Aprendem Cedo

A tal coisa da responsabilização. Há uma bola a ser pontapeada pelos corredores. Quando uma funcionária a tentar apanhar, alguém agarra nela e diz que não chutou, que a bola não é dele e vai entregar ao dono. O dono diz que não foi ele que chutou e que não a entrega porque não foi nada com ele. E foge. E corre. E ri-se no fim de tudo, até porque a maioria o apoia e quem passa finge que não vê, não ouve, não sabe, apenas quer sobreviver. E a quem reage é dito para não se chatear, que não vale a pena. É nestas alturas que gostaríamos de ter um danielsampaio ou um eduardosá ali à mão para resolver tudo com um sorriso, muita compreensão e uma dinâmica dialética que escapa aos zecos. A responsabilização é algo que se aprende cedo a não querer. Aprende-se pelos exemplos que escorregam, do topo para a base. Aprende-se que o sucesso passa por nunca se admitir falha, erro, culpa. Aprende-se que a responsabilidade é sempre dos outros. De quem se chateia e só serve para aborrecer quem se quer divertir um bocado, à bojarda.

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One thought on “Aprendem Cedo

  1. A responsabilização do sujeito pelos seus actos (ou omissões) é um elemento ético crucial. Só ela permite a construção plena de um ser moral e de uma sociedade sã. É essa cultura da responsabilização, essa ética da responsabilidade que flagrantemente falta à nossa vida cívica, e portanto à educação, e de que as elites políticas são talvez o máximo e pior exemplo.
    Há aqui, todavia, uma questão de fundo, que de resto vitima as “pedagogias fofinhas e facilitistas”: a responsabilidade é um correlato da liberdade, não um seu inverso ou oposto, ao contrário do que preconceituosamente e irreflectidamente alguns “libertários” (mormente de esquerda) pretendem fazer crer. A razão é esta: só pode ser moralmente responsabilizado pelos seus actos quem os comete de livre vontade. Só quem é livre é que pode e deve ser moralmente, ou materialmente (no plano jurídico-penal), responsável pelos seus actos; quem for obrigado a agir contra a sua vontade não pode ser responsabilizado pelos actos que decorram dessa coação. A liberdade é, pois, o fundamento da responsabilidade. A responsabilidade é o reconhecimento d(ess)a liberdade. De uma liberdade que – e este ponto é essencial – que não é uma “propriedade” minha, mas uma condição que assiste aos outros também, que nos torna Próximos. Ou seja, eu respondo perante os meus actos a mim próprio, à minha consciência moral, mas igualmente perante os outros, na medida exacta em que tais actos também, de um modo ou de outro, se reflectirão sobre eles.

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