Enxerto

Sem desprimor para todos os outros significados, quando eu era petiz, queria dizer grande carga de porrada. Por estes dias, é o que sinto que levo a cada abertura de jornal ou noticiário. A cada dia ou semana, aparece um estudo, uma intervenção, uma entrevista, um bitaite à maneira. Cada inteligente (até há os que de repente já voltam a ter interesse na Educação quando lhes tocam nos interesses da obra) decide disparar em força e desatar a desqualificar o que os outros fazem. É o que acontece quando todos têm opinião, números e teorias à mão, ajustáveis conforme a situação. Quem discorda é radical ou fanático. Até quem teve responsabilidades na coisa anos a fio, aparece como se fosse virgem pronta a usar e a avaliar as outras casadoiras. É uma coisa bonita de se ver, em forma de desordem caótica, cheia de colorido e muito ruído. E é assim que se perde qualquer vontade de debater a sério seja o que for, a menos que seja para responder ao mesmo nível, o que pode ser chato, porque eu tenho memória e alguns recursos ao nível do vocabulário popular e ando com vontade de retribuir uns quantos enxertos verborreicos (que eu não sou um joãosoares e me chega a pena, desnecessitando da bengala).

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Conservador, Segregacionista, Racista, Entediante e Agora Também Enxertado

No meu caso em corno de cabra. Não me incomoda que acabem com o ciclo de escolaridade que lecciono, apenas que tenham um mínimo de educação ao tratarem do assunto. Até porque, em boa verdade, o 2º ciclo (enquanto Preparatório) antecede numa década o actual 3º ciclo, antes incluído no Secundário. Pode não lhe dar “identidade”, mas sempre lhe poderá dar pergaminhos.

Quanto ao mais, neste momento já sou favorável a um ciclo de escolaridade de 12 anos, com prova de aferição no 6º e prova final no 12º, sem quaisquer retenções pelo meio, nem separadores para evitar estampanços.

O 2.º ciclo é uma espécie de enxerto, sem identidade própria

Bigorna

Tanto Contrato Assassinado?

Não falo dos de associação, que são muito menos, mas dos mais de 200 de “autonomia” que foram assinados no mandato anterior, em regra coma  presença do secretário de Estado Casanova, e nos quais se definiam metas de sucesso e estratégias para os alcançar.

Embora se diga que é para aproveitar tudo o que sejam boas práticas, a verdade é que, por exemplo no meu próprio agrupamento, já foi delineado um plano destinado a combater o insucesso e o abandono no contexto do tal “contrato de autonomia”. E as pessoas discutiram-no, já passaram por muitas formações e mesmo algumas deformações, ano após ano, década, após década. Só que o ME continua a achar que o insucesso é causado pelos professores, pelas escolas, e que todos precisam de ser “educad@s” e de formação. Uma velha história que, no essencial, apenas procura esconder gravíssimos problemas de exclusão social com a atribuição de culpas para a Educação, que está a jusante de muitas problemáticas. Claro que há, como na peça do Expresso de hoje, quem diga as coisas como são, embora com a prudência do anonimato.

Exp7Mai16Acredita o ME que mais uma formação em regime de “lavagem ao cérebro”, em dois dias, vai resolver tudo e que todos passaremos a saber lidar com todos os problemas e a ultrapassá-los de forma eficaz e virtuosa. É mentira, apenas se irá explicar, outra vez, que se o alunos não passar de ano a culpa é dos seus professores, do director de turma, das chefias intermédias, da direcção. E que irão prestar contas por isso.

Isto é de uma imensa falta de coragem, encoberta com boas intenções. Se querem acabar com o insucesso, ilegalizem-no formalmente. Passa a ser proibido chumbar, pronto. E quanto ao abandono, basta aperfeiçoarem os mecanismos já existentes que levam ao seu subregisto. Assumam as coisas como elas são, nas estejam sempre a atirar a culpa para os outros. Já que são incapazes de tomar as medias correctas. Apenas porque são caras.

O insucesso é um problema grave? O abandono continua a ser uma realidade? E se fossem em busca das causas reais que os provocam, em vez de acharem que os professores é que precisam de ser “educados” para não “segregar” ou de “formação para o sucesso”, sendo normalmente risível o modo como essas sessões são conduzidas, tanto na forma como na substância, por burocratas inoxidáveis (nem todos, concedo)? Em especial para quem lida com essas coisas todos os dias, sem ser com o rabo sentado no gabinete, há coisas que são demasiado ofensivas pela perda de tempo valioso para o que verdadeiramente interessa no serviço prestado aos alunos. Uma coisa é aprender algo novo, outra ser obrigado a comer o já há muito mastigado.