Por um Sindicalismo Corporativo

Sim, já sei que muita gente acha que só se podem criticar as organizações a que pertencem se também fizermos parte delas. Embora isso nunca tenha impedido a larguíssima maioria dessas mesmas pessoas de comentar e criticar intensamente outras organizações a que não pertencem. Portanto, a menos que se tornem militantes do CDS ou do PSD, espero que a malta adepta da geringonça sindical se mantenha na sua incoerência e não me chateie com tretas.

Portanto, essa questão fica arrumada e posso passar ao que me interessa.

Como em tempos achei que a acção sindical (falo da Fenprof, claro) era de oposição automática a todo e qualquer poder político, com ligeiras pinceladas de colaboração em alguns momentos de maior simpatia, agora tornou-se de colaboração praticamente incondicional na tentativa de nos convencer de que tudo está bem ou se não está bem é porque não pode mesmo ser, que nada se faz de um momento para o outro e que isso de revoluções já não existe em lado nenhum. Como a FNE com Crato, a Fenprof tornou-se agora uma espécie de apêndice do ministério da Educação para enquadrar e amortecer – numa postura de responsabilidade nacional – as justas reivindicações do professores, dando a entender que existem prioridades e que neste momento a prioridade é a estabilidade governamental e uma agenda política que está para além dos interesses corporativos (egoístas, alguns não hesitam em dizê-lo, como qualquer articulista observador) dos professores.

Entendamo-nos… claro que o interesse comum (por muito indefinível que isso seja na prática) não deve ser esquecido, mas os sindicatos foram criados e só fazem verdadeiramente sentido se defenderem os interesses particulares daqueles que afirmam representar. Não lhes deve ser estranha a conjuntura global, mas o seu papel é o da defesa de interesses específicos. Não o contrário. E por “específicos” não quero dizer “partidários”.

Por estes dias, a polémica em torno dos contratos de associação serviu para mobilizar e unir os adeptos da actual situação política, ao mesmo tempo que permitiu com o alarido existente esconder outras questões muito importantes para a Educação, em geral, e para os professores, em particular, sendo que deveriam ser estes a razão primeira de acção dos sindicatos de docentes e não a total rendição aos jogos político-partidários.

A verdade é que, como se escrevia numa peça do Público, o ME pode ter aparentado tomar imensas medidas, mas nas escolas o que se passa mudou muito pouco e não me refiro apenas aos efeitos secundários da eliminação das provas finais. O funcionamento interno mantém-se, a ameaça de perda de competências para as autarquias parece quase um facto consumado, a carreira docente continua na mesma, a BCE foi eliminada mas não se sabe pelo que será substituída, etc, etc. Sobre isso, temos ZERO, mas o nosso sindicalismo docente parece pouco preocupado. E mesmo na polémica sobre as PPP na Educação, temos sindicatos (com a FNE à cabeça) muito mais preocupados com os problemas do patronato do que com o dos assalariados. Porque se os alunos continuam a existir, o número de professores empregados nunca poderá mudar muito.

Resumindo, um sindicalismo que se deixa domesticar e parece quase envergonhar-se em defender os interesses daqueles que alega representar é um sindicalismo eunuco, tão distorcido quanto aquele tipo de sindicalismo que protesta por tudo e nada. Num caso grita-se “fogo, fogo” por tudo e nada e no outro sussurra-se que não há fogo nenhum, mesmo quando o lume não abranda há muito. E não dá sinais de ir abrandar. mesmo se a malta se satisfaz por ver arder esta ou aquela barraca alheia.

Se isto é um texto anti-sindicalista? Pelo contrário, é a defesa do valor do sindicalismo mais puro e radical, daquele que não se deixa converter em bengala de ninguém. Porque amarelos há muitos, mais pálidos ou mais corados.

andarilho

22 thoughts on “Por um Sindicalismo Corporativo

  1. Sem palavras… nada a dizer simplesmente que comungo a totalidade das tuas palavras. Peço desculpa, pelo tu, mas admiro tanto a sua atiude e coerência que arrisco em usar esse termo Obrigado por tudo o que tens feito em prol da dignificação desta classe que tem sido usada de forma miserável por quem nos devia defender

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    1. Por acaso, tinha um compromisso fora do país que acabei a desmarcar. Mas não irei porque não quero estar ao lado de muita gente que me amesquinhou e nunca se envergonhou disso. Porque não vejo qualquer agenda reivindicativa concreta e, acima de tudo, porque vejo esta manifestação como uma forma de coreografar uma resposta aos “amarelos” e de apoiar o ministro. O que é um erro estratégico enorme.

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  2. Até poderia deixar-me levar por esse palavreado mascarado de exercício argumentativo de augusta qualidade, se não tivesse memória fraca.
    O umbigo serviu como arma de arremesso de contestação a dois governos PS.
    Durante esse período, o mesmo umbigo serviu para o endeusamento do Crato.
    Quando se provou que o Crato era o que se revelou, até houve notícia de jornal com o fim do Umbigo.
    Volta o PS e volta o umbigo transformado em quintal.
    Engane-se quem se quiser deixar enganar.

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    1. Caro Pedro, a sua memória é bastante selectiva.
      Mas é voluntariamente, certo?
      Ninguém foi endeusado, quanto muito foi dado um benefício de dúvida a Crato que durou muito menos de seis meses e durante quase 4 anos levou na cabeça como tinham levado os anteriores.

      O Umbigo acabou porque, em grande parte estava farto de broncos desonestos como os que agora só me aparecem ocasionalmente no blogue. É o seu caso. Se assim não fosse talvez tivesse lido que em Outubro e Novembro do ano passado apoiei a solução que agora chamam “geringonça”, mesmo se disse logo que não augurava grande coisa para a Educação.

      O problema, Pedro, é que no seu caso a militância partidária sobrepõe-se a tudo o resto e não o cega, apenas quer cegar os outros. Porque eu conheço poucos que, sem o manto protector dos partidos e das organizações que lhes aparam os golpes, mais tenha andado à bulha com os pseudo-liberaizinhos de aviário do PSD e CDS do que eu. Já o Pedrinho José, por onde andou?

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    2. Caro Pedro: A desonestidade intelectual do Guinote é por demais conhecida e vai-se refinando com o passar do tempo. Houve no final de Abril um congresso da Fenprof em que foi aprovada uma resolução de acção reivindicativa que corresponde ao essencial dos interesses dos professores e da Escola Pública. O Guinote se fosse honesto, argumentava na base das propostas aprovadas. De resto, é exactamente como diz no seu comentário. O infeliz é tão analfabeto politicamente que considera uma insignificância o ataque que está em marcha contra a Escola Pública. Desprezo, caro Pedro, todo o desprezo para o umbigófilo agora no quintal. Se reparar, exceptuando três ou quatro devotos, sempre os mesmos, ninguém lhe passa cartão. O melhor remédio para este tipo de esquizofrenia é mesmo deixá-lo a falar sozinho.

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      1. Tu é o Pedro devem ser dirigentes sindicais, aqueles que nunca deram aulas…passam uma vida agarrados aos tachos. Vens falar de desonestidade intelectual quando são vc que ladrão pela voz do Dono. Têm o discurso gravado. Como alguém escreveu à tempos ninguém fez tal mal à educação e eu acrescento, principalmente ao primeiro ciclo como a cambada da Fenprof. Mas a Fne são a mesma coisa

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  3. Duas breves notas:
    – Na análise do sindicalismo, seja do docente ou em qualquer outro, não se deve colocar a questão “política”/ “corporativa” de forma dicotómica. Essas duas perspectivas devem articular-se no pensamento e na acção. É por aí que se deve ir ou insistir para a revitalização do movimento sindical.
    – Quanto à manif de apoio à EP, considero que é uma boa altura para a fazer, porque não se pode fazer de conta que não se percebeu o ataque concertado (e concentrado) das forças da direita contra ela (e assim se compreende como ela tem, triunfantemente, levado a sua água ideológica aos moinhos dos grandes interesses privados que manietam a sociedade); e como eu costumo dizer, só damos o devido valor à EP quando ela falta às populações (como acontece quando nos falta a saúde…).

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  4. Assino e mais do que uma vez o que escreveu o Paulo Guinote. Agora é a bandeira da pública versus privada. Mas se realmente os sindicatos defendessem os seus protagonistas, a escola Pública era automaticamente defendida e sem manifestações.

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  5. Reivindiquem bons alicerces para que o telhado se aguente. Debatam e defendam sem “politiquices” o que é essencial, o que todos já dissemos sem que nos ouvissem. Defendam o regresso da democracia às escolas, em que os directores sejam professores eleitos pelos docentes e não docentes ( obrigados a leccionar uma turma), devolvam a autoridade aos professores, e os mega não entram nas vossas agendas? Descolem a escola da política, olhem pelos vossos professores e pela nossa escola. Afinal o médico continua a ser aquele com formação para curar/tratar. Por alma de quem é que o professor deixou de ser o entendido em ensinar? E faço minhas as palavras do Paulo Guinote, “Mas não irei porque não quero estar ao lado de muita gente que me amesquinhou e nunca se envergonhou disso. Porque não vejo qualquer agenda reivindicativa concreta”, que venha realmente fazer a diferença. Só os dormentes acreditam nisso.

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  6. Caro Alfredo… a mim os papéis e moções interessam pouco perante os actos. E aquilo a que temos assistido é a uma anulação completa da acção sindical da Fenprof, como no mandato anterior aconteceu com a FNE, daí eu achar que a designação FNEprof se adequar muito bem. O resto, enfim é o costume em quem, dizendo que o outro não vale nda, precisa de o dizer e aparecer a dizê-lo :-).

    Pedro, constatei um facto… a sua conversa é de bronco desonesto. Se fosse de outra coisa, eu dira, descanse.

    A ambos… nada sobre o conteúdo do que escrevi, excepto que existe por aí uma papeleta qualquer a dizer qualquer coisa. Serão como aquelas declarações contra a municipalização?

    pois… pois… a memória é uma coisa chata :-).

    Beijinhos para ambos.

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  7. Verdade maria.c. Essas caíram no esquecimento. Eu não me esqueço mesmo. Mas estas não dão boa publicidade…como tudo o que me merecia ser divulgado.

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  8. moções que apenas ficam atas não promovem mudança…
    tal como opiniões que apenas ficam em suporte digital ou analógico…
    só a ação fisica, ‘de corpo ao manifesto’ é que poderá almejar a uma putativa mudança…
    pode-se interpretar a “manifestação como uma forma de coreografar uma resposta aos ‘amarelos’ e de apoiar o ministro”, como também se pode interpretar que vários apoiam a manif apenas como protesto contra o enriquecimento ilicito de alguns ‘amarelos’…

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