Novo Dicionário Educacional – Letra I

Inclusão – muito poderia ser escrito sobre o conceito, as suas origens e difusão, antes e depois da famosa Declaração de Salamanca. Muitas reminiscências a reencontrar desde os tempos em que “o 319” era algo mais conhecido entre os professores do que o “28” em Lisboa. Mas isso seria falar a sério sobre o assunto e no século XXI não é disso que se trata. O que está em causa é a operacionalização low cost da inclusão de alunos com necessidades educativas especiais (agora só de tipo permanente, outra coisa que me irita sobremaneira) no sistema de ensino dito “regular”. Em termos práticos, mesmo que com algumas boas intenções, a inclusão passou, num primeiro momento, por colocar (quase) todas as crianças e jovens nas escolas “regulares” em nome da sua integração num quotidiano mais amplo e de uma socialização mais completa. Um dos efeitos laterais era a redução dos encargos com as “escolas especiais”, mas a coisa passou despercebida a quem apenas lê títulos. Num segundo momento, a inclusão passou pela redução do número de alunos que poderiam ser considerados com nee (o famigerado decreto-lei 3 de 2008) e, por isso mesmo, ser integrados em turmas “especiais”, com direito a redução do núemro de elementos. Num terceiro momento, a actualidade mais actual, a inclusão passa por considerar que as turmas reduzidas especiais só devem existir se os alunos com nee, afinal não têm assim tantas nee e podem estar 60% a acompanhar os conteúdos dos restantes colegas. Ou seja, a inclusão passa por integrá-los nas turmas de 28 e 30 e reduzir o número de turmas com menos alunos, nomeadamente com 20. Se formos dizer que isto é uma medida destinada apenas a poupar o suficiente para, no próximo ano, reduzir o número máximo de alunos por turma e mesmo assim não aumentar o número de turmas, irão dizer-nos que é mentira e que estamos a ser “conservadores” e a não entender o aprofundamento das práticas inclusivas.

Por fim… é especialmente paradoxal que gente que se dobra e desdobra a reclamar vias “alternativas” para combater o insucesso e abandono escolar, criando soluções que tendem para guetos socio-educacionais (caso do vocacional e certos “percursos profissionalizantes”, mas também de programas destinados a garantir o “sucesso escolar”), sejam depois os mesmos que venham clamar por “mais inclusão” daqueles alunos que mais precisam de um tipo de percurso individualizado. Só que como essas soluções têm um alto custo unitário, devemos usar truques semânticos e bloqueios administrativos para os reduzir e embaratecer.

Diario

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