Desprezo

Há pessoas amigas (olá, Helena Mendes, hoje estou em modo vergastada para a destra) que acham que eu sou profundamente arrogante na forma como trato alguns dos nossos liberais de aviário, na forma como os apresento como mentecaptos ou meramente idiotas em muitas situações, para não falar em eticamente sinuosos. Já ouvi o mesmo do outro lado do espectro partidário, pois não segrego nesta matérias. Mas agora estou mais virados para aqueles que, na casa dos 30-40 anos, quase sempre encavalitados nos apelidos ou nas relações familiares, fizeram um trajecto que os levou a achar-se liberais de gema, achando que isso se opõe ao que eles qualificam de soviético ou socialista. Uma das consequências, para eles, é desprezarem o que é público, do Estado, incluindo as escolas públicas, que apresentam como antros comunistas, os seus professores, que gostam de qualificar como incompetentes, preguiçosos e ignorantes e os seus alunos, que eles gostam de manter longe de si por serem socialmente indesejáveis na sua diversidade de culturas e economias. Claro que eles desprezam tudo o que é público, com excepção se forem nomeados consultores ou assessores de gabinetes ministeriais, quiçá mesmo administradores em nome desse horrível Estado em empresas ou se estiver em causa o subsidiozinho para o seu negócio. Não escrevo por ouvir dizer, conheço alguns espécimes e observei no seu habitat quando e quanto rastejam sempre que está em causa a verbazinha. São hipócritas, em regra dotados de um potencial intelectual limitado pelas baias que escolheram, são profundamente preconceituosos e desperdiçaram o investimento das progenituras, achando que ser bronco é que está a dar para afirmar o poder da Direita. Criticam o comunismo e os sistemas soviéticos a menos que os babujem em comitivas à Venezuela ou Angola (antes da queda do preço do petróleo, atrás do Portas, esse grande novo empreendedor) para arranjar negócios; os papás e os titis andaram com ditadores nas palminhas para arranjar parcerias estratégias para os seus bancos pré-falidos e os primos mais velhos (tipo mexias) não se incomodam nada de trabalhar em empresas dominadas por accionistas estrangeiros de países mais do que duvidosos em termos de democracia porque (é a desculpa esfarrapada) o capital não tem nacionalidade (mas tem olhos em bico). Porque não há que estranhar… para eles o “liberalismo” vem antes de tudo e “democracia” em alguns casos soa-lhes a “socialismo”. Porque eles são muito inteligentes e leram dois livros de fio a pavio na vida, embora tenham participado em muitas tertúlias, blogado muito, combatido nas fileiras liberais contra o obscurantismo socialista com o teclado numa mão e as fraldas para a incontinência (acaso lhes aparecesse um comuna a sério na frente) na outra. Sim, desprezo-os bastante e nem é por terem tentado ofender-me, ao considerar que por ser um professorzeco (que saudades da lurdinhas que eles têm) do básico em escola com pretos e ciganos (sim, é assim que muitos falam no seu ambiente protegido), porque para mim isso não é ofensa, é elogio. Em especial na pena ou boca de idiotas mimados que confundem educação com colarinhos engomados. Que se afirmam à sombra de organizações “da Fé”, mas que têm condutas tão ou mais materialistas do que o mais empernido leninista. Que defendem o “indivíduo” mas só se não for pobrezinho ou com tom de pele mais escurinho, porque há escolas e escolas, as de excelência para os que lá podem entrar e as outras, públicas, para os que restam e podem ser servidos em regime de low cost.

E desprezo tanto os que dão a cara e o nome a prosas inanes (os sóiferes, por exemplo) como aqueles que as escrevem na sombra, em troca de coluna de opinião ou do tal subsidiozinho para assessorar o grupo parlamentar ou o ajuste directo com o escritório ou o grupo de estudos). Sim, é verdade, este pedregulho de texto não prima pela subtileza, mas isso deve-se apenas ao facto de não estar a lidar com gente subtil. São calhaus ambulantes, a que cursos católicos ou novos não deram qualquer polimento e que não é um fato novo com as costuras todas bem pregueadas que consegue esconder a má formação do carácter. Lê-los é um exercício complicado entre a risota e a fúria porque o tal desprezo que revelam pelo que desconhecem é aterrador em todas as formas pelas quais o possamos encarar. Por isso, desprezo-os com igual intensidade, mas porque os conheço, a alguns desde muito cedo, quando ainda andavam a engraxar pela faculdade a sola dos sapatos de ex-esquerdistas ou ainda esquerdistas para conseguirem um lugar ao sol, quantas vezes na base da mentira e do nepotismo. E cada vez tenho menos pachorra para entrar em diálogo com gente que sabe que é desonesta na forma como debate, porque ainda me pode fugir mesmo a veia para a chinela e ainda se partem umas loiças às comadres e aos compadres. Gente que defende práticas de segregação social (da verdadeira, não aquelas parvoíces dos estudos tipo-isczé, feitos pelos seus simétricos de Esquerda), que é assumidamente xenófoba e que, se lhes fosse dado esse poder, faziam fronteiras à húngara ou à trump para separar os indesejáveis da boa sociedade, a deles, a dos subsidiodependentes, dos consultores e assessores de empresas que negoceiam com alguns dos piores regimes políticos do mundo, gente com tão poucos princípios quanto pudor em usar de todos os truques para alcançar os seus objectivos. Usam a “liberdade” como lema, mas quando é de escolha é mais na base da escolha de quem pode entrar no clube dos escolhidos. Porque para mim são soviéticos e inimigos da verdadeira liberdade todos os que defendem práticas de limpeza étnica ou social ou o domínio do poder através de métodos baseados no carreirismo, no clientelismo e na intimidação dos adversários. Podemos cobrir um imbecil trauliteiro com diplomas e currículo, mas isso dificilmente lhe mudará a essência.

Dito isto, por certo que reconheço a existência de um punhado de intelectuais de Direita altamente estimáveis e sérios. Mas olhem que por estas semanas, houve uma ou duas baixas de relevo nessas fileiras.

Turd

Verão

Para mim começa com os caracóis e a Feira do Livros. Há os mais exigentes que querem logo praia, areia na virilha, mamíferos ao léu e sol no lombo. A mim chega o alimento da época, para o corpo e para o espírito.