Portefólio

A Direcção-Geral da Educação tem online um portefólio de práticas para promover o sucesso educativo. Na formação que anda a ser dada pelo país foi distribuído um pdf equivalente (Portefólio-de-Medidas-de-Promoção-do-Sucesso-Educativo) que visa espalhar as práticas de sucesso pelo país.

Conheço razoavelmente umas quantas destas metodologias, mal outras tantas e praticamente nada umas outras, pelo que não me arrisco a dizer quais os melhores pratos da ementa.

Vou ser é assumidamente cínico na análise de todo este “esforço formador” para o sucesso.

O objectivo é baixar as taxas de retenção para níveis residuais, tornando todo o sistema mais barato e podendo apresentar estatísticas maravilhosas para europeu comp(a)rar e ainda nos tornarmos um case-study ao nível da Finlândia ou de uma qualquer potência educativa oriental.

Para isso, o melhor e mais rápido é começar pelo fim – decretar o sucesso total a nível de escola/agrupamento – e construir a metodologia do fim para o princípio e depois transformá-la num powerpoint a ser distribuído pelas restantes escolas como exemplo do sucesso.

Não estou a dizer com isso que estas propostas se baseiam nesta forma de tratar as coisas, mas apenas que se podem poupar muitos trabalhos, projectos e ralatórios se formos directos ao essencial: o sucesso total até ao 9º ano, até porque já nem há “exames” pelo meio e tudo será controlado pela boa aferição, aquela a que os inconvenientes poderão faltar para não embaraçar as pautas e tudo parecer um mar de rosas. Um pouco como na Inglaterra em que vai tudo de carrinho até aos 16 anos e depois se estampam com os exames à saída do Secundário (os novos GCSE que sucederam aos GCE O-Level, para não falar dos não obrigatórios A-Level) que servem de base para a admissão às Universidades. Porque é divertido ver como a escala de classificação é quase toda construída com base no sucesso (só o nível U equivale a reprovação), mas como isso é depois encarado pela sociedade e pelas instituições universitárias de maior prestígio.

E pode poupar-se muito trabalho e diversificadas chatices, pelo menos ao nível da gestão – porque ao nível das salas de aula é outra conversa – se o sucesso ficar garantido e a tutela satisfeita, podendo dizer-se que se adaptaram metodologias do portefólio à realidade local e criando registos a condizer. Batota? Nada disso! Se a ideia é os alunos passarem pelo simples facto de aparecerem na escola, para quê andarmos a fingir que isto é para levar mesmo a sério? Acima de zero é sucesso. O nível 1 passa a significar pouco sucesso, o 2 é sucesso um pouco abaixo do esperado, o 3 é o do sucesso esperado, 4 um sucesso acima do esperado e o 5 muito sucesso. E só chumba quem tiver alínea. E mesmo assim é bom que seja uma alínea muito bem fundamentada, porque se o aluno não apareceu nas aulas, talvez tenha sido por causa do odor corporal, da indumentária ou do cenho d@s docentes.

Faz-se um portefólio e siga para bingo.

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Conselho final: apresente-se a coisa como facto consumado, ouçam-se as opiniões, mas filtre-se o respectivo registo. Velhos do Restelo não produzem escolas de sucesso para o século XXI.

mascaras

Sugestão

Gostaria de convidar algumas (muitas?) pessoas bem-pensantes a vir para uma escola pública, sem ser em regime VIP ou de projecto-piloto ao colinho do ME com todas as facilidades e apoios, leccionar um ano de aulas a 6 turmas com 28-30 alunos e um regime de avaliação que lhes garanta (aos alunos) à partida a transição, desde que apareçam umas vezes e se dignem um ou outro luxo como ter caderno e de vez em quanto serem pontuais. Como sabemos, qualquer episódio de indisciplina será falha do docente em gerir as emoções e as expectativas na sala de aula e o insucesso das aprendizagens resulta sempre de uma falha de comunicação ou de estratégia pedagógica do ensinante, visto que o aprendente está sempre ávido de saber como um finlandês ou um jovem habitante de Singapura no topo dos PISA.

Ensinem-nos pelo exemplo, senhor@s especialistas, porque é pelo exemplo que se demonstra o quão válida é uma proposição, a menos que seja informada aos primeiros quinze dias. Nós, os cultores da retenção, aguardamo-vos com ansiedade e a esperança natural do aprendentes que querem ser ensinados, quais alunos reguilas que é necessário cativar. Seduzam-nos, cativem-nos, mas não apenas pelo verbo ou pela porcaria, desculpem, portaria ou despacho normativo, que isso faz tanto efeito como paracetamol 250 para crianças com dor na barriguinha. Já pensaram que se os professores básicos ainda não aprenderam as vossas lições é porque sois – vocelências mesm@s – péssimos ensinantes e muito piores gestores de expectativas (para não adjectivar de forma justamente mais contundente)?

A bem do novo paradigma.

bullshit-detector

Coragem Low Cost

Legislem com clareza que a transição é obrigatória em anos não terminais e teremos uma Educação de maior sucesso e muito mais barata. Porque é isso que interessa, certo?

E depois façam estudos a comprovar a correlação, a variância, o desvio-padrão e a margem de erro nula.

cachorro

Cargos

Há de dois tipos… aqueles a que uma pessoa se candidata e ocupa de forma voluntária, graças aos votos de outras pessoas, e aqueles para que se é nomeado ou escolhido.

Acho que no caso dos primeiros, se a pessoa se candidatou é porque sabe ao que vai e deve estar disponível para arcar com as porcarias e não apenas com as honrarias. Foi pelo seu próprio pé, portanto, aguente-se :-). A menos que exista clara manifestação de desagrado por parte de quem nel@ votou, acho que não são cargos para demissões a meio do trajecto, excepto em casos excepcionais. Embora seja completamente a favor da limitação de mandatos. Nem que seja da auto-limitação.

Já no caso dos outros cargos, acho que a pessoa deve ir-se embora quando considera que não está a fazer nada ou que deixou de lhe dar prazer ou interesse o seu desempenho. Passa pela consciência de cada um@, embora seja bem verdade que as há muito diferentes. As consciências.

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