Desvinculando

Há uns anos gozei bastante com a expressão “desvinculação cognitiva” usada pelo então presidente do Conselho de Escolas, Álvaro de Almeida Santos.

Mas a vida é o que é e eis que me sinto um bocado assim, como que a desvincular, cognitivamente e não só, ao ler alguns planos de melhoria do sucesso escolar, leia-se dos resultados escolares, de que me vão enviando algumas partes, ainda em rascunho ou em processo mais avançado.

E desvinculo porque me sinto a atrofiar com o retrocesso conceptual de décadas que alguma da teoria envolvente representa (há quem não tenha conseguido ainda sair das sebentas pedagógicas de há 20-25 anos) e prevejo uma completa escravidão burrocrática com todo o tipo de documentação que é preciso produzir para preparar o diagóstico, realizar o diagnóstico, registar a realização do diagnóstico, avaliar o diagnóstico, registar essa avaliação, reflectir sobre o diagnóstico, alcançar conclusões a partir do diagnóstico, preparar acções (de preferência em forma de plano) em consonância com essas conclusões, produzir materiais de apoio para essas acções, registar as acções e materiais, bem como a calendarização da sua “operacionalização”, operacionalizar em si mesmas essas acções, registar essa operacionalização, avaliar a operacionalização, acção a acção e no seu conjunto, articular horizontal e verticalmente tal operacionalização ao nível do ano, do ciclo, da estrutura programática, disciplinar e curricular, registar isso tudo, avaliar de novo, reformular ao mínimo sinal de insucesso, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc.

Tortura Azeite

6 thoughts on “Desvinculando

  1. hum… o que não me agrada é ter a IGE á perna a ver se cumprimos. Os papeis podem sempre simplificar-se: haja criatividade…
    mas, já sabíamos o que lá vinha…isto é o modus operandi do ps…

    Gostar

  2. Era interessante que as escolas dessem um exemplo do tal “espírito crítico”, de que todo e qualquer documento pomposo fala, e simplesmente rejeitassem esta papelada toda.

    Eu volto a dizer: parece que dar aulas já não é considerado trabalho a sério – o papelinho e relatório para tudo é a prova disso e é aquilo que é considerado “trabalho” – a este ponto chegou a desconfiança, ou a tentativa de nos diminuir e subjugar, enquanto profissionais. Só tenho pena de ver tantos colegas a colaborar com esta ideia que se vai infiltrando por todo o lado, sem nada estranharem ou dizerem.

    No dia em que o meu trabalho valer pelos relatórios/documentos/grelhas que eu fizer, coitados dos meus alunos (e de mim!)…

    Gostar

  3. “… atrofiar com o retrocesso conceptual de décadas…” – Absolutamente de acordo!
    É melhor, mesmo, desvincular… é fundamental preservar a sanidade mental. Se no ME é o vira o disco e toca o mesmo, ora a 78 rotações, ora a 45 ou ainda a 33 rotações… nas escolas consegue existir muito pior – enchem-se de competências e correm a produzir obediências e “lambe-rabos”…

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.