Bíblia

Todos temos aqueles livros que foram fundamentais na nossa formação, desde o desenvolvimento da imaginação infantil ao contributo para a definição do nosso percurso intelectual e académico. Uma espécie de bíblias ou livros fundadores da nossa forma de pensar.

Na fase da História da Educação, em termos de análise comparativa da evolução histórica dos sistemas educativos nacionais, não há tijolo que para mim se compare a este, publicado originalmente em 1979.

Foto3088Consegui finalmente comprá-lo a um preço decente em segunda mão, podendo agora despachar para o arquivo defunto as fotocópias das partes mais importantes que guardo por aí  há quase 15 anos.

Foto3091Este é daqueles livros que já não se fazem, um compêndio de sociologia histórica comparativa dos sistemas de ensino nacionais que analisa a forma como tiveram origem e se foram transformando no tempo os sistemas centralizados e descentralizados. Um livro baseado na palavra e não em tabelas, em rigor informativo e interpretativo e não em malabarismos estatísticos ou linguísticos. Tem cerca de 800 páginas, sem desnecessário aparato de erudição (tem menos notas finais do que certos artigos com poucas dezenas de páginas muito vazio por disfarçar). É denso, demora a ler, ou seja, é o oposto do que agora entre nós passa por Estudos sobre Educação.

Foto3090

A autora é insuspeita para quem ache que venho aqui propor a obra de uma esquerdista empedernida. Pelo contrário. Porque a boa “Ciência Social” não tem esquerdas ou direitas, ou está bem feita ou não presta. Ou é escrita para tentar compreender as coisas ou não passa de uma forma de manipular essa compreensão.

Neste caso, os capítulos são longos, demonstrando-nos aquilo que explica. Como é da fase pré-excel em que basta carregar num botão e mudar uma décima na fórmula para conseguir dados que provam uma tese, preocupa-se em fazer-nos compreender aquilo a que podemos chamar a “ontogénese” dos sistemas educacionais, como chegaram ao seu estado actual (últimas décadas do século XX). É uma espécie de vacina contra a crença nos saltos e rupturas nestas matérias, demonstrando como as verdadeiras transformações se fazem no tempo longo.

Acho que serei dos mais novos a achar que esta é a forma mais correcta de analisarmos os fenómenos educativos. Só lamento que alguns mais velhos do que eu, para se sentirem e afirmarem como (pós-)modernaços, se tenham convertido em adoradores deslumbrados das tabelas estatísticas ready-made e tenham prescindido de uma forma mais sólida de análise comparativa histórica e sociológica que agora acham ser, quiçá, arcaica.

Terei parado no tempo em termos conceptuais? Antes isso do que andar por aí a acelerar, desvinculando por completo da realidade para servir agendas e objectivos meramente políticos.

One thought on “Bíblia

  1. Gosto da seriedade e solidez do post. Lembra-me algo….
    Mas eu não desdenho a estatística… repara, é uma leitura do real. É matemática e a matemática tem sempre uma ancoragem no real. Uma interpretação da realidade tendo em conta que não é a realidade. Mas essa interpretação tem utilidade quando pretendemos estabelecer limites e comparações. São referências, pontos de referência, generalizações.
    Ajudem a definir probabilidades.

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