Alfa e Ómega

A minha escassa experiência nos meios académicos de investigação em “ciência social” (a História é, em meu entender e ainda bem, uma “Humanidade” e levei muitos anos a dar o devido valor a Paul Veyne e ao seu Como se Escreve a História) fez-me constatar a evidência de que raramente um investigador gosta de ver a sua pesquisa ir dar a um beco sem saída ou não provar nada em especial (em particular a tese de partida). Não é um fenómeno novo, mas torna-se mais grave quando nos querem fazer tomar por “ciência” o que é, em diversos casos, apenas uma boa demonstração de um dado ponto de vista. A publicação de estudos que se podem considerar “inconclusivos” (mas que são importantes como quaisquer outros e não necessariamente inúteis) é algo raro, bem como os viés/preconceitos analíticos são mais comuns do que querem dar a entender as introduções metodológicas de muitos estudos. Ou como muita “Ciência Social” é produzida na base da sua utilidade política e muita outra nem chega a arrancar porque incomoda os napoleões académicos. Até porque a actual competição feroz pela produção de estudos em catadupa para ganhar posição académica é pouco compatível com a “perda de tempo” que acarreta reavaliação de hipóteses não confirmadas e o recomeço da pesquisa em busca de explicações alternativas que não se limitem a mudar um pouco a fórmula aplicada nas tabelas, como acontece com as ciências naturais. Aliás, penso mesmo que seria boa ideia “educar os cientistas sociais para a diversidade”, se atendermos às constatações de meta-estudos sobre a forma como o enviesamento conceptual empobrece importantes áreas das Ciências Sociais. Infelizmente – e mesmo que isso não me faça ganhar grandes amigos na academia 🙂 – é muito raro, após ler o tema, o nome do(s) autor(es) do(s) estudos e a sua instituição de origem para eu conseguir adivinhar as conclusões alcançadas.

É tudo relativo, pós-moderno, subjectivo, inútil? Não, mas como em certos estudos na área da Saúde patrocinados por farmacêuticas, seria sempre bom que os autores fizessem uma declaração de interesses sobre quem os apoiou de forma directa ou indirecta ou que simpatias ideológicas têm antes de nos fazerem acreditar que são cientistas “puros”. Para sabermos ao que andamos.

profpardal

3 thoughts on “Alfa e Ómega

  1. Super-estrutura, infra-estrutura, luta de classes, ideologia (dominante)… Não há como enterrar Marx. Embora não faltem por aí coveiros, sejam os liberais ou os comunistas. Marx raramente é lido como devia ser: como filósofo e como sociólogo. De resto, quase ninguém lê, embora quase todos escrevam. A crise das humanidades -e da humanidade? – mede-se bem por esse sacrifício da designação própria em nome da ideologia da “ciência” neutra.

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  2. Gosto da investigação fundamental. Parece que não serve para nada e depois… sobe-se um degrau. Na 3ª-feira assisti ao Seminário do Nóvoa. Gostei de o ver defender a investigação fundamental. Não sei se hoje voltou ao tema mas acho que a Universidade deveria favorecer esse tipo de conhecimento pelo conhecimento. Depois…é que aparecem as empresas.
    É uma opinião.

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