Só que me faz lembrar aquelas ocasiões em que eu, também repleto das mais bondosas intenções, tento fazer qualquer arranjo na instalação eléctrica cá de casa que implique mais do que mudar uma lâmpada.

Raramente resolvo a situação, na maior parte dos casos ainda pioro o problema (porque parto ou perco uma peça qualquer) e, em 100% dos casos, acabo com mais um par de choques eléctricos no meu currículo. O que, embora digam que estimula o coração e mesmo o neurónio preguiçoso, é coisa que incomoda um pouco.

electric

Missas nas Escolas

Não estou bem a ver o motivo da polémica… eu farto-me de dar sermões nas aulas e há alguns que são verdadeiras profissões de fé na sua utilidade.

Claro que o actual senhor Confap, nem de propósito Ascensão, conselheiro nacional da Educação, está de acordo, nem seria de esperar outra coisa. Aguardo posição semelhante em relação às orações diárias exigíveis a todo o bom muçulmano e, já agora, quanto à necessidade de comprar uns pauzinhos de incenso.

Sim ao ecumenismo. Sigamos o exemplo do Presidente Marcelo.

Novo Dicionário Educacional – Letra A (Em Actualização)

Aferição – a avaliação externa boa no Ensino Básico por oposição à má, conhecida oficialmente como “provas finais” e politicamente como “exames” (ver verbete específico – letra E). Ao que parece, a aferição permite recolher e tratar informação para “devolver às escolas e aos alunos”, algo que a avaliação má não permite. Claro que a devolução não seria necessária se fossem os próprios professores a classificar as provas das suas escolas, mas isso já entra no domínio ambíguo da confiança (ver verbete específico – Letra C).

Alunos – pretexto para todas as políticas que as equipas ministeriais pretendem passar junto da opinião pública como extremamente virtuosas. Também costumam ser usados como o centro de um paradigma (ver verbete específico – letra P) do processo de ensino e aprendizagem (mais um verbete a ver na letra P) que lança os professores (e vão três verbetes a ler na letra P) para a periferia do paradigma e do processo, como seres que apenas existem em função dos alunos. Os alunos também surgem muitas vezes associados às famílias (ver verbete na letra F) que têm, em regra, uns representantes (conceito que mais do que um verbete, implicaria toda uma tese de pós-doc) úteis conforme os contextos.

Autonomia – conceito muito popular no discurso político que se traduz, em termos práticos, na descarga de responsabilidades da tutela para “as escolas” em momentos de embaraço. Dura poucos meses.

Diario

Pelo Último Económico em Papel

PG Econ18Mar16Provas a Contra-Gosto

Recordemos a cronologia: a 27 de Novembro de 2015 uma maioria parlamentar coincidente com a que apoia(va) o governo deliberou o fim das provas finais do 4º ano, deixando a nova equipa do Ministério da Educação com um vazio por preencher já perto do final do 1º período; a 8 de Janeiro de 2016, o novo ministro anunciou um ambicioso “modelo integrado de avaliação das aprendizagens no Ensino Básico” em que também eram eliminadas as provas finais de 6º ano, mantendo as do 9º ano, e se introduziam provas de aferição no 2º, 5º e 8º anos a realizar na última semana de aulas (2º e 5º anos) ou “.após a última semana de aulas, em datas compatíveis com o restante calendário de avaliação externa” (8ºano). O anúncio, em que se defendia o carácter “nocivo” das provas eliminadas, foi feito a arrancar o 2º período, levantando questões de oportunidade e operacionalização, tendo existido quem achasse que era melhor não iniciar qualquer novo modelo com o ano lectivo quase a meio. Por fim, a terminar o 2º período, surge uma nota informativa a anunciar que, afinal, as provas de aferição são facultativas no presente ano, num regime transitório inicialmente inexistente, acrescentando-se a novidade de que “podem ainda as escolas, que pretendam a obtenção de dados de fim de ciclo, decidir a realização de provas de Português e de Matemática dos 4.º e 6.º anos de escolaridade”. As escolas que não pretendam realizar as provas devem fazê-lo “por decisão especialmente fundamentada, devendo ponderar as potencialidades do processo de aferição para a melhoria das aprendizagens e o sucesso escolar dos alunos”, o que em português corrente que dizer “se não fizerem, ficam por vossa conta”. Por fim, o calendário prevê as provas de todos os anos para a última semana de aulas, contrariando o que antes se anunciara.

Isto parece-me uma enorme confusão e a demonstração de um extremo amadorismo em três passos: o primeiro, deixar-se ultrapassar pelas circunstâncias; o segundo, procurar iludir a opinião pública com o anúncio de um “modelo integrado” que desde o início pareceu ambicioso para o tempo disponível; o terceiro, um recuo mal disfarçado, empurrando para terceiros a responsabilidade pela eventual não realização das provas.

Em suma, reentrámos na via dos simplex.

Ser Mestiço é Tramado

Não se consegue agradar a nenhuns dos defensores da pureza do sangue. Em matéria de Educação, é equivalente a ser-se bombardeado dos dois lados de uma barricada desnecessariamente alta e cercada de pessoal muitas vezes intolerante de tão pretensamente tolerante.

Concretizando.

Há quem que, por não considerar maléficas as provas finais de ciclo do ensino Básico, ache que eu sou um fanático pela avaliação, interna ou externa, um obcecado por escalas de classificação e pelo rigor de “um modelo de escola” que se diz ultrapassado. Sou uma espécie de diplodoco pedagógico, atávico, conservador, martirizador de crianças e jovens com fichas, testes e exames, um formatador das mentes. Ainda me lembro daquele político-opinador-bloquista-que-já-não-é me considerar uma espécie de exemplo do que não deve ser um professor.

Já há outras pessoas que, mais de proximidade, me acham o contrário, criticando-me (não vale a pena fingir que não ouço, não sei ou que sou ainda mais parvo do que pareço) porque nas minhas aulas se brinca muito, há muita risota, jogos, alguma teatralidade e, em especial, que não se aprende nada assim. Esta é a crítica mais habitual quando se trata do meu grupo de alunos com necessidades educativas especiais a quem eu assumo que gosto, pelo meio de umas competências subrepticiamente desenvolvidas, de facultar umas ou duas horas semanais de descontracção e felicidade. Há mesmo quem use capuzes, o que é a demonstração de todo o meu relativismo moral progressista.

Mas a vida é assim… estar-se em terra de ninguém num conflito de fanáticos tem os seus riscos. Embora dê o seu gozo.

São tempos de incerteza e desorientação, as pessoas precisam de agarrar-se a fés e credos tidos por seguros e inabaláveis.

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