A Escola Burrocrática – 4

A acta. A ata. A iata.

O alfa e ómega da escola burrocrática e da lógica asinina do eduquês palavroso que substitui tudo o que existe pelas palavras a fingir que o céu se fez na terra ou que o inferno se justifica.

Felizmente, há escolas que já abandonaram algumas práticas e passaram realmente a um patamar menos notarial de registar tudo e mais alguma coisa, não percebo se por retenção anal diferida, se por medo que aconteça qualquer coisa, surja o temido “recurso” e seja necessário ter tudo registado para posterior consulta e justificação.

Mas…

… o documento que se continua a transcrever é o de uma escola portuguesa, pública, submetida à lógica do papel, muito papel. Não sei se é assim nas privadas, consta-me que não. Talvez por aqui existam diferenças, explicações, coisas a mudar. Autonomia, quiçá, mas não de uma só pessoa.

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A Escola Burrocrática – 3

A escola burrocrática hiperboliza o bizantinismo processual, massacra os seus professores com tudo o que é imaginável para legitimarem o seu trabalho, mas depois é curiosamente desonesta quando se trata de registar o que é mais incómodo e é praticamente impossível varrer para debaixo da alcatifa poeirenta.

Não podendo esconder os incómodos, a escola burrocrática cosmetiza-os. É o que se passa com o abandono escolar real, subregistado em ampla escala por causa de metas irrealistas traçadas a nível central, que são despejadas depois sobre as escolas, dependendo a avaliação das suas lideranças da ultrapassagem de tais metas.

Há uns anos, ia tendo uma discussão sobre este tema com uma das pitonisas das estatísticas nacionais da Educação, mas com a sua arrogância muito própria ela encerrou a conversa com aqueles argumentos de autoridade que ocorrem muito a quem não quer ver as suas ficções desmascaradas enquanto tal.

O problema é que a situação real não é a que resulta de estratégias como a que em seguida se demonstra numa singela frase, em que um aluno que faz abandono escolar é avaliado, apesar de explicitamente se afirmar que a sua falta de assiduidade impediu a avaliação das suas aprendizagens. Na escola burrocrática, o aluno que entrou em situação de abandono escolar claro, afinal não abandonou, sendo avaliado, o que permite limpá-lo da tabela mais negra do abandono, deixando-o na tabela cinzenta do insucesso, praticamente só reservado a quem não coloca mesmo os pés nas aulas.

E, tenham a certeza, este é o futuro preconizado pelos programas promotores de sucesso com que seremos todos, sem dó, verdascados já no próximo ano. Porque é muito urgente provar que as mais recentes medidas, como a eliminação das provas finais, estão na origem de mais sucesso.

Burrocracia4De acordo com esta lógica, a escala de avaliação das aprendizagens tem um nível reservado para efeitos apenas de grave falta de assiduidade. Quem for às aulas já tem o nível 2 garantido e a partir daí só não tem de 3 a 5 por culpa do professor portador da informação.

A Escola Burrocrática – 2

Neste modelo de escola em que o registo e a legitimação do acto estão acima do acto em si, e em que a produção de sucesso estatísticos é uma prioridade em relação ao sucesso das aprendizagens efectivas, o professor é professorzeco em todo o seu esplendor de menoridade e falta de autonomia. O professor da disciplina é “portador” de informações para a reunião, que podem ser aceites ou não. Porque a linha de comando e a cadeia hierárquica de pressão se faz sentir num CTurma como na escola se faz sentir da direcção unipessoal para os departamentos, grupos e DT, como se faz sentir no sistema da tutela e do seu aparelho administrativo sobre as direcções. Há quem confunda isto, erradamente, mas de forma consciente, com responsabilização.

Eu sei que a lei empurra neste sentido, mas a resistência ao disparate e ao amputar da autonomia dos professores passa exactamente por não se exacerbar o que na legislação já é pouco razoável. E se repararem a verborreia eduquesa anda quase sempre a par do autoritarismo administrativo.

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