A Implosão

Imaginemos que uma escola tem um problema grave para resolver e trata de o fazer de modo rápido, em menos de uma semana, com todos os trâmites processuais cumpridos, incluindo uma decisão final com a anuência de todos os interessados. Agora imaginemos que, porque essa decisão precisa de validação superior (a tal autonomia das escolas e confiança nos professores a funcionar), os serviços competentes do ME demoram mês e meio a fazer o que lhes… compete, inviabilizando em boa parte a eficácia da medida original.

Foi assim que ficámos com a implosão do ME, nem sendo bom falar da estratégia do deixa estar na gaveta sem resposta que eles acabam por se cansar, esquecer ou achar que já não vale a pena praticada com recursos hierárquicos que ao fim de um ano, ano e meio permanecem sem resposta, nem sequer de arquivamento. Hesito na proporção a atribuir à incompetência ou má fé, acreditando que em algumas situações se possa tratar de cansaço.

Isto anda vergonhoso, só que muita gente já aderiu mesmo à estratégia do que se lixe, isto é mesmo uma palhaçada pegada. E nada irá mudar para melhor nos próximos tempos nestas matérias. A reversão é uma ilusão, tirando o exame da 4ª classe.

Madeira

Uma Cartografia dos Interesses

A fronda queiroziziana não atingiu as prometidas centenas de moções, mas revela-se bastante instrutiva na sua forma de mobilização, não sendo de desprezar cruzá-la com outras movimentações em torno da Educação.

Anadia, Benedita, Caldas da Rainha, Coimbra, Coimbra 2, Famalicão, Leiria, Santo Tirso, a que podemos acrescentar Braga a acreditar por esta prosa, são pontos críticos da nova maria da fonte. Se fizerem uma pesquisa sobre os concelhos que estiveram interessados, desde 2008, no processo de municipalização da Educação encontrarão sobreposições muito interessantes com algumas posições tomadas por estes dias e que o Livresco teve a simpatia de me enviar.

Pessoalmente, saúdo esta forma de mobilização, em especial quando é feita por quem tanto criticou a “instabilidade” causada pela contestação que os professores desenvolveram há anos (felizmente sem ferir agentes da autoridade) contra as políticas de outro governo do PS, aproveitando mesmo essa situação para capitalizar um falso crédito de seriedade, que cai pela base quando chega a sua vez de contribuir para o peditório. Ainda me lembro do gozo com lutas jurídicas contra o ME ou com cordões humanos, que a mim também não agradam, mas todos, não apenas alguns. Em termos individuais, tenho uma especial preferência por um jovem deputado municipal centrista de Leiria que parece profundamente informado sobre esta temática, com números e tudo. Que são apresentados com tanta certeza que quase parecem ser rigorosos.

Pelo meio disto tudo, o operacional de serviço já veio espantalhar as hostes com os seus demónios particulares e bichos-papões em geral. Quando em modo de denúncia e guerra um queirozeze é um ser cheio de inquietudes. Compreendo-o e desejo-lhe sucessos equivalentes aos que ele desejou às causas a que dediquei parte do meu tempo na área da Educação.

Lulas

Unidos Venceremos!

Após ler as legítimas preocupações dos professores do ensino particular e cooperativo com contrato de associação (assinalavelmente parecidas aos dos seus empregadores, o que é altamente estimável e relembra um espírito corporativo old school), aguardo a sua solidariedade com a situação de desemprego massivo dos professores, em geral, e dos candidatos ao ensino público, em particular. Vou esperar sentado, mas já antecipo outra posição.

cama

Agora Imaginemos que Tínhamos Feito a Transição!

A entrevista de Andreas Schleicher – especialista da OCDE trazido a Portugal pelo ME para nos fazer ver o quanto somos conservadores – é bem melhor do que a incongruência de algumas partes como estas, quase seguidinhas.

(…) as escolas portuguesas ainda não fizeram a transição do século XX para o século XXI.”

Portugal registou desde 2000 uma das melhorias mais acentuadas entre todos os países da OCDE.

cat

Diário de um Professor Conservador, Segregacionista, Racista e Entediante – Dia 3

“Ó stôr, não há nada mais importante para nos ensinar?”

Lá está, o tédio, o olhar crítico do aluno quando acha que o professor anda para ali a ensinar coisas pouco relevantes, chatas, sem interesse para a sua vida.

Estava eu a tentar abordar um dos últimos conteúdos de Português relativo aos géneros de texto narrativo, neste caso o conto policial, que escolhera para – pensava eu – aligeirar o ambiente antes de regressar pela última vez à gramática, me atirar ao predicativo do sujeito e reforçar o modificador do grupo verbal mais o agente da passiva. Ora toma, que é para não pensar que os xerloques e os puárôs são menos entediantes ou que os alunos não sabem ordenar as suas prioridades.

Nem quero ver quando chegar à minha preferida (depois da bd) ficção científica.

Tongue

Sódade!

Um dos maiores prazeres – talvez o maior – das colecções de bd do Público é a recordação daquela rotina de há muitos (mesmo muitos) anos de esperar pelo dia da semana em que saía a nova revista do Mundo de Aventuras (ou do Tintin ou do Jornal do Cuto e etc, embora eu só tivesse dinheiro para uma) e se iam ler as novas histórias ou a continuação das anteriores. Isso desapareceu e, se tirarmos coisas do tipo super-herói ou disney, não há revistas que consigam sobreviver, porque os gostos da adolescência mudaram e o pessoal mais velho tem algum nível de exigência, mas talvez não a disponibilidade suficiente para alimentar revistas semanais. O ritmo mensal de boas revistas lá de fora (a L’Immanquable é a que publica actualmente o melhor material franco-belga) não dá para satisfazer quem tem o vício, pelo que até já vale comprar o que já se leu nos velhos Tintins, no Jornal da BD ou na Flecha 2000 (ou até se tem repetido) mais de uma vez, nem que seja para recuperar o velho ritual. Que dura 10-12 semanas, depois lá se interrompe e ficamos à espera de nova série.

Foto3019Por mim, gostaria que ousassem o Buck Danny, o Dan Cooper, o Olivier Rameau, qualquer coisa do Hermann (Comanche, Jeremiah, Torres de Bois-Maury) ou William Vance (Ramiro, Bob Morane, em último caso),  talvez mesmo o Cubitus ou o Clifton. Quanto ao Bruno Brazil, ao Luc Orient, ao Valerian ou ao Simon du Fleuve, já comprei quase tudo, podem ficar para daqui a uns anos.

Tretas Queirozizianas

Sobre a situação financeira real de muitos colégios privados e a forma como gerem os lucros que conseguem com os subsídios públicos e as alcavalas que pedem aos encarregados de educação é que eu gostaria de ler ou ouvir o Rodrigo Queiroz e Melo. Mas o empreendedorismo é assim, não presta contas como em outros países, como a Holanda em que escola com dinheiro público não pode distribuir dividendos. Ou sobre o modo como há quem abuse dos horários de trabalho dos professores contratados em quase regime de servidão (porque há quem ache melhor a má sorte do que o desemprego nascido do despedimento de professores do ensino público) ou gerem as próprias matrículas e a admissão dos alunos. Porque, na enunciação, é tudo “liberdade” e “equidade” e “serviço público”; o problema são as práticas que, quando dão escândalo, se foram sempre resolvendo graças a uma teia de influências que foi sendo estabelecida no interior do ME – ou em trânsito entre o ME e os cargos de consultor disto ou daquilo ou mesmo de director executivo – e que sempre funcionou menos mal em tempos de aparente aperto, bastando ver como as verbas para o ensino privado sempre tiveram cortes muito menos do que no ensino público, com ou sem “argumento demográfico”. Quanto às pretensões de prestação de “melhor serviço” eu teria sempre a apontar o facto de certos nichos do “mercado da Educação” raramente se encontrarem nas zonas mais problemáticas. E muita outra coisa que há quem saiba que eu sei que eles sabem que eu sei. Visitei colégios privados suficientes e falei com as respectivas direcções de forma suficientemente aberta para ter uma noção do que os privados mesmo privados pensam de certas subsidiodependências.

A encenação do coitadinho fica-lhe mal, muito mal. Assim como é curioso como pede solidariedade com a quebra de alegados direitos adquiridos quem nunca a teve para outros.

EçaA Relíquia