Ainda o Tédio

Não nego que os alunos o experimentem em muitas aulas. Ainda me lembro das minhas. E claro que há quem, nas condições actuais, se arraste em busca desesperada pelo final do dia. O que nos traz ao pouco falado – talvez porque tenhamos longo meia dúzia de escribas blasfemos, insurgentes ou muito observadores a zurzir que se não querem e tal, se ponham a andar – tédio docente, algo que se experimenta quando se tenta ensinar pela enésima vez um determinado conteúdo que até é importante – no âmbito do que se pode considerar importante em tempos de relativismo sobre o que serão aprendizagens relevantes – a um grupo de alunos maioritariamente constituído por entediados, repletos de um ennui existencial e contagiados por um spleen do tamanho de uma guinea worm antes de deitar a cabecinha de fora. Tentem motivar alunos para aprendizagens como a conjugação pronominal ou a relação entre comércio e educação no século XII quando eles sabem que o peso da responsabilidade pelo seu insucesso está todo do nosso lado e que somos nós, professores, a ter de justificar quando eles nos entregam uma ficha de avaliação quase toda em branco. Imaginem o tédio que nos cai em cima quando se estão a ensinar os meandros do regime constitucional liberal oitocentista a petizes de 11 anos que, na maior parte dos casos, têm duas ou três gerações de ascendentes a não compreender sequer o nosso regime parlamentar e a não perceber, aparentemente como qualquer assessor partidário que se preze, que as eleições legislativas não são eleições para primeiro-ministro e que “ganhar” não é o mesmo que ganhar um jogo de futebol. Imagino o que será ensinar determinados conteúdos da álgebra a quem desistiu, à partida, de se esforçar em Matemática, porque sabe que pode passar de ano com essa e mais outra “negativa” sem problemas e que, quando alguns inteligentes descobrem isso, colocam logo a culpa no “sistema público de ensino” e nos seus mais visíveis responsáveis, o rai’s parta dos professores. Imaginem o tédio de  ter de levar mais uma vez com o discurso – como ficou dito numa recente reunião de directores com o senhor secretário de estado – de que “todo o processo de avaliação requer registo, circulação e análise da informação” como se não soubessemos o que andamos a fazer e, de novo, com a lógica de fundamentar cada acto. É a chamada confiança nos professores e nas escolas. Ou de ter de aturar conversas sobre “mudanças de paradigma” ou “dinâmicas de sala de aula” como se estivéssemos de novo em profissionalização numa daquelas aulas entediantes com professores “do superior” que não percebiam um boi da coisa concreta que é dar aulas “no básico” (tive uma professora que durante quase todo o ano nem sabia que ciclo eu leccionava). Tal e qual uma sessão com os actuais responsáveis do ME, que parecem saídos directamente desse passado, embora falem em “tempos novos”. Tédio, sim, um tédio imenso que talvez só tenha uma pequena pausa a 26 de Maio porque – que tal admiti-lo sem qualquer problema? – andamos a navegar de cabotagem de feriado em feriado, quando dá para avistá-los no horizonte.

Simpson

3 thoughts on “Ainda o Tédio

  1. Compreendo e subscrevo todas essas razões que justificam um invencível “tédio” que se abate sobre os professores.
    Mas não haverá também uma qualquer relação entre os “tédio” que se observa nos alunos e o “tédio” experimentado pelos professores? Convirá talvez reflectir sobre isso…

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  2. Uma nota sobre o tédio: na 5ª-feira não apareceu ninguém no Gabinete. Hoje apareceram dois grupos que não querem misturas. Um miúdo mobilizou a sua turma toda para assistir. Mandei-os regressar na próxima semana. Logo depois foi outro grupo: mandei-as aparecer cedinho na 5ª.
    Isto é que vai um tédio…tudo voluntariado, note-se!

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