Retocando a Arte

Que me desculpem, isto não me parece nada saudável, mesmo se tem a chancela do politicamente correcto e daquela nova forma de encarar a linguagem como uma casca sem conteúdo, enunciações sem substância, rótulos aplicados a gosto.

Sim, enruguei-me quando o Lucky Luke foi retocado de modo a tirar o cigarro do canto da boca para colocar uma ervinha (nunca reparei se poderá ser confundida com alguma erva marota); mas era por causa das crianças não terem maus exemplos fumigantes e lá passou. Comecei a preocupar-me quando se começou a discutir em tribunal a possibilidade do Tintin no Congo ser censurado em bibliotecas por causa do seu conteúdo alegadamente estereotipado e racista (embora seja quase tabu falar-se nas simpatias pró-nazis de Georges Remy). Agora (há uns meses) começou a mudar-se o nome de quadros da História da Arte por serem considerados ofensivos, o que é uma enormidade enormíssima, pois é um bestial (de besta) disparate quererem reescrever a História e agora retocar a Arte de acordo com as sensibilidades e pruridos de alguns idiotas actuais com poder. É curioso como se critica a forma como certos ditadores quiseram reescrever a História, retocar fotos, encenar recriações históricas (ou mesmo o Berlusconi andar a mexer com a genitalia das estátuas romanas e a escondê-las como Papa a certas obras) e agora considerar-se que se devem alterar os nomes de obras de arte porque naquele tempo era assim que as coisas se diziam e escreviam e agora parece mal. A polícia do pensamento, do bom gosto e das boas maneiras é tão totalitária quanto qualquer outra. Já agora… que tal retocarem as próprias pinturas, quando tiverem algum detalhe ofensivo, nomeadamente aqueles efebos ou anjinhos gorduchinhos que pipilam por algumas pinturas? Ou emagrecerem as meninas e senhoras do Rubens para não deprimirem as jovens magrinhas? Ou engordarem as do Modigliani para não darem ideias a quem tenha tendência anorécticas? Ou depilarem a origem do Courbet? Ou taparem a pilinha do David?

Isto faz-me lembrar aquela coisa do piropo e do cartão de cidadão e etc, que ocorrem a quem dificuldade em distinguir o essencial do que é discriminação, misoginia, xenofobia, falta de civismo e o acessório que é o nome que se dá à coisa em determinado momento histórico, em especial quando respeita a época em que surgiu e, por isso mesmo, é um documento. Ou aquilo da contextualização do bullying quando dizem que o problema é a vitimização de quem leva e coisas assim ainda mais estúpidas?.

Que [cócó]!

troskidef

One thought on “Retocando a Arte

  1. Gosto pouco, muito pouco de “retoques”, sejam eles quais forem e onde forem!
    Gostava de saber se os museus têm competência/autonomia para decidir uma coisa destas…

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